Posts de Kleber Luis Antônio Pinheiro (30)

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Protocolo do amor

 

No início, era só silêncio
e duas mãos sem tradução.
Depois, um gesto mínimo,
quase erro, quase intenção.

O amor não chega fazendo alarde,
não traz carimbo, nem certidão;
ele aprende a falar baixinho
na língua funda da atenção.

Tem seus códigos invisíveis,
suas cláusulas de calor:
olhar nos olhos sem defesa,
escutar sem pedir favor.

Artigo um: ficar presente
quando o mundo desabar.
Artigo dois: cuidar do outro
sem querer aprisionar.

Artigo três: lembrar que a alma
também precisa de repouso;
e que amar não é ter domínio,
é abrir espaço, é dar pouso.

Parágrafo único: o afeto
não se prova em voz maior,
mas no café já dividido,
na espera mansa, no redor.

Há dias em que o amor vacila,
perde a senha, erra o sinal;
mesmo assim, se for verdade,
recomeça do essencial.

Assina-se com pele e tempo,
com coragem e compaixão:
o mais humano dos tratados,
o protocolo do coração.

Kleber Luís Antônio Pinheiro

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Tijolo

 

Nasci do barro,
do peso da terra
e da vontade de ficar.

Levo no corpo
a cor do fogo,
a memória das mãos,
o silêncio das olarias.

Sou pequeno sozinho,
quase nada:
um retângulo rude,
sem canto de música,
sem pressa de flor.

Mas quando me encostam noutro,
quando me alinham,
quando me sonham parede,
viro abrigo.

Seguro o frio do lado de fora,
guardo vozes por dentro,
sustento telhados,
emolduro janelas
para que a manhã entre.

Já ouvi risos,
brigas, panelas,
chuva insistindo na noite,
crianças correndo descalças
sobre o chão da esperança.

E mesmo quieto,
mesmo áspero,
mesmo comum,
sei do milagre:
há coisas que não nascem belas,
mas se tornam casa.

Kleber Luís Antônio Pinheiro

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Abelha

abelha não sabe que vai morrer
quando fere.
Só sabe o mel que carrega,
o peso dourado das horas,
a flor que a chamou pelo nome
que ela ainda não tem.
Pequena operária do efêmero,
construtora de hexágonos perfeitos
num mundo torto 
ela não pergunta o sentido.
Apenas faz. Apenas vai.
Apenas volta cheia.
Há uma sabedoria
em não hesitar diante da rosa.
Em pousar.
Em partir.
Em pousar de novo
como se cada vez
fosse a primeira vez
que o mundo floresceu.
Somos tão mais lentos, nós 
que sabemos demais
e colhemos tão pouco.
A abelha morre de amor,
literalmente.
Que destino mais honesto.

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O Ciclo da Lagarta à Borboleta

 

 

 

Há um tempo em que a criatura
não sabe ainda o que carrega 
arrasta-se devagar pela folha,
fome e verde, verde e fome,
como quem lê um livro sem saber
que é o próprio livro.

Depois vem o silêncio.
O casulo não é morte 
é a pergunta feita por dentro,
o mundo inteiro dobrado em si mesmo,
escuro e úmido como um segredo
que ainda não tem palavras.

Quanto tempo dura o não-ser?
Ninguém sabe.
O tempo, dentro do casulo,
não passa, acontece.

E quando a fenda se abre
não é triunfo, não é glória 
é apenas o inevitável cumprindo-se,
como a chuva que não escolhe
a flor em que vai cair.

A borboleta não se lembra da lagarta.
Não guarda rancor da lentidão,
não sente saudade do chão.
Ela simplesmente voa 
como se voar fosse
a única memória que restou
de tudo que foi preciso esquecer
para se tornar.

E nós, que somos ciclo também,
quantas vezes nos recusamos ao casulo
por medo do escuro
 sem saber que é lá dentro
que a asa se dobra e aprende
a forma do vento.

