Quem sabe?
Se voz tivera
(e fosse afinada, quem me dera)
A cantar, enquanto me cabe,
Da vida e da natureza os encantos,
Mais que o triste cantar dos prantos -
Ah, quão feliz, meu Deus, me sentira,
E louvar-vos ia, ao som de diáfana lira...
Quem sabe?
Se voz tivera
(e fosse afinada, quem me dera)
A cantar, enquanto me cabe,
Da vida e da natureza os encantos,
Mais que o triste cantar dos prantos -
Ah, quão feliz, meu Deus, me sentira,
E louvar-vos ia, ao som de diáfana lira...
O Cortejo
E todos se vão...
Sim. Se vão... em vão...
O cortejo caminha, se esvai,
Ainda que lento, relutante...
E se perde, distante...
Afinal, não era mais que festa
De convivas não convidados...
E reflete, tergiversa, mas sai
E se perde na imensidão.
E o que me resta,
Bem o sabeis, amigos amados,
É não mais que solidão...
Mar Lusitano
Nunca fui ao Velho Mundo
(E o lamento, sem pejo).
Mas, se o for, nalgum dia,
Irei ao Porto, a Coimbra, a Lisboa -
A conhecer os palácios da Real Coroa!
E mais, ao Algarve e ao Alentejo;
A Fátima, onde esteve a Virgem Maria!
Quem sabe, à Madeira, nas Desertas,
E aos Açores, do mar profundo,
Onde hei de conhecer o Corvo, as Flores
E a Ilha Terceira, com seus famosos cantores.
Ah, com a mente e a alma abertas,
Por lá, em sonhos, desfilarei por plagas belas
E pelas terras e águas aventureiras,
De onde partiram naus e caravelas
Às indígenas terras brasileiras!
Saulo de Tarso
E, de Saulo, faíscam
Os cascos de seu cavalo.
Súbito, raios o céu riscam
No horizonte de nuvens esparso.
E retumba no céu mítico trovão
Quando, num lancinante estalo,
O romano nascido em Tarso,
Se vê lançado ao chão!
Escuta uma voz. Grita: Por que me segues?
E se dá conta de que lhe falta a visão...
- Não, Saulo – és tu que me persegues,
Lhe responde uma voz envolvente -
(E, se enxergasse, o veria em meio à luz)...
Saulo estremece: Só pode ser ilusão...
Então, ouve, em tom deveras candente:
- Vem a mim, Saulo. Meu nome é Jesus!
Tempo de descansar
E agora, amigo? E agora?
A idade chegou
O teu pé inchou
E o jogo acabou...
Era mesmo chegada a hora...
Sei, meu caro, que ficas emocionado
Porque não mais te calça a chuteira -
E já não a deslisas pelo gramado...
Então, se o desforço, a canseira,
Te exaurem e te embaçam a vista -
Ah, meu amigo, te acalma, não insista -
Vá para casa, toma uma cerveja,
E pede a Deus que te proteja!
Já não sou madeira de lei,
Bem o sei...
Quando criança, a me divertir,
Bastava uma simples bolinha de gude -
Não me preocupava o porvir...
Cresci... e ao tempo da juventude,
Me era por certo de mais valia
Valer-me da força bruta
Ah, eu não primava pela sabedoria
E rija era mesmo a diária labuta.
O tempo passou. E veio a experiência,
A me ensinar a agir com prudência!
Então, se com madeira nobre -
Seja de cedro, mogno, imbuia, jatobá,
Cabreúva, aroeira, angico, jacarandá,
Não se faz cabo de vassoura, de fato
(E a Deus por isso se deve ser grato),
Não é de se desprezar a madeira pobre -
Mesmo o mais humilde bambu -
Que em casebre se faz de telhado
E abranda a força do vento!
Que se louve, pois, toda madeira -
O pinus, o eucalipto do reflorestamento,
A utilidade da imbuia, do freixo e do guatambu,
A rigidez do cabo de martelo da nogueira
E, pelos ipês floridos, Deus seja glorificado!
E conto história de cinquenta anos atrás...
- Que olhos, meu Deus, tinha a menina!
Quanto hoje a mim deveras compraz
Recordar-me dos suspiros pela Nina...
Então o Altíssimo, suspirando também,
Enviou a ela um anjo, celestial cupido,
A sussurrar poemas no seu ouvido...
E Nina do meu amor se tornou refém!
