Posts de Francisco Raposo Ferreira (160)

Assim me Fizeste

Assim me fizeste

 

Nasci sem nada,

Tal como toda a gente.

Fui criança amada,

Não o é toda a gente.

Cresci com dificuldades,

Muitos crescem assim.

Recebi amor e amizades,

Outros têm outro fim.

A vida deu-me um sorriso,

No amor de meus pais.

Esse é o bem mais preciso,

O resto, coisas banais.

Por mulheres fui amado,

Por algumas fui traído-

Fui um irmão adorado,

Um sentimento retribuído.

Errei por meio mundo,

E meio mundo em mim errou.

Hoje digo-o cá do fundo,

Meu coração sossegou,

Porque o amor encontrou

Tu assim me fizeste, Feliz.

 

Para Isabel, minha esposa.

 

Francis Raposo Ferreira

17/01/2020

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O Passarinho Grato

O Passarinho grato

 

Francisquito regressava a casa, quando ouviu algo que lhe pareceu o piar de aflição de algum passarinho. Imediatamente um pensamento lhe aflorou à ideia, aquilo só podia ser obra do menino Vítor.

Vitor era um jovem, mais ou menos da mesma idade de Francisquito, que passava o seu tempo livre a montar armadilhas aos pássaros, o que já lhe valera a ida, várias vezes, ao posto da guarda local, bem como ao pagamento de algumas multas, estas a cargo dos pais.

O piar do pobre animal não deixava dúvidas, estava mesmo em dificuldade. Francisquito olhou à sua volta, pois Vitor tinha fama de ser agressivo para quem lhe estragasse as armadilhas, e só após se certificar que estava sozinho, é que se aventurou a entrar pelo mato dentro. Suspeitando que os seus passos tivessem assustado o pobre animal, visto ter deixado de piar, decidiu suspender a marcha e aguardar um pouco, embora desejasse sair dali o mais depressa possível.

Não precisou esperar muito, logo o piar do passarinho se voltou a fazer ouvir. Apurou o ouvido e lá conseguiu chegar ao local onde, como já calculara, um indefeso passarinho, parecia-lhe um pintassilgo, se encontrava preso por uma pata. Um daqueles laços que tão bem conhecia de Vitor, os quais se apertavam, tão fortemente, em torno da pata dos pássaros que lhes era impossível libertarem-se. Observou o dito laço, tentou partir o fio, mas nada, era bem resistente.

Francisquito afastou-se um pouco, em busca de algo que o ajudasse a quebrar o fio e soltar o pobre animal. Viu uma pedra em forma de faca, agarrou-a e, agarrando na patita do passarinho, lá foi conseguindo quebrar o fio.

O passarinho, assim que se viu livre, bateu as asas e fugiu para bem longe dali.

Assim que chegaram as férias da Páscoa, Francisquito correu a fazer aquilo que mais adorava, ficar sentado na margem do rio, a observar os bandos de lindos pássaros a, ali irem beber.

Francisquito ainda mal se tinha sentado, quando sentiu uma forte pancada na cabeça.

As horas passaram até que Francisquito voltasse a si. Assustou-se, não tinha bem a noção de onde estava, tudo aquilo lhe parecia desconhecido, tal era o efeito da pancada recebida. Que raio estava ali a fazer? Porque não estava em casa, como de costume? Tentou sentar-se, parecendo-lhe que o chão parecia molhado. Sentiu uma forte dor na cabeça, levou a mão ao sítio onde lhe doía e pareceu-lhe que tinha a cabeça molhada.

Francisquito já não sabia se sonhava ou se estava acordado, nada daquilo lhe fazia sentido. Assim que se sentou, começou a ver tudo a andar à volta. Apoiou ambas as mãos no chão e lá se foi recordando do que se passara:

- Ah, aquele malandro do Vitor!

Agora sim, recordava-se de tudo, até das últimas palavras que lhe ouvira:

- Isto é para aprenderes a não te meteres onde não és chamado. Hoje, não me vais estragar a caçada.

Francisquito deixou-se ficar quieto. Havia ali qualquer coisa de estranho. Olhou para cima da sua própria cabeça e o que viu, deixou-o perplexo. Dois passarinhos, apesar do escuro que se fazia sentir ,um deles com um fio pendurado na pata, pelo que poderia ser o que salvara no outro dia, batiam as asitas em grande esforço, de modo a conseguirem refrescar-lhe o rosto, enquanto um terceiro lhe depositava pequenas gotículas de água sobre a cabeça. Foi então que ouviu os gritos de alguém a chamar por ele, logo reconheceu a voz do pai:

- Fique sabendo, a sorte do seu filho, foi ter recebido essa providencial ajuda que o foi refrescando e molhando a cabeça. Não fosse tal ajuda, e não sei o que poderia ter acontecido.

 

Moral: “O que importa, não é o tamanho dos amigos, mas sim da amizade.”

 

Francis Raposo Ferreira

17/01/2020

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Sexo Virtual

Sexo Virtual

 

Hoje tudo parece normal,

Há desculpas para tudo,

Até quem sem acto sexual,

Se pense pai, e não cornudo.

 

Engravidou por via virtual,

Ela lhe diz com convicção,

Para ele é muito natural,

Ela enganá-lo, isso é que não.

 

Valha-nos a nova tecnologia,

Assim tudo fica esclarecido,

Milagre assim, antes não havia.

 

Não há traição em Portugal,

Há é algum mal-entendido,

Ignorância sobre o sexo virtual.

