Posts de pedro antonio avellar (162)

Classificar por

O mistério do batom envenenado

O mistério do batom envenenado

 

- Não conheceis, meus leitores,

A saga de Séfora, a guerrilheira?

- Que crime ela cometeu?

- O da rebeldia -

Falava em democracia,

Sem rodeios, sem temores,

Assim como o Titã Prometeu.

E mais – vede o tamanho da besteira:

- Com um tubo de batom armada,

 Invadiu um sagrado templo

E atentou contra a Deusa da Justiça –

E Têmis, além de cega, está moribunda -

Dizem que pelo batom foi envenenada.

Mas o algoz templário – chefe da cavalariça -

A que a reprimenda sirva de exemplo -

Lançou Séfora a uma cela profunda!

 

 

Saiba mais…

A prescrição do Doutô

A prescrição do Doutô...

 

Vou lhes contá. Por necessidade

(acho que é o mal da idade),

Fui outra vez ao Doutô.

Ele me disse assim na lata:

- Seu Pedro – lhe digo a Voismecê -

- Tu tá precisano imagrecê.

Vê si atenta – faz um regime,

Desde logo para di beber

E esquece os bife e o feijão...

-Arre essa, Doutô – sou doutro time –

Ocê quer me ver morrer?

Mais, apesar de tanta crueldade,

 Falô mais alto a responsabilidade...

Fui intão na venda do Cipriano -

Filho de Ana e Rogaciano -

A comprar as comida da prescrição.

Mas o cabra, pra me atazaná,

Mi trouxe numa gamela,

Um caldo de jegue com cuiscuz,

Uma buchada de bode e jabá

E mais uma caneca da birita amarela:

- Credo em cruiz, São Benedito,

Já fui gritano, assim aflito -

- Num podi. Nada disso podi...

Mas já tô desesperado

Vou deixá o doutô de lado:

- Manda intão esse jabá -

O jeitu é incará

Esse tar de bucho de bodi...

Saiba mais…

O Fim

O fim é uma coisa surpreendente -

Enrola, enrola tanto – nunca vem...

Eis que, não mais que de repente,

Sem sequer tocar a campainha,

Abre a porta e diz: Venho do além -

É chegada, meu velho, tua hora -

Não me venhas com ladainha:

Pega tuas coisas – vamos embora!

Saiba mais…

Retrato, sem fotogenia

Retrato, sem fotogenia

 

Vês, criança, a foto em minha carteira?

Essa três por quatro, toda desbotada,

O terno puído, a gravata amarfanhada?

Por que não a descarto de vez na lixeira,

A espancar esse olhar acabrunhado,

Mais que isso, parece até, desesperado?

Ah, criança, é porque ela tem história...

Há um tempo, grassava o desemprego:

CTPS na mão, com essa foto, e a papelada,

Eu saia de casa, ainda pela madrugada -

Jamais, criança, me sai da memória

A angústia, o temor, o desassossego

Ante um letreiro: - “Não temos vaga”...

Assim, a curar-me talvez essa chaga,

Mesmo que me reste alguma melancolia,

Valho-me desse retrato, sem fotogenia!

Saiba mais…

Acolhimento

Acolhimento...

Não é apenas mais um sentimento

Bonito, que a gente sente nalgum momento;

Nem lágrima passageira dispersa pelo vento.

Não é, por remorso, contraprestação, pagamento,

Tampouco filantropia, por gracioso passatempo -

E não há solução que dependa só do parlamento.

Acolher é transmitir paz, esperança, alento!

Mais que condoer-se, é ajudar quem vive ao relento -

E tem por cobertura muita vez o firmamento.

A acolher, pode bastar um sorriso, um cumprimento.

Acolher pede altruísmo com algum discernimento,

A que propicie ao acolhido, além de ajuda ao sustento -

Quando possível algum vestuário, calçado, alimento

E, sendo o caso, um necessário medicamento.

Quem sou eu, claro, para transmitir ensinamento –

E muito menos para ditar um julgamento?

A tanto pode me faltar conhecimento.

Contudo, muita vez se ignora o divinal chamamento -

E isso, um tanto triste - quanto eu lamento...

Saiba mais…

Dieta

Dieta

Há dias, fui a um urologista...
Prescreveu-me exames de rotina,
Dentre eles a análise da hemoglobina.
Mas então, vendo o resultado,
Algo me deixou assustado:
O alto índice de uma tal de ferritina...
O que me levou a um hematologista!
A prescrição? Uma dieta alimentar,
Restringindo todo excesso de ferro,
A principiar pela carne bovina.
Não é só: há também outro vilão –
E creiam-me – não é o caviar,
Do qual desconheço o sabor -
E sim, isso é dureza, o cotidiano feijão,
Que, se não faz parte da ceia do nobre,
Junto ao arroz, é o sustento do pobre!

Saiba mais…

Fim de festa

E agora, Manoela?

A Copa acabou,

O reciclável minguou

E tudo está quieto na favela.

Como fica a comida das crianças?

Eu ontem te avistei -

Já era noitinha -

Reviravas, ao fim da festança,

Um saco de lixo, numa erma calçada -

Talvez catando latinhas,

Ou algum resto de comida, não sei -

E a te socorrer, Manoela - perdão, não fiz nada!

Saiba mais…

Lua Azul

31173198294?profile=RESIZE_710x

Lua Azul

 

Azulada, a noite se torna dia -

E miramos o céu noturno, admirados.

Tivera eu suficientes predicados -

Dedicaria à lua azul inspirada poesia.

..........................................................

