As cidades, essas senhoras cansadas,
vivem trocando de roupa no espelho do tempo.
O que ontem eram torres e altas sacadas,
hoje são apenas o lugar onde descansa o vento.
Dizem que são ruínas... Mas eu não creio.
Ruína é o coração que não sabe guardar um grão de luz.
O escombro é só o poema que parou pelo meio,
uma infância que de repente ficou adulta e nos conduz.
Nas frestas dos muros, a erva-doce insiste em nascer.
Onde houve teto, agora existe o céu inteiro.
É preciso uma certa arquitetura do esquecer
para que a alma possa morar no que é passageiro.
Não chores pelo que caiu, ó poeta de plantão!
Pois o que desmorona liberta o olhar do que era preso.
Ruína é apenas a casa abrindo a sua própria mão
para deixar o sol entrar sem pedir licença ou peso.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
Os marcianos invadiram a Terra, numa noite sem aviso,
sem trombetas, sem foguetes — só um silêncio preciso.
No céu, um risco verde abriu a pele do escuro,
e a lua pareceu menor, com medo do futuro.
Desceram como quem chega atrasado a uma festa,
olhando nossas ruas como quem mede o que resta.
Tinham olhos de vidro, coração de metal,
e uma curiosidade fria, quase cordial.
As antenas tocaram postes, vitrines, jardins,
farejando nossos “porquês”, nossos “agoras”, nossos “fins”.
E nós — tão acostumados a brigar por qualquer chão —
viramos um só susto, uma só respiração.
Tanques tremeram, sirenes morderam a madrugada,
mas o invasor não vinha com raiva, vinha com nada:
nenhuma bandeira erguida, nenhum discurso feroz,
só um mapa de estrelas e a pergunta: “E vocês?”
No rádio, uma voz disse: “É o fim do mundo.”
Mas um menino, na janela, respondeu baixinho, fundo:
“Se vierem pra destruir, a gente vai se defender…
Mas se vierem pra entender, eu posso lhes dizer.”
E foi então que, no meio do caos e da fumaça,
um marciano estendeu a mão — não como ameaça.
Tocou a chuva, provou o sal do nosso mar,
como quem encontra um sonho em forma de lugar.
Talvez invasão seja só medo com outro nome,
talvez o estranho seja um espelho que não some.
E a Terra, por um segundo, sem dono e sem fronteira,
pareceu um coração batendo… na mesma fogueira.
A batata, coitada,
nasceu para a terra:
humilde, redonda,
um pensamento pálido
sem ambição de céu.
Mas eu,
que também nasci para alguma terra
e vivo perguntando demais,
decidi esmagá-la
ato grave, doméstico,
feito com garfo
e certa melancolia.
E ela cedeu.
Como cedem as horas,
os planos,
as frases que a gente não diz
por educação
ou por cansaço.
No prato,
vira nuvem de amido:
consolo branco,
silêncio com manteiga,
um afeto sem discurso.
Eu como
e finjo que é só almoço,
mas sei:
há uma filosofia inteira
nessa massa mansa
que não reage.
O mundo lá fora
ferve sua panela de ruídos.
Aqui dentro,
o purê esfria
com a paciência
de quem aprendeu
a não pedir explicação.
E no fim,
quando raspo o prato,
fica apenas
o brilho raso
da porcelana:
a prova de que o cotidiano
também devora a gente,
com garfo
e certa melancolia.
Deu bug no peito.
Não é metáfora: travou mesmo.
Eu ia sentir uma coisa simples,
dessas que cabem no corpo
sem pedir explicação,
mas o sistema do dia
atualizou sem avisar
e agora tudo abre
na tela errada.
A alegria aparece
sem o arquivo.
A tristeza carrega
em círculo, em círculo,
como se o choro
dependesse de internet.
Tento reiniciar:
um café,
uma caminhada,
duas mensagens enviadas
com o cuidado de quem encosta
num vidro quebrado.
Nada.
O coração dá “erro inesperado”
justo quando alguém pergunta:
— você está bem?
Respondo:
— estou.
Porque “estou” é uma palavra curta
e o mundo gosta de frases
que não dão trabalho.
Por dentro, porém,
o peito abre uma janela
com excesso de memória:
nome antigo,
riso guardado,
um domingo que não terminou.
E eu, usuário de mim,
aceito os termos
sem ler,
como sempre.