 

Francis Raposo Ferreira

17/01/2020

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Voltaram a Ser Crianças

Voltaram a ser Crianças

 

Encontraram-se por acaso, no Largo da Conceição, em Beja, e na encruzilhada dos caminhos das suas vidas.

Inês, ainda a tentar ultrapassar o trauma provocado pelo fim de um namoro com mais de sete anos, acabara de sair do Museu Rainha Dona Leonor, não por qualquer interesse especial, mas somente porque não conhecia nada da cidade e aquele lhe pareceu ser um local fresco, enquanto David, como fazia tantas vezes desde que enviuvara, se decidira a meter-se no carro e ir sem destino, pelo que chegando a Beja à hora do almoço, resolvera entrar na cidade e procurar um sitio onde pudesse comer alguma coisa e, sobretudo isso, saciar a sede, era daí que acabava de sair quando, tão distraído ia, não viu Inês e chocou com ela..

O forte calor Alentejano caía a pique sobre a cidade, como que tirando a capacidade de reacção a quem não estivesse habituado a ele, como era o caso de Iambos.

Ao sentirem o choque dos seus corpos, entreolharam-se mutuamente, primeiro de um modo disfarçado, depois já mais insistentemente e, como que hipnotizados, começaram a descobrir pontos de interesse no que viam no outro.

Nenhum tinha a noção do tempo que ali ficaram a olhar-se, até que vencida a timidez inicial, ele lhe pediu desculpas, se apresentou e, dizendo-lhe que era para a recompensar pelo encontrão, a convidou para uma bebida fresca.

Inês achou-o educado, simpático e divertido, mas ao mesmo tempo, triste.

David por sua vez achou-a muito bonita, atraente, parecendo-lhe, sem saber explicar porquê, ser uma rapariga de cabeça limpa, embora lhe parecesse receosa, talvez até um pouco carente.

Inês aceitou o convite, confessando-lhe estar mesmo a precisar de uma bebida fresca, tal o calor que parecia querê-la sufocar. David deu meia volta, gostara do restaurante onde almoçara e fez-lhe sinal para que tomasse a dianteira, não o fazia somente por uma questão de delicadeza, mas também para a poder apreciar na plenitude das suas formas:

- É curioso, toda a minha família é desta zona, nunca cá tinha vindo e hoje, sem querer, aqui vim parar e aqui estou com uma linda rapariga à minha frente.

Inês começava a engraçar com ele, revelando-lhe ser a primeira vez que estava em Beja e o motivo da sua viagem, fugir para longe dos lugares que havia visitado com o namorado que a abandonara a duas escassas semanas do casamento. David revelou-lhe ser viúvo há pouco mais de um ano e ainda estar a começar a despir a viuvez.

O calor da tarde parecia estar combinado com o destino deles, convidando-os a deixarem-se ficar a falar de cada um deles, como se fossem velhos conhecidos que há muito se não viam:

- Olha, sabes o que estou a pensar?

- Não, mas acredito que me vais dizer.

- Estou a pensar que com todo este calor, talvez não fosse má ideia procurar onde dormir esta noite e, caso assim o aceites, fazer-te companhia até amanhã.

- Não só o aceito, como te agradeço, pois desde que o outro se foi, não me tem apetecido falar com ninguém, mas contigo está a saber-me muito bem. Se quiseres até podemos ir ver se a senhora onde estou hospedada, ainda tem algum quarto vago.

- Agradeço-te, com este calor, tirando o teu, não deve ter mais nenhum alugado.

- Tens razão, qual a louca, tirando eu, que se aventuraria a vir passar o fim-de-semana a Beja.

- A louca não sei, mas o louco, talvez mesmo só eu. Vamos?

Afinal, sem saberem explicar porquê, ficaram aquela noite, a outra, e a outra:

- Tu não tens de ir trabalhar? Hoje já é quarta-feira.

- Eu não trabalho, ou melhor, sou empresário por conta própria. E tu?

- Sou professora, estou de férias.

Os dias passavam e o prazer de estarem juntos, renascia todos os dias com a mesma força com que o sol renasce nas terras Alentejanas. Nenhum sabia explicar o que os continuava a prender ali.

Inês, vendo nele a confiança que tanto ansiava, não tinha problemas em dizer-lhe o que pensava dele e dos seus planos, ao que David respondia com sinceros galanteios, tanto à sua beleza física, como intelectual.

Inês, passada mais de uma semana de se terem conhecido, ousou confessar-lhe nunca ter rido com tanta felicidade como ele a conseguia fazer sorrir. ele respondia-lhe que o fazia, simplesmente porque adorava vê-la a sorrir, pois quando sorria, ficava mais, ainda mais, bonita:

Foi ao aproximar-se novo que ele a surpreendeu:

- Sabes como é o tempo, umas vezes parece que nunca mais passa, outras, infelizmente, parece que passa depressa demais.

- É verdade, agora que acredito ter redescoberto uma razão para voltar a sorrir à vida, é que o tempo passou depressa demais.

- Depressa demais, aqui nesta calma toda?

- Sim.

- Estava a brincar contigo, também lamento que o nosso tempo esteja a acabar.

- Enganas-te David, se tu quiseres, por mim, o nosso tempo ainda só está a começar. Tu soubeste fazer com que voltasse a sentir-me criança e, eu, fui uma criança muito feliz.

