Posts de Paulo Sérgio Rosseto (311)

ORGULHOSO

A moça quando menina
Acreditava que a pedra da marina
Todo dia emergia
E lhe vinha dizer bom dia

E depois de secar-se ao sol
Dourar seus musgos e arrefecer
Mergulhava de vez e se escondia
Até novo tempo acontecer

Essa mulher conta agora à filha
Que a pedra de Taperapuan continua
Brincando de se amoitar na maré
Em sua íntima baía

E eu pai e avô mentiroso
Para sempre rirei orgulhoso
Dessa nossa fantasia

 

PSRosseto

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ESPUMAS

Este poema que ao acaso chega

Diante dos olhos teus

Nada é senão mera espuma ilusória  

Embarcada em falsa onda em movimento

 

Espuma desnecessária que circunda

Os cascos das embarcações aos gritos

Espuma fictícia que explode da raia

Quando a agua lambe os pés ou a pedra

Espuma sem noção que se envereda

Por um segundo filtrada pela praia

 

E ainda assim de tão desprotegido

Vive insignificante sem se desmanchar

Existe incompleto perdura e persiste  

Porque o sentido da palavra é a densidade do infinito

E a ilusão do poeta desse tamanho do mar

 

PSRosseto

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PEÇO UM ABRAÇO

Peço um abraço

E se concordar não disfarce

Abrace

 

O abraço pode ser o alvoroço do pecado

Porém inefável é a versão mais plural de Deus

Ele alcança dois corações em estado de graça

E os molda e zela como se a sorte os selasse

 

Mas se houver ausência

Deixa que o silêncio replique

Pense como se fosse e sentisse

 

Pode ser ao deitar-se

Ou se acordar e lembrar-se do desejo meu

Que lhe abraçasse antes que dormisse

Deixa que esse sonho nos enlace e embale nos braços

Como se a um passeio levasse

 

Abraçar faz a saudade cingir um só espaço

Porque cada abraço é uma prece

Onde amar acontece

 

PSRosseto

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O QUE É SER POETA

Esquece o layout da página

Deixa fluir sem formatar

As palavras virão desesperadas

Pedindo licença para entrar

E se acomodarem em cada verso

Desse universo de poesia

Amanhã sozinhas se ajeitam

 

Mas depois essas mesmas palavras

Exigirão que as declame

Com precisão poética e perfeita pronúncia

Deixarão de ser humildes

E se revoltarão contra ti

Caso as exclua ou deixe fora das linhas

 

E quando as sentir exigentes e astutas

Saberá o que elas em ti representam

Então se sentirá responsável

Por antes tê-las escondido

 

Nesse dia entenderá

O que é ser poeta

 

PSRosseto

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APAVORADO

Tolo quem acredita
Que deixando o livro fechado
A Tv desligada, o jornal dobrado e mudo o rádio
Cala a aquecida voz na madrugada

Ainda que dure somente a ingerência
De um pensamento ligeiro mal expandido
Rápida no querer de amar será essa parceira
Voraz em continuados movimentos
 
Prazerosa e audaz sempre estará a experiência
Que nos toma por companheiros de viagem

Quanta bobagem há debaixo das plumas
Desse pavão apavorado
Tomado de vertigem e medo
Porque logo mais o dia nasce
E deixará de ser cedo e pardo

 

PSRosseto

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VISITA

Hoje fui revê-la
Novamente me tomou pelas asas
Descansei em seu indicador em riste

Foi diferente porque não mais estava triste
Continuei fitando os olhos dela me observando
Seu riso claro continuava ainda mais brando
Quando em estado de graça
Levou-me até a sala contígua
E ambos a mim fizeram vivas

E como da primeira vez matei minha sede
Repus energias
Novamente certa de que tornei mais feliz
Nosso dia

Rocei as antenas num furtivo até breve
E voei ganhando os céus
Sob olhares e beijos de adeus

 

PSRosseto

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GANA

Tenho sentimentos urgentes

Alguns já chorados

Tantos aguardando sorrisos

Nos diversos momentos

Interpessoais

 

Sentimentos confortavelmente acolchoados

Estendidos sobre o tapume do coração

Travando lutas incríveis no meu ringue

 

Mas o que mais me deixa zonzo

É a saudade sentada num canto do octógono

Se rindo das minhas luvas desamarradas

Surradas de calçar

 

