Posts de Paulo Sérgio Rosseto (351)

AO CAIR DA TARDE

Tenho tido a mania de compor

Lapidadas canções

Para o vento cantar

Lá pelos mares da lua

Nas geleiras o Ártico

Sobre as dunas dos desertos

Entre as linhas dos Trópicos

Ao meio dia ou no meio da noite

 

Mas o que ela ouve mesmo

São alguns tímidos versos

Que me passam despercebidos

Ao cair da tarde

No porvir da manhã

Enquanto a frágil brisa

Lhe desmancha os cabelos

E o sussurro que alisa

A saudade que lhe arde

 

PSRosseto

Saiba mais…

SOMBRA E LUZ

Toda sombra passeia
Debaixo, de lado, de costas.
Vive comigo de ameia
Seguindo por onde sigo
Entre altos e baixos e extremos
Acostumada ao entremeio
Sem desmanchar-se dos rastros
Resmungo ou desdenho
Do que consigo ou daquilo
Que de mim se desprende
Retrai, inflama ou liberta
E por onde meu existir alerta
Inconsistente conduz.

De repente pode amanhecer sem sol
E me desvencilho do escuro
Ao acender o pavio mesmo de tenra vela.
Ei-la presente, viva, mansa, colada
Como elemento supremo
Intangível, sem importar-se da cor
Ou som que amiúde e insigne
Qualquer sóbria matiz produz.

Companheira inquieta, perfeita, parceira
Em todos os movimentos ou imóvel
Sempre além de ângulos e vertentes
A renovada sombra intermedia
Ainda que ignore ou não consiga vê-la
Constante debaixo do nariz.
Vivemos todos iluminados
E a existência é a sequência
Dessa dúbia insistente verdade
Calcada entre um vulto e a luz

 

PSRosseto

Saiba mais…

SABOREIE

Certa vez escondi meus versos
Dentro de um pote de geleias

Ali ficaram hermeticamente fechados
Durante anos a fio. Cristalizaram
Mas não perderam o prazo de validade
Porque foram sempre verdadeiros
Atemporais, simples, muito particulares

Ficarem reclusos não fora em vão;
Madureceram, tornaram-se densos
Menos tensos, mais humanos
Cordiais e amenos apesar de duros
E singelos desde a origem

Continuam transparentes
Ligeiramente ariscos, corteses com a vida
E módicos comigo

Estão agora sobre a mesa
Sirvo-os livres sobre o pão da vida

Saboreie

 

PSRosseto

Saiba mais…

CRISTAIS

Por vezes tornamos envidraçada a janela das escolhas

Tornando ainda mais perigosos os viáveis caminhos.

 

Entre certezas de proteção e tropeços

Cabe a cada um decidir enfurnar-se em redoma

Ou enfrentar a vida ainda que decorra o risco

De assistir ativo ou não ver

Como o mundo nos perfaz ou decompõe.

 

Das tantas coisas que evitamos fazer

Temendo o desconforto e o caos

Aprisionamos as vontades nas cristaleiras

Como fossem raras taças para protege-las

Das displicentes alças estabanadas

De nossas inseguras e trêmulas mãos.

 

Outros entendem serem translúcidos os vidros

Da alma em forma de sentimentos

Ainda quando porventura alquebrados.

- Este o mote dos fortes.

 

Brindemos pois com nobres vinhos

Nos mais refinados cristais

Os carinhos e as dádivas que tornam possíveis

Nossos sonhos e vontades reais

 

PSRosseto

Saiba mais…

SEM RESERVAS

A branca fumaça que amanheceu o dia

Não veio trazida pelo orvalhado véu

Nem foi velada pela vazante da maré.

 

Não ache que de repente apareceu do nada

E por nada cansou de ser densa

Como a criança que pensa que alguém

A esquecera na escola ou na porta da sala.

 

É oriunda do fogo que lambeu a mata

Ferveu riacho, incinerou raiz

Cremou insetos, expulsou a vida.

 

Agora, já passado esse tempo de estio

Sei que surgirão dentre os aceros

Ruelas e avenidas naquelas moitas cinzentas

Metros e metros de madeiras, lotes e glebas

A serem destocadas e vendidas

Como brilhantes raros nas prateleiras

Além de ampliar as áreas do seu sítio

Sem pecado e sem reservas

 

PSRosseto

Saiba mais…

POUCO ANTES DA MENTIRA

Pouco antes da mentira
Houve a notícia de que
Seria veracidade

Não pode!
Então por favor não minta
Ou desminta
Com maior propriedade

Se acaso não possas
Lamentar a falsidade
Invente com retidão
Sentirás quão difícil é
Reverter o que se noticia
Por mera leviandade