David, pela primeira vez desde que enviuvara, também ele ousou deixar voar o pensamento até aos seus tempos de criança, quando era muito feliz, colocou-lhe as mãos no rosto e voltou a saborear o prazer de beijar uma mulher.

 

Francis D,Homem Martinho

15/01/2020

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Viajando em Alves Redol

Viajando por Alves Redol

 

Ler um livro de Alves Redol

É fechar os olhos e sonhar,

Ver “Avieiros” num dia de sol,

“Constantino a guardar

Vacas e Sonhos” e sobre a mole

De “Marés” do Tejo, navegar.

Lezíria Ribatejana em calmaria,

Adorando “Uma Flor Chamada Maria”.

 

Ler Alves Redol é ver nossa gente,

É abrir “Uma Fenda na Muralha”

Ver que “O Destino Morreu de Repente”,

Pra esta gente que canta e trabalha,

É ouvir um “Anúncio” diferente,

Pedindo “Gaibéus”, nunca falha.

É a “Fanga” na “Noite Esquecida”,

“Histórias Afluentes” escritas na vida.

 

Ler Alves Redol é um “Porto Manso”

Nunca será “Horizonte Cerrado”,

“Maria Emília” não tem descanso,

Frenética, qual “Cavalo Espantado”

Manobra a “Forja” com balanço,

Olhando o “Muro Branco”, pintado.

“Vida Mágica de Sementinha”

Com “Espólio” feito de nadinha.

 

Ler Alves Redol é embarcar,

Com “Olhos de Água”

No “Comboio das Seis” e emigrar,

Deixando para trás a mágoa,

D’ “A Flor Vai Ver o Mar”,

Quem sabe, lá prós lados de Mortágua.

“Barranco de Cegos” e sua má sorte,

Enquanto “A Flor vai Pescar Num Bote”

 

Ler Alves Redol é mais que “Estudos”,

É um “Cancioneiro do Ribatejo”,

Talvez sejam “Os Reinegros”, barbudos,

“Os Homens e as Sombras” que não vejo,

“Vindima de Sangue”, em copos bojudos,

“Fronteira Fechada” que não desejo.

“Barca dos Sete Lemes” que se avista,

Li Redol “Nasci Com Passaporte de Turista”

 

Ler Alves Redol é visitar as belezas

Do “Romanceiro Geral do Povo Português”,

Quando “Maria Abre o Livro das Surpresas”

“Glória – Uma Aldeia do Ribatejo”, vês.

São historias de vidas Portuguesas,

Que vives, quando Alves Redol, lês.

“Três Contos de Dentes Para O Oficio”, editou

“A França – Da Resistência à Renascença”, acabou.

 

Francis Raposo Ferreira

15/01/2020

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Alma de Poeta

Alma de Poeta

Alguns pensam em guerra,
Outros sonham com amor.
Alguns destroem a terra,
Outros desejam-lhe o melhor.

Alguns matam a esperança,
Outros aspiram liberdade,
Alguns nunca foram criança,
Outros não acusam a idade.

Alguns não sabem amar,
Trazem na mão, só maldade,
Sãos, ameaça à humanidade.

Outros, fazem-nos sonhar.
Trazem na mão, só a caneta,
Loucos, têm alma de poeta.

Francis Raposo Ferreira
15/01/2020

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Viajando nas Letras

Viajando nas letras

 

Depois de ler Camões,

Ou António Aleixo,

E imaginar tais paixões,

De nada mais me queixo,

E, nas asas das ilusões,

Deixar-me ir, eu deixo.

Ah, Barbosa do Bocage,

Onde tudo interage.

 

Camilo Castelo Branco,

Num “Amor de Perdição”

Eça de Queiroz, li-o tanto,

Era de dia, ou ao serão,

Sua escrita era encanto

Para minha alma e coração.

E no ilustre peito Lusitano,

Ainda cabia Alexandre Herculano.

 

“As Pupilas do senhor reitor”

Deixavam-me tão feliz,

Li-as e relia com fervor,

Tal como as escrevera Julio Dinis.

Oh Pátria, quanto escritor

É filho de tão nobre país.

Amor, ciúme, ódio de morte,

Tudo lhes servia de mote.

 

Francis Raposo Ferreira

14/01/2020

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Horas Mortas

Horas mortas

Ah, como me importam
Aquelas horas mortas,
É nelas que choram
Viúvas atrás das portas.

Choram suas dores,
Temendo a solidão,
Perderam seus amores
Ficou-lhes a escuridão.

Descida vertiginosa
Que não leva a nada,
Matando a viúva chorosa.

Nada mais faz sentido,
Vida no fim da estrada.
Vida! era seu amor querido.

Francis Raposo Ferreira
14/01/2020

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As Pedras do Caminho

As Pedras do Caminho

 

Lourenço reviu-se a recuar cerca de 25 anos no tempo. O choro daquele menino teve esse condão de o fazer regressar à sua própria meninice. Não que a sua meninice tivesse sido coberta de manto dourado, ou prateado que fosse, mas teve, isso sem dúvida alguma, uma meninice feliz, com uns pais que o amavam e dois irmãos, um dos quais viria a ter vida curta, com quem tinha uma forte relação, a qual ainda hoje mantém com Amílcar, o mano sobrevivente.

Lourenço conseguira, sempre com o apoio dos pais e amigos próximos, atingir um nível de vida que nada tinha a ver com a realidade da casa paterna. À medida que ia conseguindo subir alguns degraus na conquista de novos patamares de conforto e reconhecimento social, o jovem ia, também, arrastando consigo, todos aqueles que antes lhe tinham dado a mão, isto é, nunca se mostrou ingrato para quem o ajudou e apoiou, familiares e amigos.