Vejo agora, da janela de casa, em Birigui,

Que paira nas alturas, vaidosa de si,

Esmaecida sua cor amarela,

A lua, em tom azul-celestino -

Pois do Criador bucólico hino:

Hoje não é satélite, nem planeta,

É estrela, em azulada silhueta,

E o céu se faz todo dela!

 

 

Saiba mais…

Poesia

Ah, filho, a poesia não tem que ser triste,

Viste?

E se nela mais enxergas melancolia

Que alegria -

É porque o poeta é um tipo estranho,

De antanho -

Que por ser d’outrora saudosista,

Não avista,

Muita vez, no sorriso da criança,

Esperança.

Assim, filho, saibas que a vida é bela –

Acredita nela.

E  toda chuva que do céu cai ao chão,

De inverno ou verão -

É de Deus ao poeta um abençoado hino:

Então, sorria, menino!

Saiba mais…

Afronta

Definha a justiça, em escuros pergaminhos...

Anda mesmo em falta a sensatez -

Mas o cúmulo do ultraje a ela

Se denomina, desfaçatez -

Que, hoje, afrontosa, campeia -

Não mais em escusos escaninhos,

E sim à escancarada mão-cheia.

Quão triste: a primeira vítima dela -

Já não se importam – é a verdade -

Já exaurida por odiosa impunidade!

Saiba mais…

Indignação

Há toda sorte de pecado,

Acima e abaixo da linha do Equador -

Seja onde nasce o sol,

Seja onde estiver a se pôr.

 

Mas, desses males, o rol –

E custa vê-lo institucionalizado –

Tem por ápice o crime da corrupção -

Que mais se avulta pela omissão!

Saiba mais…

Lar Sertanejo

Quero estar numa casa

Bem perto da roça

(Não precisa ser palhoça)...

Não terá forro, mas um telhado,

Que seja abrigo ao cair da chuva.

Não terá goteiras,

Mas se algumas tiver -

Melhor ainda -

A que, no piso batido,

As acolha uma bacia.

Ah, no fogão à lenha aceso,

Ao crepitar das brasas,

Há de fumegar uma chaleira

Para o roceiro café abençoado.

Lá fora, ao entardecer,

As galinhas irão ao poleiro

E o sol se fará amarelo e carmim.

E, quando anoitecer,

Depois de rezar a Ave-Maria,

Pelas frestas da janela

Assistirei, enlevado, o bailar dos vagalumes,

A sonhar em aconchegante colchão de palha.

Enquanto isso, lá fora, ao cair do sereno,

O galo há de estar cantando no poleiro.

Saiba mais…

Reticências...

Recolhido, cabisbaixo, meditabundo,

Eu sinto muita vez um temor profundo -

De que já não caiba neste mundo...

Mas eu, que nada sei de filosofia -

Porque cultivo essa atroz letargia,

Que me deixa até a alma vazia?

É por isso que falo por reticências...

A ver se as celestiais providências,

Confortem minhas humanas carências...

Saiba mais…

Rimas

Rimas

 

- Não, não, Avelar – não pode ser...

Já vens outra vez com aquelas rimas pobrezinhas?

Porventura não tens o que fazer?

Que vais escrever dessa vez?

É do luar? Das matas? Das esvoaçantes andorinhas?

Do pôr-do-sol no teu aprazível lugarejo,

Ou do teu coração sertanejo?

- Tens razão, amigo. – Pensava nisso talvez...

Se de todo modo repito essas rimas agora,

Talvez o seja porque, de felicidade, a minh’ alma chora!

 

Saiba mais…

Sonhos e projetos

Sempre fui sonhador. Sempre o fui, sim...

Ah, quantos sonhos, quantos projetos...

Não os realizei, mas deles não desisti –

Apenas os transferi

Aos filhos, aos netos

E, quem sabe, os meus planos secretos

Tenham alguma vida, enfim...

Saiba mais…

Eternidade

Eternidade

 

Eis que a hora não passa -

E nem houvera que passar,

Enquanto choro -

E verto lágrima já chorada.

Dou-me conta, então,

Que é o meu pensar que para:

Os ponteiros do relógio seguem adiante.

Uma alma caridosa me conforta:

- Olha adiante. Segue teu caminho -

Rumo ao horizonte,

Rumo ao infinito -

Onde o tempo não existe...

Saiba mais…

O Cortejo

 

O Cortejo

 

E todos se vão...

Sim. Se vão... em vão...

O cortejo caminha, se esvai,

Ainda que lento, relutante...

E se perde, distante...

Afinal, não era mais que festa

De convivas não convidados...

E reflete, tergiversa, mas sai

E se perde na imensidão.

E o que me resta,

Bem o sabeis, amigos amados,

É não mais que solidão...

Saiba mais…

Mar Lusitano

Mar Lusitano

 

Nunca fui ao Velho Mundo

(E o lamento, sem pejo).

Mas, se o for, nalgum dia,

Irei ao Porto, a Coimbra, a Lisboa -

A conhecer os palácios da Real Coroa!

E mais, ao Algarve e ao Alentejo;

A Fátima, onde esteve a Virgem Maria!

Quem sabe, à Madeira, nas Desertas,

E aos Açores, do mar profundo,

Onde hei de conhecer o Corvo, as Flores

E a Ilha Terceira, com seus famosos cantores.

Ah, com a mente e a alma abertas,

Por lá, em sonhos, desfilarei por plagas belas

E pelas terras e águas aventureiras,

De onde partiram naus e caravelas

Às indígenas terras brasileiras!

Saiba mais…
CPP