E se por fim em nada der
Tua falta de verdade
Confessa-te à consciência
Depois morda a língua
Antes que esta te lamba
Sem indulgência

 

PSRosseto

Saiba mais…

SEGREDOS

Nossas mãos dormem entrelaçadas
Tão próximas e coladas debaixo do lençol
Que se parecem às íntimas conchas
Desenhadas de um atol
Não se soltam, completam-se caladas
Suportam as marolas do mar
Resistem suadas aos alvoroços
Solavancos e aos infinitos riscos do amar

Depois, fora dos espaços, longe da cama
Equilibradas e já rasteiras
Reservam ainda nos tiranos dedos
Cheiros, sabores e nuances corriqueiras
Segredos que nem ousam falar
Aos mais insanos desejos
Para que nem mesmo elas, as mãos
Aos próprios pés possam contar

Isto é ser parte de um todo, verdadeiras
Até mesmo onde porventura
O destemido amor possa instar

 

PSRosseto

Saiba mais…

OS MOTIVOS DA POESIA

Troco um ano por um dia

Desde que possa ser intenso

Intimamente denso em alegria

Copioso em bênçãos

Um dia de horas válidas

Dessas que aliviam

Minutos cujos momentos

Prazerosamente extasiem

O sentido da existência

E os motivos da poesia

 

PSRosseto

Saiba mais…

EXPLICAR

Meu poema não traz respostas
Apenas faz perguntas

Indaga o cotidiano em versos
InquerI as atitudes silábicas
Interpela ausências gramaticais
Questiona cadências
Sem transigir as rasuras
Ou benesses
Que as palavras possam trazer
E a arte explicar

De resto é recitar recitar recitar

 

PSRosseto

Saiba mais…

BOLINHOS

Ontem uma nuvem boba não se conteve
E derreteu suas vontades
Sobre a terra

Assim caiu uma aguinha à toa
Dessa esparsa que pouco molha

Os pingos fizeram bolhas na frigideira
Onde Jandira suava bicas

Amamos esse cheiro de terra úmida
Ventos rápidos
E bolinhos de chuva

 

PSRosseto

Saiba mais…

VERSOS DE VIDRO

Opaco espelho
Desvencilha dos minúsculos ciclos
Esfarelados fincados na areia

Esse velho labirinto inútil estilhaçado
Refletia de um lado
As fases das faces monstruosas
Enquanto dormíamos distraídos
Nas escadarias das cavernas

Cuidava das imagens
Velava os mínimos pigmentos de luz
Das imediações
Pensando que nos iluminava
E ria porque nos enganávamos imortais

Nós continuamos iludidos
Robustos de carne e vidro

As suas migalhas no entanto
Transformaram-se de frente
Em versos e cacos
Que a dor quebrara!

 

PSRosseto

Saiba mais…

INACABADO

Precisasse falar, diria.
Como não preciso calo
Porque sei que minhas mentiras
Nem mesmo eu as ouviria.
Não escutando ignoro
Ignorando desdenho
Qualquer coisa que suponho
Em nada ajudaria.
Entendam todos que tenho
A liberdade ao meu lado
Por isso entro e saio e passeio
Pelo ângulo e ótica que concebo
Em partir a verdade ao meio
E suas supostas metades
Retalha-las sem receio
Desvendando o que não vejo
Não vendo o que não pretendo
Tomar por prioridade
Deixo as suposições de lado.

Ninguém conclui a própria obra
Sempre haverá um novo verso
Em um momento inacabado.

 

PSRosseto

Saiba mais…

POR UMA CAMA DESTAS

Por uma cama destas

A gente se deita e abre a estrada.

 

Seguiremos imperfeitos

Por qualquer caminho,

Amassaremos as coisas

Em meio a ausências e rejeitos

E roupas amarrotadas.

 

Escolheremos como e de que ter medo

Que cores tingiremos as paredes

De quais verdades iremos brincar

Em quais brinquedos passaremos a crer;

 

Se no tempo certo ou agora cedo

Deixaremos o porvir dizer

Em que solo devemos pisar.

 

Haverá sempre um abrigo

Próximo a uma margem mínima

Entre os sinceros sentimentos.

 

Nenhum estrondo ou silêncio

Irá abalar nossos propósitos

Mas caso haja a hora derradeira

Será esta única dose íntima.

 

Conviveremos com os ventos

Que têm por habito desalinhar

E tornar perplexo o propósito

Do que se acha fortaleza.

 

Jamais duvidaremos do que brota

Ainda que a madrugada esgote

Qualquer vontade em seguir.

 

Entre mãos firmes e dadas seguiremos.

 

PSRosseto

Saiba mais…

O VENTO TE ALISA

Quem traz mais ilusão ao teu cotidiano
A noite ou o dia ambos repletos de magia;
Quando o sol acende o meridiano
Ou sempre que no ocaso descansa?