Outra qualidade com que muito se identificava, era a sua capacidade e disponibilidade para ajudar os outros, mesmo que simples desconhecidos. Lourenço nunca esqueceu de onde viera, pelo que, sempre que tal lhe era possível, ainda que isso significasse ter de abdicar do seu conforto, lá estava o jovem pronto a colaborar na resolução dos problemas dos seus semelhantes, principalmente das gentes da rua que o vira crescer e com as quais nunca cortara relações de amizade.

Aquele choro do pequeno Carlitos, mas sobretudo as palavras da mãe deste, não o deixaram indiferente:

- Carlitos, quantas vezes te tenho dito para não andares aos pontapés às pedras…?

Foram estas palavras, que fizeram Lourenço recuar no tempo, pois trouxeram-lhe à lembrança o seu falecido pai. Quantas vezes aquele o avisara para não pontapear toda e qualquer pedra que lhe surgisse no caminho. Até que um dia, como sucedera agora a Carlitos, teve a infelicidade de ver uma dessas pedras ir beijar o vidro de um automóvel:

- …E agora, como é que vamos explicar ao Dr. Lourenço, e, principalmente isso, como é que vamos contar ao teu pai…?

Aqui já a conversa era diferente das do seu pai, o qual sempre fora um homem decidido, se havia uma atitude a tomar, então que se tomasse:

- …acredito que deve já ter chegado a casa como é costume, bêbado. Sabes o que é que isso significa? Que não te livras de uma tareia das grandes.

Lourenço fez com que a sua presença se tornasse notada, agachando-se junto do garoto e perguntando-lhe:

- Carlitos, prometes-me que nunca mais pontapeias nenhuma pedra?

O petiz olhou-o nos olhos, sentiu-se tentado a dizer que sim, mas na sua ingenuidade de criança, não foi capaz de lhe mentir:

- Eu posso prometer, mas tenho a certeza que não serei capaz de cumprir a minha promessa.

Lourenço sentiu-se feliz com a sinceridade do pequeno. Era como que uma fotocópia do que ele fora. Levantou-se, olhou a mãe do garoto e disse-lhe:

- Não se preocupe com o vidro. Aliás, ele até já estava estalado. Só quero que me prometam uma coisa, será um segredo só de nós três. Posso confiar em vós?

Enquanto lançava a pergunta, Lourenço fixou os olhos nos da mãe do pequeno Carlitos, como que a dizer-lhe “Nada de contar ao seu marido”.

Sim. Foi o que se ouviu em uníssono. A mãe do garoto ainda tentou agradecer, mas Lourenço não lho permitiu. Não havia nada a agradecer.

 

Moral: Quem nunca se esquece de onde vem, sabe sempre para onde vai.

 

Francis D’Homem Martinho

14/01/2020

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Nova História da Carochinha

Nova História da Carochinha

 

Andava uma carochinha

A varrer o chão

Da sua modesta cozinha

Quando achou um tostão.

Ela pôs-se logo a sonhar

Com uma nova vida,

Primeiro queria casar

E ir de viagem seguida,

Procurou o melhor vestido

E pôs a cantar à janela:

“Quem quer ser meu marido,

Sou jovem, rica e bela.?”

Muitos se candidataram,

Mas por qualquer motivo

Todos eles reprovaram

No principal objectivo,

Até que surgiu João Ratão,

Que logo a convenceu,

Ela logo lhe deu a mão

E ele contente a recebeu.

No dia do casamento

Ele pediu para se ausentar

Por um breve momento,

Ela não ousou recusar.

Ele correu até casa dela,

Foi direito à cozinha

E deu-lhe o cheiro da panela,

Tanta fome que ele tinha.

Levantou a tampa e espreitou,

Agarrou no garfo e, já está,

Um belo chouriço espetou

E foi comê-lo para o sofá,

Não se podia demorar

Por isso comeu à pressa,

Correu até onde iam almoçar

E não se perdeu com conversa,

Foi muito linda a festa

Com muito comer e beber.

A outra história não presta,

Aqui o noivo não vai morrer.

 

Francis Raposo Ferreira

13/01/2020

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Idealista no Mundo Real

Idealista no Mundo Real

 

De tanto vos poderia falar,

mas de que isso me serviria?

De nada, vos posso afiançar,

Aliás, alguém me ouviria?

 

Poderia falar-vos da vida,

Minhas tristezas ou meus amores,

Também uma ou outra perdida,

Minhas alegrias, minhas dores.

 

Nada disso interessaria,

Agora se falasse da guerra,

Ou corrupção que grassa na terra.

 

Isso sim, grande tema seria.

Banal falar de Felicidade,

Falem é de miséria, maldade.

 

Francis Raposo Ferreira

13/01/2020

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Arrependimento

Arrependimento

 

Miguel e Laura estão a escassos minutos de se tornarem marido e mulher. Miguel veste um elegante fato, com casaco de aba de grilo, escuro, o que realça, ainda mais, a sua beleza de origem exótica, onde sobressaem os olhos verdes e o cabelo muito preto. Laura, vestida de branco e com os longos cabelos louros a brilharem sob os raios de sol, parece uma deusa. Os olhares dos noivos cruzam-se, Laura esboça um sorriso de felicidade e…ouve-se um grito vindo da porta da igreja onde decorre a cerimónia:

- Miguel, tu não me podes fazer isso. Tu sabes que eu preciso de ti a meu lado. Não te esqueças que este filho que trago na barriga também é teu.

