Posts de Kleber Luis Antônio Pinheiro (14)

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Ruinas

As cidades, essas senhoras cansadas,

vivem trocando de roupa no espelho do tempo.

O que ontem eram torres e altas sacadas,

hoje são apenas o lugar onde descansa o vento.

Dizem que são ruínas... Mas eu não creio.

Ruína é o coração que não sabe guardar um grão de luz.

O escombro é só o poema que parou pelo meio,

uma infância que de repente ficou adulta e nos conduz.

Nas frestas dos muros, a erva-doce insiste em nascer.

Onde houve teto, agora existe o céu inteiro.

É preciso uma certa arquitetura do esquecer

para que a alma possa morar no que é passageiro.

Não chores pelo que caiu, ó poeta de plantão!

Pois o que desmorona liberta o olhar do que era preso.

Ruína é apenas a casa abrindo a sua própria mão

para deixar o sol entrar sem pedir licença ou peso.

Kleber Luís Antônio Pinheiro

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Invasão

Os marcianos invadiram a Terra, numa noite sem aviso,
sem trombetas, sem foguetes — só um silêncio preciso.
No céu, um risco verde abriu a pele do escuro,
e a lua pareceu menor, com medo do futuro.
Desceram como quem chega atrasado a uma festa,
olhando nossas ruas como quem mede o que resta.
Tinham olhos de vidro, coração de metal,
e uma curiosidade fria, quase cordial.
As antenas tocaram postes, vitrines, jardins,
farejando nossos “porquês”, nossos “agoras”, nossos “fins”.
E nós — tão acostumados a brigar por qualquer chão —
viramos um só susto, uma só respiração.
Tanques tremeram, sirenes morderam a madrugada,
mas o invasor não vinha com raiva, vinha com nada:
nenhuma bandeira erguida, nenhum discurso feroz,
só um mapa de estrelas e a pergunta: “E vocês?”
No rádio, uma voz disse: “É o fim do mundo.”
Mas um menino, na janela, respondeu baixinho, fundo:
“Se vierem pra destruir, a gente vai se defender…
Mas se vierem pra entender, eu posso lhes dizer.”
E foi então que, no meio do caos e da fumaça,
um marciano estendeu a mão — não como ameaça.
Tocou a chuva, provou o sal do nosso mar,
como quem encontra um sonho em forma de lugar.
Talvez invasão seja só medo com outro nome,
talvez o estranho seja um espelho que não some.
E a Terra, por um segundo, sem dono e sem fronteira,
pareceu um coração batendo… na mesma fogueira.

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Purê de batata

 A batata, coitada,
nasceu para a terra:
humilde, redonda,
um pensamento pálido
sem ambição de céu.
Mas eu,
que também nasci para alguma terra
e vivo perguntando demais,
decidi esmagá-la
ato grave, doméstico,
feito com garfo
e certa melancolia.
E ela cedeu.
Como cedem as horas,
os planos,
as frases que a gente não diz
por educação
ou por cansaço.
No prato,
vira nuvem de amido:
consolo branco,
silêncio com manteiga,
um afeto sem discurso.
Eu como
e finjo que é só almoço,
mas sei:
há uma filosofia inteira
nessa massa mansa
que não reage.
O mundo lá fora
ferve sua panela de ruídos.
Aqui dentro,
o purê esfria
com a paciência
de quem aprendeu
a não pedir explicação.
E no fim,
quando raspo o prato,
fica apenas
o brilho raso
da porcelana:
a prova de que o cotidiano
também devora a gente,
com garfo
e certa melancolia.

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Bug no peito

Deu bug no peito.

Não é metáfora: travou mesmo.

Eu ia sentir uma coisa simples,

dessas que cabem no corpo

sem pedir explicação,

mas o sistema do dia

atualizou sem avisar

e agora tudo abre

na tela errada.

A alegria aparece

sem o arquivo.

A tristeza carrega

em círculo, em círculo,

como se o choro

dependesse de internet.

Tento reiniciar:

um café,

uma caminhada,

duas mensagens enviadas

com o cuidado de quem encosta

num vidro quebrado.

Nada.

O coração dá “erro inesperado”

justo quando alguém pergunta:

— você está bem?

Respondo:

— estou.

Porque “estou” é uma palavra curta

e o mundo gosta de frases

que não dão trabalho.

Por dentro, porém,

o peito abre uma janela

com excesso de memória:

nome antigo,

riso guardado,

um domingo que não terminou.

E eu, usuário de mim,

aceito os termos

sem ler,

como sempre.

À noite, o silêncio manda

notificações que não aparecem.

Eu sinto vibrar no escuro

uma ausência

com som de chamada perdida.

Talvez seja só cansaço,

digo.

Talvez passe.

Mas o bug tem seu orgulho:

ele não quer cura,

quer atenção.

Então deixo o peito travar,

faço espaço para o defeito

como quem aprende

que ser humano

é funcionar errado

com insistência.

E no meio do erro,

por um instante,

uma luz pequena acende:

o coração, mesmo bugado,

ainda tenta.