 

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A INVENÇÃO DO FOGO


Eu te encontro no escuro da boca  não é beijo, são duas chamas trocando segredos sobre como arder sem consumir.

Eu não te busco nas palavras ditas. Busco-te no hálito que antecede o verbo, onde o corpo desaprende o próprio peso e flutua como barco sem âncora no mar do estômago.

Tua mão no meu peito não pede permissão. Escava. Encontra o ninho onde o coração ainda choca seus medos, e fica ali  quieta, como quem descobre que o silêncio também é língua.

Eu te quero como a noite quer a lua: sem pretensão de posse, só o desejo de ser atravessado por tua luz.

Se for para ser breve, que seja assim  duas marés que se encontram uma só vez, mas sabendo o nome uma da outra antes de partir.

Se for para ficar, que seja o fogo que não precisa de lenha nova: aquele que arde no próprio arder, eterno na medida exata do instante.

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O HÁBITO DAS JANELAS

O HÁBITO DAS JANELAS
Alguém que você poderia ser passa pelas janelas sem abri-las.
Olha para fora. O vidro está limpo. Ainda assim, não abre.

Há anos aprendeu que o ar de dentro é mais seguro. Que o vento de fora traz coisas que não se desfazem.

Fica ali. Parado. Contemplando o mundo através de uma barreira invisível que só ele vê.

Às vezes coloca a palma da mão no frio do vidro. Como quem toca em algo distante. Como quem se despede sem ter se aproximado.

E se a janela fosse apenas um pretexto?
Quando criança, abria tudo. Até que um dia algo entrou e não saiu mais.

Agora apenas observa. O sol. A chuva. O vizinho que acena. Tudo de longe. Tudo protegido.
Mas à noite, respira fundo diante do vidro fechado. Como quem está prestes a mergulhar. E não mergulha.

Será que algum dia perceberá que a prisão e a proteção são a mesma coisa vista de ângulos diferentes?

Hoje o vidro embaçou. Ele escreveu algo com o dedo. Uma palavra que apagou antes de terminar.

Ficou olhando para o vazio. E sorriu.
Talvez seja assim: a coragem não seja abrir. Talvez seja apenas continuar na janela, mesmo sabendo que do outro lado existe tudo.

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Tenho um oceano inteiro dentro de mim

Não é amor o que me move  é a maré que não pede licença para subir pela garganta e sair pelos olhos em sal.

Tenho um oceano inteiro dentro de mim e nenhum mapa para navegar minha própria profundidade.

Às vezes afundo sem aviso. Outras, fico à tona como quem não sabe que a superfície também é prisão.

O peito é cais abandonado onde atracam navios que não chamei. Descarregam em mim cargas de silêncio, de coisas que não vivi mas sinto  como se o oceano tivesse memória de náufragos alheios.

E quando a noite espessa, quando não há estrela nem farol de mentira, eu sou a própria escuridão que se ilumina de dentro.
Porque tenho um oceano. E ele não pede permissão para existir em tempestade.

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KLEBER, UM OBSERVADOR DO MUNDO

 

 

 

 

Não sou o centro. Nunca fui. Sou o que sobra quando todos ocupam seus lugares.

Aprendi cedo a arte de não incomodar: ficar pequeno nos cantos, ouvir antes de ser ouvido, guardar na gaveta do peito as perguntas que ferem.

Taquara é onde estou agora. O silêncio das ruas que ainda não conheço pelo cheiro, a chuva que não avisa, os rostos novos que se repetem como versos de um poema que estou aprendendo a declamar.

Mas vim de São Paulo minha terra natal, cidade que me engoliu e cuspiu, que não olha para quem olha. Lá aprendi a velocidade: ser invisível em meio à multidão, ser todos para não ser ninguém, ser ninguém para sobreviver.