Laura sente uma tontura. Olha para Miguel, como que a perguntar-lhe “O que é que se passa?”. O noivo não consegue pronunciar palavra, dá meia volta, agarra nas abas do casaco e corre ao longo do corredor, atapetado a vermelho, que o leva até ao local onde se encontra a estranha rapariga:

- Sandra! Porque fizeste isto? Não te pedi que ficasses quieta que tudo se resolveria?

- Ficar quieta, como querias que eu ficasse quieta a ver o pai do meu filho casar com outra? Eu não te quero para meu amante, mas sim para meu marido.

Miguel ampara a rapariga e saem da igreja. Laura tem de ser amparada pela família, tão em estado de choque como a própria noiva.

O tempo vai passando. Miguel acaba por casar com Sandra, a mãe do seu filho, e Laura acaba por reencontrar o amor na pessoa do seu psicólogo.

Os anos passam. Miguel é surpreendido por um telefonema inesperado, o seu filho foi atropelado por um carro conduzido por uma loura e encontra-se no hospital, em estado considerado muito grave. Miguel, ainda a caminho do gabinete do seu superior, vai despindo a bata que costuma usar no laboratório, todo o seu pensamento vai para o filho, embora uma pequena sombra se intrometa entre os dois, uma mulher loura.

Miguel chega ao hospital, Sandra está em verdadeiro estado de choque. Tiago, o filho, corre sério risco de vida. Aos poucos e poucos, lá vai conseguindo contar o que sabe sobre o acidente do filho:

- Ao que parece, aquela mulher vinha numa velocidade louca e não parou na passadeira.

- Quem é ela?

- Sei lá quem é. A polícia é que deve saber.

Miguel sente uma estranha sensação dentro de si: “Não, não posso acreditar numa coisa dessas. A Laura não seria capaz de uma monstruosidade destas. Sei que a fiz sofrer muito, mas isto não.”. A razão de Miguel associar a ex-noiva ao acidente do filho deve-se ao facto de se terem cruzado à cerca de uma semana, à porta da escola de Tiago, onde Laura fora buscar a sobrinha. Ele bem que estranhou da simpatia, e do interesse, da rapariga para com ele. Pensara que ela apenas pretendera dizer-lhe: “Vês, apesar do que me fizeste, estou bem.”. Agora já não tem assim tanta certeza. Aliás, já nem tem certeza nenhuma.

Miguel afasta-se um pouco de Sandra, precisa arrumar as ideias:

- Miguel, Miguel.

- Que foi?

- Estão a chamar-nos lá dentro. Oh Miguel, não consigo pensar que o nosso filho…

Entram e são recebidos por uma enfermeira:

- Façam o favor de entrar aqui para o gabinete. Alguém da equipa médica já vem falar convosco.

- Sra. Enfermeira, diga-me a verdade, como está o meu filho.

- Acalme-se. Como já lhe disse, já vem alguém falar convosco.

Vivem-se minutos de verdadeira ansiedade. Sandra não consegue controlar os nervos, enquanto Miguel continua a dividir os seus pensamentos entre o filho e a possibilidade de ser Laura a condutora:

- Boa tarde. São os pais do pequeno Tiago, não é verdade? O meu nome é Caldeira.

- Dr., como está o meu filho?

- Tenha calma. Tem ali um grande lutador. É verdade que se não fosse o verdadeiro milagre que a minha colega fez, talvez essa força do vosso filho não tivesse valido de grande coisa, mas assim, com o esforço conjunto dos dois, posso dizer-vos que o vosso filho está livre de perigo. Embora as próximas horas ainda apresentem algum risco.

- Dr. e ele vai ficar com algumas sequelas?

- Vamos dando um passo de cada vez.

- Dr., nós queríamos agradecer à sua colega.

- Lamento. Ela pediu-me para ser eu a vir falar convosco. Não me perguntem porquê.

- Diga-nos ao menos o nome dela.

- É a Dra. Laura Simão.

- Laura Simão!

- Sim. Conhece a minha colega?

- É uma mulher muito bonita, loura?

- Sim. Conhece-a.

- Creio que sim. Dr., vai-me desculpar, mas tenho mesmo de falar com a sua colega.

- Isso não depende de mim. Vou ver se ela assim o quer.

O Dr. Caldeira volta a entrar na zona reservada, voltando daí a pouco, acompanhado de Laura:

- Laura, sabias que se tratava do meu filho, não sabias?

- Sim. Mas o que é que isso importa?

- Sei que foste tu que o salvaste. Agradeço-te.

- Não tens nada que me agradecer. Nunca misturei a minha vida pessoal com a profissional. Não era agora que ia desistir de salvar uma vida, ainda por cima de uma inocente criança, sem qualquer culpa que o pai não preste para nada. Agora tenho de ir. Boa tarde.

Miguel não sabe se o que sente mais é gratidão àquela mulher que acaba de lhe salvar o filho, se vergonha por, momentos antes, a ter julgado capaz de lhe querer tirar esse mesmo filho.

 

Moral: “Nunca julgues os outros por ti, podes surpreender-te.”

 

Francis Raposo Ferreira

13/01/2020

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Jarras de Amizade

Jarras de amizade

 

Não sendo arquitecto,

Nem tão pouco engenheiro,

Construí minha casa sem tecto

Para ver o Céu por inteiro.