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Poema tirado do bolso

  1. Tirei do bolso um poema
    amassado,
    junto do recibo do pão
    e de duas moedas
    que não compram nem silêncio.
    Não era grande.
    Poema grande dá trabalho,
    precisa de mesa,
    de coragem,
    de um mundo menos apressado.
    Este cabia no meu dia:
    uma frase torta,
    um susto pequeno,
    um “talvez”
    com cheiro de rua molhada.
    Tirei do bolso como quem tira
    um lenço que não resolve,
    uma chave que não abre,
    um bilhete de loteria
    para a sorte dos outros.
    O poema olhou pra mim
    com olhos de coisa achada.
    Disse sem dizer:
    — você me esqueceu aqui
    faz tempo.
    Eu quis alisar as dobras,
    dar-lhe um destino mais digno,
    um caderno, uma capa,
    um nome importante.
    Mas o poema, teimoso,
    preferiu o bolso:
    lugar de resto,
    de pressa,
    de humanidade.
    Porque poema, no fundo,
    é isso:
    uma coisa que a gente carrega
    sem perceber o peso,
    até o dia em que precisa
    e não tem mais nada.
    Então tirei do bolso outra vez,
    no meio da rua,
    e li pra ninguém,
    como se ninguém
    fosse um bom leitor.
    E o mundo continuou passando,
    com seus anúncios e suas certezas,
    enquanto o poema
    — pequenino, amassado —
    fazia no meu peito
    um barulho discreto
    de vida sendo entendida
    por um segundo.
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A Máquina do Tempo

No fundo do armário, entre o paletó
que já não me serve e a gravata
que nunca me entendeu,
há uma máquina do tempo.
Não tem alavanca, não tem luz,
não faz barulho,
é discreta como certas tristezas
que a gente só nota quando senta.
Funciona assim:
basta tocar uma fotografia
com a ponta do dedo,
esse dedo que já assinou papéis,
apontou erros, coçou dúvidas,
e pronto:
o passado se acende
como lâmpada fraca em quarto de pensão.
Volto ao menino
que tinha joelhos esfolados
e uma confiança absurda
no amanhã.
Volto ao pai,
um silêncio com sapatos firmes,
e à mãe,
que dobrava o mundo em panos
para caber na gaveta.
Volto ao amor,
essa oficina de promessas
onde a gente fabrica eternidades
com material de pouca resistência.
Mas a máquina do tempo
tem caprichos:
também me leva ao futuro
quando abro uma carta
que eu mesmo escrevi sem saber,
um bilhete esquecido no bolso
dizendo: “você vai aguentar”.
O futuro, descubro,
é um lugar sem placas.
A rua muda de nome,
os amigos mudam de assunto,
e eu continuo o mesmo,
com a diferença
de ter menos pressa
e mais pequenas dores
para administrar.
Às vezes aperto o botão errado:
uma música me devolve
um domingo inteiro,
com cheiro de café requentado
e a sensação
de que o mundo era simples
porque eu não fazia as perguntas certas.
E há um defeito essencial,
um defeito humano:
a máquina do tempo
não conserta nada.
Ela mostra.
Ela cutuca.
Ela abre a ferida
só para me provar
que ainda tenho sangue.
No fim, desligo o armário,
puxo a porta,
finjo ordem.
Mas a máquina continua ali,
trabalhando em segredo
na parte mais escondida do peito,
onde o tempo, esse funcionário pontual,
carimba as horas
com tinta invisível.
E eu, que queria voltar
para evitar certas quedas,
entendo, com alguma raiva mansa,
que a única viagem possível
é esta:
seguir adiante
carregando o passado
como quem carrega uma mala
sem rodinhas.
O relógio insiste.
A vida insiste.
E eu insisto também,
porque não há outra máquina
senão esse teimoso coração
batendo, batendo,
como quem diz:
agora.

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Ovo Frito

Na frigideira, o dia começa

sem entusiasmo.

Um pequeno desastre doméstico

que ninguém noticia.

O óleo estala 

aplausos para o vazio da cozinha,

onde a cadeira falta

e o rádio fala sozinho.

A gema, um sol atrasado,

nasce sem promessa de calor.

Brilha por obrigação,

como quem ainda cumpre expediente

mesmo sem acreditar muito.

O pão espera.

O café esfria um pouco,

porque a pressa também anda cansada.

Eu observo o ovo

como quem olha o próprio reflexo

num espelho rachado:

inteiro, mas desconfiado.

Comer é um gesto automático,

quase um acordo silencioso

entre o corpo e a manhã.

Mastigo devagar,

assino recibo

de mais uma rotina entregue,

  • igual às outras 

e finjo, com sal e resignação,

que isso basta

para atravessar o dia

sem perguntas demais.

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Arquitetura do Miúdo

 

Há um engenheiro miúdo

que não assina planta

e mesmo assim calcula.

Vai e volta.

Vai e volta.

Como quem mede o mundo

com a própria insistência.

Carrega no bico

o quase nada:

um fio, um fragmento,

um resto que ninguém guardaria.

E com essa pobreza

faz riqueza:

amarra, cruza, repete,

equilibra o vento.

Nada ali é enfeite,

mas tudo parece belo,

como se o necessário

tivesse aprendido a sorrir.

Eu olho e desconfio:

nós também —

os que remendam dias,

os que costuram silêncio,

 

uma coisa habitável.

 

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CPP