À noite, o silêncio manda
notificações que não aparecem.
Eu sinto vibrar no escuro
uma ausência
com som de chamada perdida.
Talvez seja só cansaço,
digo.
Talvez passe.
Mas o bug tem seu orgulho:
ele não quer cura,
quer atenção.
Então deixo o peito travar,
faço espaço para o defeito
como quem aprende
que ser humano
é funcionar errado
com insistência.
E no meio do erro,
por um instante,
uma luz pequena acende:
o coração, mesmo bugado,
ainda tenta.
No fundo do armário, entre o paletó
que já não me serve e a gravata
que nunca me entendeu,
há uma máquina do tempo.
Não tem alavanca, não tem luz,
não faz barulho,
é discreta como certas tristezas
que a gente só nota quando senta.
Funciona assim:
basta tocar uma fotografia
com a ponta do dedo,
esse dedo que já assinou papéis,
apontou erros, coçou dúvidas,
e pronto:
o passado se acende
como lâmpada fraca em quarto de pensão.
Volto ao menino
que tinha joelhos esfolados
e uma confiança absurda
no amanhã.
Volto ao pai,
um silêncio com sapatos firmes,
e à mãe,
que dobrava o mundo em panos
para caber na gaveta.
Volto ao amor,
essa oficina de promessas
onde a gente fabrica eternidades
com material de pouca resistência.
Mas a máquina do tempo
tem caprichos:
também me leva ao futuro
quando abro uma carta
que eu mesmo escrevi sem saber,
um bilhete esquecido no bolso
dizendo: “você vai aguentar”.
O futuro, descubro,
é um lugar sem placas.
A rua muda de nome,
os amigos mudam de assunto,
e eu continuo o mesmo,
com a diferença
de ter menos pressa
e mais pequenas dores
para administrar.
Às vezes aperto o botão errado:
uma música me devolve
um domingo inteiro,
com cheiro de café requentado
e a sensação
de que o mundo era simples
porque eu não fazia as perguntas certas.
E há um defeito essencial,
um defeito humano:
a máquina do tempo
não conserta nada.
Ela mostra.
Ela cutuca.
Ela abre a ferida
só para me provar
que ainda tenho sangue.
No fim, desligo o armário,
puxo a porta,
finjo ordem.
Mas a máquina continua ali,
trabalhando em segredo
na parte mais escondida do peito,
onde o tempo, esse funcionário pontual,
carimba as horas
com tinta invisível.
E eu, que queria voltar
para evitar certas quedas,
entendo, com alguma raiva mansa,
que a única viagem possível
é esta:
seguir adiante
carregando o passado
como quem carrega uma mala
sem rodinhas.
O relógio insiste.
A vida insiste.
E eu insisto também,
porque não há outra máquina
senão esse teimoso coração
batendo, batendo,
como quem diz:
agora.
Na frigideira, o dia começa
sem entusiasmo.
Um pequeno desastre doméstico
que ninguém noticia.
O óleo estala
aplausos para o vazio da cozinha,
onde a cadeira falta
e o rádio fala sozinho.
A gema, um sol atrasado,
nasce sem promessa de calor.
Brilha por obrigação,
como quem ainda cumpre expediente
mesmo sem acreditar muito.
O pão espera.
O café esfria um pouco,
porque a pressa também anda cansada.
Eu observo o ovo
como quem olha o próprio reflexo
num espelho rachado:
inteiro, mas desconfiado.
Comer é um gesto automático,
quase um acordo silencioso
entre o corpo e a manhã.
Mastigo devagar,
assino recibo
de mais uma rotina entregue,
e finjo, com sal e resignação,
que isso basta
para atravessar o dia
sem perguntas demais.
Há um engenheiro miúdo
que não assina planta
e mesmo assim calcula.
Vai e volta.
Vai e volta.
Como quem mede o mundo
com a própria insistência.
Carrega no bico
o quase nada:
um fio, um fragmento,
um resto que ninguém guardaria.
E com essa pobreza
faz riqueza:
amarra, cruza, repete,
equilibra o vento.
Nada ali é enfeite,
mas tudo parece belo,
como se o necessário
tivesse aprendido a sorrir.
Eu olho e desconfio:
nós também —
os que remendam dias,
os que costuram silêncio,
uma coisa habitável.