Quando afirma, indaga ou das paixões duvida,
Põe teus sonhos na precisão da balança
Vê se cabem naquilo que atende
E se adaptam à tua fantasia de vida.

Lastime somente se perder o compasso
De resto é sorte que se rende ao acaso
E ininterrupta luta por harmonia.

Deixa entender de onde vem tua brisa
O ar com quem divides o que respira.
Os dias virão enquanto o vento te alisa.

 

PSRosseto

Saiba mais…

UM EXPRESSO NA LIVRARIA

Em meio aos milhares de livros
A moça de leve eleva até a boca
A borda da delicada xicara
E abraça com os lábios
O líquido que arrebate expresso
A espuma quente da beira da louça.
A fumaça lhe embaça as lentes
O negro néctar alveja ainda mais seus dentes

Ela sibila, cerra os olhos com candura
Enquanto sorve e disfarça a voz
Envolta em doce encantamento
Depois arrebatada de momento
Deita a chávena no colo do pires
Observando a vastidão da mistura
Vestígios do seu batom no café
Açodado por um torrão de chocolate
Como quem lesse placidamente as entrelinhas

E o moço admirando ali as displicentes capas
Floridas dos mágicos títulos da livraria
Retém da memoria uma infância de rimas
Torrando as sementes de um vasto cafezal
Banhado por dizeres, frases e poesias

 

PSRosseto

Saiba mais…

RABISCOS

Fico a perguntar
Qual a diferença da fome
Entre um lado e outro da fronteira
Da sede se é maior ou menor aqui ou acolá
Das ideias, ideais, culpa e ideologias
Da necessidade de entendimentos
Das concepções, expectativas e experiências
Da beneficência que assimila o beneplácito
Das nuances da língua, transcritas na fala
Da confidência do acerbo causal
Que por vezes exacerbados nos toma

Achamos que somente nós detemos
A bandeira mais bela
Um hino emblemático
A épica epopeia
Um enviesado ontem de glórias
A certeza mais pródiga
Um futuro tão próximo
E esse presente útil e absoluto
Que nos imprime soberanos

A mesma chuva que aqui orvalha ali molha
E quando aqui encharca talvez ali apenas serene
Mas a neblina é só uma
E jamais apequena a terra
Apesar das duras penas e da febre
Que sem dó tapa, impõe, arrolha
A consciência de quem labuta e assume a batalha

Quem dividiu os lados
Esqueceu-se de desligar os rabichos
Dos rabiscos sujos de guerra

 

PSRosseto

Saiba mais…

PARA DEPOIS DO CARNAVAL

Deixem as batalhas para depois do Carnaval.
Contenham os ânimos
Embainhai as espadas
Guardem os rifles e canhões, fuzis
Poupem a língua do sarcasmo hostil.
Deem às crianças liberdade e fantasia
Às deusas fantasias e malemolência.
Desmanchem os pelotões
Criai apenas blocos.
Cessem as marchas para ouvirem os coros
Das simétricas matreiras marchinhas nas ruas e salões.
Hasteiem as bandeiras das escolas
Os estandartes das agremiações
Os santos mantos dos desejos
Estampados nos mastros da alegria dos trios.
Desnudai os sentimentos que invadem as praças
Com sonoros tambores e tamborins.
Arrastões somente de ousadia
Excessos de explosões de felicidade nas avenidas.

E depois, quando tudo isso passar pela cidade
Riremos incomodados da paz que essa guerra de folia
Por alguns inconsequentes e deliciosos dias
Conseguiu nos dar.

 

PSRosseto

Saiba mais…

PASSARINHAR

Não invejo os pássaros
Pelas asas
Pelo canto
Ou pelo pio
Muito menos pela leveza da pluma
Ou pelo ziguezagueio matreiro no ar

Não os invejo por serem passarinhos
Pelo desenho de seus ninhos
Ou por outra razão alguma
Senão o relance no olhar

- Isto sim me põe zonzo de arrepio
Enxergando a diferença
Entre seus necessários voos
E meu reles caminhar

 

PSRosseto

Saiba mais…

PERGUNTO

Pergunto
Se no futuro haverá criancices
Dessas corriqueiras sandices
Feitas por mim e qualquer um
Nas esquinas das ruas
Amoitadas no banheiro
À beira da piscina
Escondidas no mato
Amassadas nas beiras
Rabiscadas no muro
Debaixo das fuças
Onde todos passam
E os loucos nem sonham
Que possam existir
Assim tão saborosas e boas

Pergunto
Somente porque
Sempre haverá perguntas

 

PSRosseto

Saiba mais…
CPP