A vida é mesmo emocionante,
A ver o que faz quem a preza tanto...
E aqui me vejo, não obstante,
A chorar bobas mágoas
E me debulhar em pranto,
Sem atentar que, ao meu lado,
Há quem a celebre em fráguas
E a louve feliz, em alto brado!
Aconchego é paz,
Aconchego é carinho,
É acolhimento
A quem vive sozinho -
É socorrer um incapaz
Num gesto de alento.
Aconchego é o abraço apertado,
É o sorriso dobrado,
É a dor dividida.
É dar guarida
Sem pedir nada.
É desatar nós intrincados
Que bloqueiam a caminhada,
De quantos se sintam cansados.
Ou ouvir com encantamento
O sorriso de uma criança.
É ser solidário ao lamento
Do irmão sem esperança,
Do que dorme na rua,
Ou em qualquer cantinho...
Aconchego é carinho,
Aconchego é paz!
Não me envergonharei,
Se assim a sorte o quiser,
(E se ao Altíssimo aprouver)
De me sentar em sarjetas,
Não me deterão, bem o sei,
Emparedadas muretas,
Porque, em sonhos,
Infinitos, Ilimitados,
Com meu olhar maravilhado,
Avisto anjos risonhos
Num céu azul todo enfeitado,
Aberto a todos, sem alambrados.
Que tanto,
Em teu canto,
Intentas?
Que, se plantas,
Com todo carinho,
Roseiras, por quê te encantas -
Ainda que venha espinho -
Brotarão rosas,
Por certo formosas,
E não pimentas...
Ah, eu queria, nesta quarta consagrada,
Escrever ao menos uma poesia inspirada...
Mas o quê, qual nada -
Busco em vão e minha mente cansada,
Anda deveras tão esmiolada
Que sussurra ao coração, desesperada:
- Já é Quaresma, da Paixão anunciada,
Então, jejua, silencia, que a alma emocionada
Chora o Calvário e a Cruz na dolorosa jornada.
Mas, tão logo vencida a Redenção afortunada,
Virá a Ressurreição, por certo a salvaguarda,
E toda a gente de fé será bem-aventurada!
Ah, não era eu, por São Patrício,
Que, por abusar um pouco do vinho,
Me achava caindo um tantinho.
Aclaremos então todo esse negócio:
Na verdade, era culpa do solstício
Ou quem sabe desse tal de equinócio!
E o Natal de novo se avizinha...
Fora eu Cassiano Ricardo, diria:
- Não é um Natal a mais,
É por certo um Natal a menos!
Não se acende – se apaga uma velinha...
Ah, mas isso é coisa do poeta e da poesia -
Que emolduram escritos e poemas fatais,
Mesmo em momentos tão serenos!
Eu, a cada Natal, mais me encanto:
O Natal não é tempo de pranto -
É hora, sim, de congraçamento,
A reaver corações distantes
E se doar aos irmãos errantes,
Sem abrigo, dormindo ao relento.
Esse é, sempre mais, assim imagino,
O Natal de Maria, José, e do Jesus Menino!
A noite em questão
Foi por certo esplendorosa -
Que uma estrela luminosa
Clareou na Judeia a escuridão,
À vinda do Deus-Menino.
Era o tempo da salvação!
E, a que não caísse em esquecimento,
Como em noite de paz, silenciosa,
Em respeito ao sublime momento
Da criança nascida quase ao relento,
Se viu gravado em mavioso hino:
Noite Feliz – poema natalino!
Família é o que importa, sempre digo...
E realmente dela eu não me desligo...
Mas, família, não é o óbvio que se pensa -
Vai além de pai, mãe, filho, neto, irmão.
De fato, ela se faz muito mais extensa -
A incluir, mais que a biológica herança,
E bem mais que física semelhança,
Os laços que se formam pelo coração!
A viver a vida com mais emoção,
É forçoso afinal que eu reconheça,
Com humildade, sem passar panos -
Sem que de mim me compadeça:
Eu tenho por parceira, há anos,
Uma inexplicável e oculta depressão -
E dela não falo com quase ninguém,
Nem tampouco a mim também.
Não a amenizo com medicamento –
E assim me vão correndo os dias.
Equilibro-me e pairo, ao sabor do vento -
Os pés se arrastam, como andarilhos,
Sobre férreos e enferrujados trilhos,
Por onde há tempos o trem não transita.
E assim convivem tristezas e alegrias,
E assim segue a minha alma, aflita!