 

Paredes de liberdade levantei,

Cobri-as com telhas de amor,

Invernos frios não receei,

Fiz outro tanto, com o calor.

 

Divisórias, nem sombra delas,

Por minha expressa vontade

Retiraram-se portas e janelas.

 

Como elemento de decoração,

Lindas jarras de amizade,

Florescendo desde o chão.

 

Francis Raposo Ferreira

12/01/2020

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Brilho

Brilho

Diz-me lá, misteriosa Lua,
Já que o sol teima, mo não dizer,
porque, com tanta guerra pactua,
Quem diz somente desejar viver?

Está bem, também não me respondes,
Até te sentes envergonhada,
Ah, é por isso que te escondes.
Enganas-te, não serve de nada.

Repara no sol, todo brilhante,
Pouco que lhe importa a gente.
Que ninguém ouse fazer-lhe frente.

Ó lua, de hoje em diante,
É como o sol, viver a brilhar,
Tu! olha, fica-te com teu Luar.

Francis Raposo Ferreira
12/01/2020

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Mónica

Mónica
 
Mónica tinha a plena consciência que não se enquadrava, nem de perto nem de longe, nos parâmetros ditados pela moda. Aqueles óculos, redondos e grandes, há muito que tinham esgotado o seu prazo de validade, para já não falar da saia, vira o modelo no filme “Música no coração e adoptara-o, ou na camisinha aos folhinhos e rendinhas, conjunto que complementado por aqueles sapatinhos rasos com um lacinho no peito do pé, lhe dava um ar de menina do século passado.
Ao tomar consciência que não era pelo seu lado sensual que os colegas de faculdade teimavam em convidá-la para as matinées dançantes, cimentava a certeza que se não fosse considerada uma das melhores alunas do seu curso, nunca poria os pés nas ditas matinées, onde os namoros nasciam como as azedas no caminho de sua casa até à faculdade.
O ano lectivo aproximava-se do fim e, Mónica, era das únicas, senão a única, das raparigas que ainda não tinha arranjado um namorado que fosse. Na maioria das vezes passava as matinées dançantes a ver os rapazes a cortejarem as suas colegas, só a convidando para um pé de dança quando tinham um rebate de consciência e lá a iam tirar do seu cantinho.
Foi numa das últimas matinées que surgiu Lourenço, rapaz tão bonito quanto tímido, pelo que procurou companhia junto de Mónica, o que gerou muitos ciúmes nalgumas das raparigas presentes. Lourenço era, sem dúvida alguma, dos rapazes mais bonitos da faculdade, só que nunca tinha aceitado os convites para se juntar aos restantes companheiros de faculdade, um pouco pela sua timidez, mas também por identificar aqueles encontros mais como momentos de puro engate que propriamente de convívio.
Agora, fora o seu interesse por Mónica, ainda que nunca confessado, que o levara a aceitar, temia que o ano terminasse sem ter hipótese de conhecer melhor o patinho feio do curso. Não se sentia à vontade com raparigas mais bonitas, pois, não tendo noção do seu charme natural, temia ver-se rejeitado por estas.
Quando a matinée terminou, já se notava, entre Lourenço e Mónica, uma grande empatia. Daí até ele ganhar coragem para lhe pedir namoro, foi um passo. Ela aceitou de imediato.
As aulas terminaram e eles só se voltariam a ver alguns dias depois, visto viverem bastante afastados um do outro. As férias pareciam nunca mais terminar, tal as saudades que sentiam um do outro. Lourenço ainda propusera ir ter com ela, mas Mónica não deixou, preferia mesmo algum afastamento temporário para ter a certeza dos sentimentos do rapaz.
No dia do regresso, lá estavam eles a matar saudades, ainda que num reencontro breve. Seria no dia seguinte que tudo se precipitaria. Estava Lourenço à conversa com outros colegas, falando das férias e de Mónica, quando aquela mulher deu entrada no átrio principal da faculdade. Nunca se vira ninguém assim por aqueles lados, por onde quer que passasse, era impossível os homens não virarem a cabeça para a admirarem. Umas pernas perfeitas, umas nádegas bem moldadas a bambolear ao ritmo dos seus passos, uns cabelos pretos, muito pretos e sedosos, a chegarem-lhe até à cintura. Lourenço pousou os olhos nela e achou-a a mulher mais linda que alguma vez vira. Ela cruzou olhares com o rapaz, sorriu-lhe e dirigiu-se até onde estava o grupo. Todos abriram a boca de espanto e gritaram em uníssono:
“Mónica”
Sim, era mesmo Mónica. Quando lhe perguntaram o porquê daquela transformação, limitou-se a responder:
- Eu sempre fui assim, mas ao vir para a faculdade quis saber quem é que gostava realmente de mim, por aquilo que sou por dentro e não por aquilo que pudesse mostrar por fora. Só o Lourenço me aceitou como eu era, sem reservas. Amo-te.
Todos perceberam a lição.
 
Moral: “Quem compra só pela embalagem, corre o risco de se vir a sentir desiludido.”
 
Francis Raposo Ferreira
12/01/2020
 
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Aquela Noite

Aquela noite

 

Aquela noite, há tanto desejada,

Foi uma noite das outras diferente,

Ela desejava sentir-se amada,

Ele desejava sentir sua carne quente.