E entre essas duas vidas, Minas, Gouveia, onde a esposa e eu já inventamos nosso ritmo. Lá a montanha nos ensinou a paciência que São Paulo roubou. Lá a gente via o céu sem pedir permissão, lá construímos o ninho de onde agora olho para Taquara, para São Paulo, para tudo.

Não escrevo porque entendo. Escrevo porque não entendo.

Por que ela voltou? Por que ele não chorou no funeral? Por que a criança desenhou o céu com a cor de terra?

Cada poema é uma tentativa de traduzir o silêncio dos outros. Cada verso: uma hipótese que sei que está errada, mas que preciso testar.

Sou observador não porque o mundo me convida é que não sei outra forma de pertencer.

Não sei dançar, não sei gritar, não sei ser o primeiro a chegar.

Sei ficar. Sei esperar a luz mudar. Sei encontrar no rosto comum de quem passa apressado a epifania que ele próprio não teve tempo de ver.

Kleber. O nome que me deram em São Paulo, que carreguei por Minas, Gouveia, que assino agora em Taquara, que transformo em verso para que exista pelo menos aqui, neste papel, neste mundo que me observa também.

 

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Coração

CORAÇÃO

O coração é a casa onde o sangue escreve memórias em código, sem pedir permissão. Bombeia o invisível: o que se sente antes de ter nome, antes da razão.

Às vezes é câmara escura  guarda revelações que a luz não alcança. Outras, é farol numa costa dura, iluminando naufrágios sem esperança.

Dizem que pesa menos de trezentos gramas. Mentira. Carrega o peso de quem amou, de quem partiu, de quem ficou na bruma esperando retornos que o tempo engoliu.

O coração não sabe de fronteiras. Bate no exílio como bateu em casa. É o mesmo ritmo em noites terciárias ou no primeiro amor, quando tudo se abraça.

Não se opera com faca fria. Só se cura com o calor de outro peito, com a mão que segura, com a voz que cria um mundo onde o medo fica estreito.

Também é arquivo: guarda o que se perdeu, o endereço antigo, o rosto que sumiu. Às vezes bate mais forte sem motivo só para lembrar que ainda existe, que ainda sentiu.

E quando a boca cala, quando as mãos desistem, quando os olhos cansam de tanta procura, é ele quem continua: pequeno, íntimo, íntegro, batendo a porta de quem não abre, até que alguém escute a urgência dessa fissura.

E quando finalmente se cansa de ser herói, de ser martírio, de ser cárcere — descobre que era, o tempo todo, a dança: o movimento que nos faz atravessar a noite e encontrar, no outro lado, o próprio amor esperando como quem sabia, desde sempre, que viria.

Kleber Luís Antônio Pinheiro

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O SILÊNCIO DAS COISAS QUE NÃO TEM NOME

 

O SILÊNCIO DAS COISAS QUE NÃO TEM NOME

Eu tenho objetos
que não uso
mas não jogo fora
não porque tenho dó
porque eles têm
algo
que eu não sei
o nome

O silêncio das coisas que não têm nome
é mais alto
que o meu
é mais antigo
que o meu
é mais
que o meu

Eu guardo
uma pedra
de rio seco
uma chave
de porta que não existe
uma fotografia
de pessoa
que não lembro
quem é
e mesmo assim
guardo

A coisa sem nome
me olha
do armário
da gaveta
do fundo do bolso
e eu olho
de volta
sem saber
por que olho
só sei
que se jogar fora
vou sentir
falta
de algo
que não sei
o que é

Eu queria ter sido
a coisa
que você guarda
sem saber
por que guarda
mas sou só
a pessoa
que você
esqueceu
o nome
e ainda assim
lembra
de vez em quando
quando arruma
a gaveta
e acha
e segura
um instante
antes de
colocar
de volta
no escuro

O silêncio das coisas que não têm nome
me ensinou
que amor
também não tem
nome
às vezes
é só
isso
que fica
quando o nome
vai embora
com a pessoa
que tinha
nome
e agora
só tenho
isso
que não sei
chamar
de que