Não fossem os hematomas

Não haveria tanta gana

Esqueceríamos fácil da necessidade em lutar

 

PSRosseto

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INOCÊNCIA

Que importa amor ter ou não malícia

Se as bocas que em outras bocas deliciam-se

A tua e a minha imaginam-se juntas

 

Se as mãos ausentes não se tocam

Acalmam-se porque se entendem íntimas

Se os olhos somem na volúpia dos passos

Encontram-se nos olhares radiantes

 

Importante amor quando amar significa

Suprimir qualquer distância oculta

 

Inocente seria acreditar ser esta busca

Um derradeiro poema destes escritos

 

Continuam feitos entre verdades absolutas

Atrevidos, perfeitos e intimamente nossos

 

PSRosseto

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DISPERSO

Quero o bom da vida sem importar a cor
O rumo que me toma independente da escolha
A forma que abraça desde que abençoe e acolha
O que trago de caule mas também do fruto
Que se molha da mesma chuva que escorre do galho
Que encharca a raiz após ter lavado a folha

E se a semente seguir o destino da enxurrada
Em algum momento tenha abrigo no colo da terra
Podendo ser planta e também florir e frutificar
E alimentar uma nação ou somente um pássaro

Mas que ao matar a fome cumpra-se essa missão
De ser simples ao ser intensa mesmo que dispersa

 

PSRosseto

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MINHA CASA DE PALAVRAS

Minha casa de palavras é transparente

Qualquer ideia pode soltar as telhas

Um sentimento destravar as portas

Entreabrir janelas, rebuscar as letras

 

O meu lar é feito de reversas paredes

Decoradas de verbos sempre no infinito

Sobre alicerces que sustentam vocábulos

Despreocupados de quem os vai conceituar

 

Pelos cômodos espalhados pensamentos  

Mesas e cadeiras em forma de estrofes

Das torneiras escoam argumentos

Que enxaguam o desnecessário de cada poema

 

Meu ofício está na insistente feitura

Daquilo que o ócio e o amor chamam poesia

Deito-me sobre a gramatica prática e crua

Acoberto pelo beneplácito da tua leitura

 

E quando introspecto posso suar alegrias

E quando alegre remoer intensas tristezas

E apesar das claras e evidentes transparências

Secretas são as paixões habitadas nessa moradia

 

PSRosseto

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É TUDO SOBRE VOCÊ

Quando vier a primavera desvinculando o inverno

Toda a neve do mundo se tornarão cores

A aurora de cada dia terá diferentes brilhos

Um por um entardecer escorrerá mais puro

Todos os caminhos serão mais curvos

Porque nas sinuosidades das voltas

Colheremos livres flores no entorno dos retornos

 

Engana-se que o amor faz vínculo com a estrada reta

Paixão alguma enceta a lógica do concreto

Coração nenhum é discreto quando apaixona

Nem compassado bate quando de saudade enche

Amar alguém é entender de si próprio e dar-se

Afoito intenso propenso impetuoso e poeta

Arremetendo ao futuro a estação presente

 

É tudo sobre você o que escrevo e sinto

Cada verso e poema desse livro aberto

Desnecessário explicar minha alma feminina

Bem sabes que são todos teus meus versos

 

PSRosseto

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PERSEVERANÇA

Meu querer quando parte

Sempre me reparte ao meio

Se leva uma parte contente

A outra parte desconexa

Se descontenta, desleixa

E se deixa perplexa, desconecta

 

Torna-se um suplicio

Essa metade sem a outra

Uma banda faltando um lado

Incompleta sem um pedaço

Meia face da face inteira

 

A parte que segue chora

A metade que fica sente

Contentam-se com o que possa

Dissimular a ausência

E quando regressa festam repletas

 

De resto é perseverança

 

PSRosseto

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NO VISGO DAS CERAS

Nenhuma razão profana

Deveria descrever as dores

Das palavras estranhas

Nos diversos momentos

Em que nascem os poemas

 

São de estanho estes versos

Rusticamente feitos à mão

Frutos do aço que entalha a madeira

Lâmina dentada recortando a pedra

Que se torna lápide inerte

 

Pois as intenções decompõem-se

Com os cegos dias estranhos

Porem os sonhos e apegos

Perpetuam-se sem ser perpétuos

Embalados no visgo das ceras

 