 

Aquela noite foi noite sem igual,

Eles se entregaram com amor,

Amando-se numa entrega carnal,

Saciando noites de solidão e dor.

 

Aquela noite tinha de acontecer,

Não podiam continuar a negar,

O que os corpos exigiam, prazer.

 

Aquela noite não podia ser ilusão,

Seus corpos, sedentos de se amar,

Não suportavam mais tanta solidão.

 

Francis Raposo Ferreira

11/01/2020

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Em Busca da Solução

Em Busca da Solução

 

Havia três noites que Francisquito não conseguia dormir, o que, entre outras coisas, lhe vinha prejudicando o rendimento escolar, que até ali sempre fora excelente e, agora, começava a resvalar para índices preocupantes. O professor, sempre tão encantado com o bom desempenho do seu aluno, entendeu não deixar arrastar o problema por mais tempo, até porque se aproximava a época de exames, e chamou o pai de Francisquito à escola:

- Então que se passa, assim de tão grave, senhor professor? Sim, porque só pode tratar-se de algo muito grave, visto que nestes anos que leva como professor do meu filho, nunca me chamou fora das reuniões normais.

- Sabe, senhor Francisco, foi com muito custo que aqui o chamei, mas entendo ser essa a minha obrigação enquanto professor do Francisquito.

O pai, ao ouvir tudo quanto o professor do filho lhe contava, também foi dando mostras de ficar preocupado:

- Pode ficar descansado, senhor professor. O meu filho, pelo menos até hoje, e ponho as minhas mãos no lume, nunca me mentiu. Assim que ele chegar a casa, vou ter uma conversa muito séria com ele.

- Permita-me que acrescente só mais uma coisa. Aqui há uns três ou quatro dias, logo após eles terem saído para o intervalo, fui atrás deles, sem se aperceberem, e ouvi uma coisa que me deixou de pulga atrás da orelha. O Francisquito estava a dizer, a um outro menino, que a mãe teimava em só lhe mandar pão com marmelada, mesmo sabendo que ele não gostava de marmelada, e não é que deu o lanche dele ao outro.

O pai admirou-se com tudo aquilo, voltando a prometer ao professor que iria averiguar. Se bem o prometeu, melhor o fez.

Francisquito, não sabendo da ida do pai à escola, chegou a casa, deu um beijo ao pai, outro à mãe, e disse que ia lanchar. O pai, nada dizendo, foi espreitá-lo. Francisquito agarrou num bom pedaço de pão, abriu-o ao meio, recheou-o, bem recheado, com marmelada e devorou-o:

- Meu filho, precisamos ter uma conversa muito séria. Sente-se aqui na perna do pai como tanto gosta.

A mãe de Francisquito, sabedora de tudo quanto o professor contara ao marido, puxou uma cadeira, sentou-se e preparou-se, como era hábito corrente, para assistir à conversa entre pai e filho:

- Pai, o que se passa, apesar de ser muito simples, é mais complicado do que se possa pensar. O Miguel, o menino a quem tenho dado os meus lanches, nunca leva lanche para a escola e quando era a hora do intervalo, escondia-se de nós. Um dia, perguntei-lhe porque nunca levava lanche e ele disse-me que não tinha o hábito de lanchar. Não acreditei e no dia seguinte resolvi dizer-lhe que a mãe me tinha mandado pão com marmelada mas, como eu não gostava de marmelada, perguntei-lhe se ele queria o meu pão. Pai, mãe, se vocês vissem em quanto tempo o comeu. O Miguel passa fome. Não tenho dormido a pensar como ajudá-lo.

- Porque não falaste connosco? Ou com o teu professor?

- Porque o Miguel é muito complexado, tive medo que o professor lhe fosse perguntar alguma coisa e ele deixasse de ir à escola com vergonha.

A mãe, que se mantivera em absoluto silêncio, agarrou-lhe nas duas mãos e disse-lhe:

- Filho, hoje já podes dormir descansado. Eu e o pai vamos pensar numa maneira de ajudares o teu amigo.

Nessa noite, Francisquito, mais aliviado por ter contado aos pais e por saber que poderia contar com a ajuda deles, dormiu como há muito não dormia.

No dia seguinte, ao abrir a sacola para tirar o lanche, ficou com um sorriso de orelha a orelha, a mãe metera-lhe, não uma, mas sim duas grandes sandes de marmelada e duas garrafas de leite. Correu até junto de Miguel, não lhe disse nada, mas como já vinha sendo costume, deu-lhe a sande que supostamente seria para ele, a qual desapareceu num ápice na boca de Miguel.

 

Moral: A pureza de sentimentos de uma criança, não move montanhas, mas muda o mundo.

 

Francis Raposo Ferreira

11/01/2020

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Velho

Velho

 

Teu corpo é barco atracado

No imenso cais da desgraça,

Barco velho, roto, cansado

À mercê do tempo que passa.

 

Enfrentaste as duras marés,

Com a terra no pensamento,

Hoje, já nem sabes quem és,

Toda tua vida é sofrimento.

 

Tuas ilhargas apodreceram,

Sendo votadas ao abandono,

Nem tua quilha, quiseram.

 

Já nada pode atenua teu penar,

Tua dor, tua fome, ou teu sono.

Teu corpo é barco a naufragar.

 

Francis Raposo Ferreira

11/01/2020

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Amor

Amor

 

Lourenço sempre vira a prima Carmem como sendo a mulher ideal com quem desejava constituir família, mas por motivos que só o destino possa, ou talvez nem mesmo ele, explicar, a verdade é que os seus caminhos acabariam por se separar e estacionar em estações distanciadas da vida de cada um deles.