Se um dia
você abrir
sua gaveta
e encontrar
algo
que não sabe
por que guarda
não jogue fora
segure
um instante
pense em mim
que não sei
se sou
pessoa
ou coisa
ou nome
ou só
silêncio
que ficou
quando você
foi

Kleber Luís Antônio Pinheiro

 

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Laboratório de Poesias

 

nesta mesa de fórmica rachada misturo o que não deveria. sal com açúcar. raiva com ternura. o ontem que não passou com o amanhã que não chega.

uso a colher de chá como bisturi. abro a pele das palavras para ver o que sangra. às vezes é vermelho. às vezes é só silêncio com cor de ferida.

testo a paciência do papel. rabisco. tacho. rasgo. cole com fita adesiva o que não quer colar. o poema também chora quando ninguém vê.

meus ratos de laboratório são versos que não deram certo. correm em rodas, cansam-se, morrem de esperar uma cura que não existe.

mas eu persisto. acendo a luz amarela das três da manhã. escrevo com a mão esquerda para enganar o cérebro. para que ele não saiba que estou fazendo poesia. para que ele pense que é só mais uma lista de compras: pão, leite, esquecimento, salvação.

quando o poema explode na minha cara, eu não limpo. deixo a poeira assentar nas rugas. assim fico mais velho e mais verdadeiro.

neste laboratório não há fórmulas. só tentativas. só erros que brilham no escuro como fósforos queimando os dedos de quem ainda acredita em fogo.

 

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EXPLOSÃO GALÁTICA

 

 

a casa do silêncio arde sem chama 
cada átomo meu grita o nome que nunca disse.
tu me procuras no mapa das constelações que já morreram:
a luz que toca tua face viajou milhões de anos
para não encontrar ninguém.

o que explode em mim não é estrela 
é o espaço entre dois batimentos,
a geometria do quase-tocar,
a matemática da saudade antes que exista o ausente.

galáxias inteiras nascem em meu peito
e eu, tão pequeno,
tão vastamente sozinho,
sou o buraco negro que devora
própria luz
própria sombra
própria voz que chama por ti
no vácuo onde nem o eco ousa nascer.

ainda assim 
algo permanece:
a poeira dourada dos mundos que fomos,
flutuando,
flutuando,
esperando outro big bang
que talvez seja
apenas
teu olhar
me encontrando.

 kleber luís antônio pinheiro

 

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O Que Resta de Nós

Eu caminho sem saber para onde, e isso não me pesa nem me alivia. Às vezes paro para olhar uma árvore e ela não me diz nada  o que é um alívio.

As coisas estão onde estão: o copo na mesa, o cão no quintal, o céu que não pediu para ser azul e continua sendo.

Eu gostaria de saber se o amor é algo que se encontra ou que se inventa. Mas prefiro não saber. Prefiro fazer o café e sentir que, por alguns minutos, isso é suficiente.

Não quero ser lembrado por versos. Quero ser o que fica depois que tudo passa: o hábito de acordar cedo, a mão que estendeu pão, o silêncio que não precisou de palavras.

Hoje eu existo. Amanhã talvez não. E entre essas duas certezas, cabe uma vida inteira.

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ANTES DE VOCÊ IR

"Antes de Você Ir" fala sobre aquele amor que já sente a ausência antes dela acontecer. É sobre tentar guardar os pequenos detalhes de quem vai embora o som da chave, o cheiro na fronha, o café pela metade como se pudessem preencher o vazio que vi
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Kleber

Kleber

​Kleber escreve versos que não dormem.

Luis guarda no peito o que os outros jogam fora.

Antonio questiona o silêncio até ele responder.

Pinheiro — porque suas raízes são fundas,

e de profundeza se faz poesia.

​Quatro nomes para um só homem que

ainda acredita que as palavras salvam.

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CPP