Ainda que esfarelem os amores

Ficam as boas ou más lembranças

Colados pelas esperas

 

PSRosseto

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TRAÇOS

Entre as linhas das mãos
Há o risco da paixão
Nem curvo nem reto

Curto, nada entrecorta
Mal começa se emenda
Longevo dura uma vida

Sozinho na palma aberta
É desenho discreto
Fechada se mistura
Ao do destino, futuro, sorte e utopia

Quando as mãos se alcançam
A gente abraça a alma
Quando postas
Se tocam em oração

Enquanto nossas palmas colam
Essas linhas ou traços de poesia
Entrelaçam-se, acrescem e jamais se soltam
Por serem simples, livres e tão nossas
Essas mãos

 

PSRosseto

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SINA

A noite belamente preta

Roça as tranças negras

Sobre o peito do velho mar

Que desperto em ondas

Arrepia a pele límpida

Desejoso de amar

 

Assim surgem os dias

Que contamos com as cigarras

Depois do cantar

 

Assim vão-se os anos tolos

Curtidos nas lágrimas salgadas

Dos oceanos do olhar

 

Se tristes ou alegres

Depende o navegar

 

PSRosseto

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INTENSAMENTE

O amor é o todo
Somos apenas versões
Das suas fartas maneiras

Quando adolescemos amantes
Rejuvenescemos amando
Vivenciando as sagas diversas
Das paixões às vezes prósperas
Às vezes às avessas

Por isso sou forte
Nessa intensa façanha
Em busca de amar intensamente
E vulnerável quando amo às pressas

Desconheço enfim uma fórmula expressa
Cada um empreende no ritmo do amor
A própria inexperiência desde que generosa

Se minha amada é essa minha singular cantiga
Sou eu a sua valsa

 

PSRosseto

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PECADO

No princípio

Pouco antes do merecedor descanso

Recobri o planeta de verdes paisagens

 

Desarvorado

Achando Deus o que fiz ser bom porem exagero

Empenhou-se nas intermitentes derrubadas

Abrindo incríveis clareiras por toda a terra

 

E vendo as glebas nuas e cinzas

Espalhou gramíneas nas grandes pastagens

Canaviais pelo meio das matas

Milho soja algodão café e o nada nas imensas aragens

Eucaliptos em quantidade modificando as paragens

Sem controle e piedade

Justificando abastecer a usura dos mercados

 

Agora me acorda implorando restituir o antigamente

Que pecado!

 

PSRosseto

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SOU EU

Todo dia ando

Perdidamente em busca de mim

Porque sei que buscando-me

Nesta incessante aventura

Arrisco encontra-la

Em minha procura

 

Será bonito vê-la íntima

Generosa infinita

Gerando uma estrela

 

Bonita tua silhueta

Bela o que à vida estás trazendo

 

O mundo te aguarda

Mas silenciosamente sou eu

Quem te busca aguarda e espera

 

PSRosseto

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PRECISO IR CONTIGO

Preciso ir contigo
A qualquer lugar que nos caiba

Aonde a gente saiba devagarinho passar
Sobre as bem-vindas ondas das horas
Passear por amareladas alas de sol
Ouvindo os apelos de qualquer lugar
Sentir as moléculas da alma fresquinha
Respingarem bailando alegres em névoas e bolhas
Alisando a saudade pelas pernas

Quero simplesmente e de verdade
Passear de mãos dadas agora
Aonde a gente vá e volte
Muito além dos sustos das superfícies
E juntos na emoção amiga do afeto

Que dentro ou fora esse passeio seja imenso
Que juntos seja pleno
E perfeito enquanto intenso

 

PSRosseto

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MEUS GRANDES AMIGOS

Meus grandes amigos

No entorno do esquife certamente mentirão

Aos anjos:

 

- Deveria ele ter estado mais à mesa

Ter tido mais apego à avareza

Ainda mais parceiro da luxuria

Vivido com um pouco mais de raiva

Ter sido além com a inveja

Desfrutado melhor do ócio e da preguiça

E mais parceiro da soberba

 

Então dissimulado e sem pecado

Permanecerei passivo absorto

Sem esboçar sequer um sorriso

Fazendo-lhes cara de morto

 

PSRosseto

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CPP