Carmem, deixando-se levar na ilusão dos sonhos que fazem parte da adolescência, acreditara nas promessas de um antigo namorado, casando-se com ele e de quem tem dois filhos, uma rapariga com 26 anos e um rapaz com 22.

Agora, aos 51 anos, vê-se de novo sozinha na vida, o marido faleceu há três anos e a filha casou há cerca de 2, enquanto o filho se encontra a estudar no estrangeiro, ao abrigo de um desses programas que permitem o intercambio entre estudantes.

Lourenço, ao saber que a prima decidira reatar o velho namoro, acabara por se ir afastando das velhas amizades, pois não conseguia suportar a dor de a ver abraçada a outro, pelo que tal afastamento, mais não foi que pura estratégia para também se afastar dela, ao mesmo tempo que ia estabelecendo novas amizades, de entre as quais viria a conhecer aquela que se tornaria sua esposa. curiosamente uma professora estrangeira convidada para leccionar na universidade onde ele estudava.

Foi já após o nascimento do seu segundo filho, e ao ver-se no desemprego, que Lourenço decidiu aceitar o desafio da esposa e emigrar para o país de onde ela viera, a Eslovénia. Toda a sua vida girava em torna da família e da estabilidade da mesma, pelo que, sabendo como sempre soubera que a esposa tinha o sonho de poder voltar à sua terra Natal e sem nada que o prendesse a Portugal, não hesitou em dar novo passo na sua vida.

A vida na Eslovénia não viria a ser bem aquilo que Lourenço idealizara, não só pelas dificuldades em encontrar trabalho, como também pela inesperada mudança que se viria a verificar em Nastja, a sua esposa. Lourenço não conseguia perceber o porquê de tão brusca e radical mudança, atribuindo-a a alguma eventual pressão da família dela, a qual parecia não simpatizar muito com ele.

Foi num dia em que chegou a casa mais cedo, que tudo se precipitou. Nastja, sem sequer lhe dar tempo para despir o casaco, comunicou-lhe já não o amar e que queria o divórcio:

- Eu vou, hoje mesmo, para casa de meus pais. Levo os meninos comigo. Tens a renda da casa paga até ao fim do mês, depois ficas por tua própria conta.

Foi como se o mundo caísse sobre a cabeça de Lourenço. Assim que se sentiu a sós e perdido num país estranho, não aguentou a pressão, voltou a sair de casa e dirigiu-se a um bar no centro da cidade:

- Como é que eu aqui vim parar? Quem é o senhor?

- Acalme-se. Eu sou Português como o senhor. Conheço-o bem, pois sou aluno da sua esposa, vivo num quarto aqui mesmo ao lado de sua casa, e já o tinha visto algumas vezes lá no bar.

- Diga-me, o que aconteceu ontem à noite.

- O senhor bebeu um pouco demais, depois, talvez por influência do álcool, começou a dizer mal dos Eslovenos, principalmente das mulheres e eles agrediram-no e puseram-no fora do bar. Teve muita sorte, pois com o nevão que estava, se eu não calhasse a passar por ali, talvez tivesse morrido enregelado.

- Obrigado. Como te chamas?

- Lourenço.

- Lourenço! Eu também me chamo Lourenço. De que zona de Portugal, é que és?

- Sou de Odemira.

- Curioso, chamas-te Lourenço, tal como eu e, também como eu, és de Odemira. Quem é a tua família?

O jovem, seu providencial salvador, encarava todas as perguntas com naturalidade, atribuindo-as à desorientação que deveria ter tomado conta dele:

- Meu pai já morreu, minha mãe chama-se Carmem.

- Carmem!

O grito de Lourenço, assusta-o:

- Que foi? Conhece a minha mãe?

- Talvez sim, talvez não. A tua mãe, por acaso, é a Carmem Pinho?

- Sim, é essa mesmo. Espere aí, lembrei-me agora de uma coisa que a minha mãe me disse há muito pouco tempo. Ela disse-me que me pôs o nome de Lourenço em homenagem a um primo de quem não sabia nada há muitos anos mas que fora o grande amor da sua vida, amando-o mesmo mais do que alguma vez tinha conseguido amar meu pai, o qual só a fez sofrer.

Lourenço não precisou de ouvir mais nada, só lhe interessava tratar de tudo o mais rápido possível e partir ao encontro daquela que o destino lhe recusara tantos anos antes. Mesmo que ela não estivesse preparada para o receber, não cometeria o mesmo erro outra vez, esperaria por ela.

Lourenço não precisou esperar tempo algum, Carmem sabia que só a seu lado poderia ser feliz.

 

Moral: A vida pode dar muitas voltas, mas depois, talvez seja nas voltas da vida que está a Felicidade.

 

Francis D’Homem Martinho

10/01/2020

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A Primeira Vez

A Primeira Vez

Um cantor, em tempos, cantava:
“oh tempo volta para trás...”
era o que eu agora gostava,
voltar a ser outra vez rapaz.

A primeira vez que te vi,
foi num encontro casual,
fiquei enamorado por ti,
achei-te logo muito sensual.

O dia em que não te via
já para mim não era dia,
sonhava com o teu rosto.

Tu eras todo o meu desejo,
sempre me negaste um beijo,
depois deste-mo com gosto.

Francis Raposo Ferreira
10/01/2020

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