Posts de Thiago Rodrigues (64)

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NOSTÁLGICOS LUARES

Sonhei que andavas num bosque contigo,

As minhas dores todas vi tombarem,

Como num trilho antigo muito antigo 

As langorosas flores a murcharem...

 

Ai, saudades eu senti e no abrigo 

Dessas névoas frias a me abraçarem,

Essas que cobrem, silente, o jazigo,

Do meu passado triste sem cantarem...

 

Foi pelo mês de abril que a alma sem viço 

Sentiste a mão do tempo alva a esfolhares 

A flor da vida no peito outoniço...

 

Ah, folha morta perdida que vagas,

Vendo longe seguindo esses luares,

Luares que vagam pelas célias plagas...

 

Thiago Rodrigues 

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NOS BOSQUES MEDIEVOS

Pelos algares de longínquas datas,

Sob o clarão de místicos luzeiros,

Foste minh'alma ouvindo serenatas,

Minha pobre alma envolta em nevoeiros...

 

Nesses palácios de altas colunatas,

Em claustrais recantos, pelos mosteiros,

Onde vagastes lentas alpercatas

Por entre sombras e alvos jasmineiros...

 

Imensidões de céus avermelhados,

E nostalgias de olhos marejados,

Uma tristonha e velha melodia...

 

Nos campanários e nas catedrais,

A primavera em sedas invernais,

A voz de um sino longe que plangia...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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RETRATO NOTURNO

No prado verdejante e cinéreo,

Da lua, despontavas, o palor,

Doce imagem de soturnal mistério,

De fenecidas horas sem plangor.

 

Pia na lájea o trovador funéreo,

Vem o luar no céu de ebúrnea cor,

E a lua cobre com teu manto etéreo,

Como da face o mortal palor.

 

Se transfigura a natureza em cores,

Em refulgências de astros e palores,

Num belo tom final d'um quadro abstrato...

 

E as estrelas de auríferos olhares,

Deixando rastros de ouro pelos ares,

Vão pincelando, da noite, o retrato...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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PELOS BRUMAIS RECANTOS

A face de alvores engrinaldada,

Com pétalas cobriste teus martírios,

Nessa da vida, estrada enevoada,

Já caminhaste na mudez dos lírios.

 

Minha querida dama, minha amada,

Aqui também segui com meus delírios,

E juntos inda iremos n'alvorada 

Até não mais se ver a luz dos círios.

 

Uma vetusta bruma amortecida,

Seguiste nossos passos na descida,

Seguiste nossas sombras langorosas...

 

Tranformam-se em lamentos os arpejos,

No silêncio dos astros benfazejos,

Caminham nossas almas vagarosas...

 

Thiago Rodrigues 

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CÂNTICO SOTURNAL

Da haste os dias pendem sem ventura,

Como pétala em branco roseiral,

As horas que se foram na clausura 

Lembram cinzas de um ocaso autunal.

 

Vagando pela intérmina planura,

Sem saberes quando chega o final,

Vão nossas almas sob célica alvura,

Nossas almas de olhar sentimental.

 

Aqui andamos, sorrimos e sofremos,

As folhas que tocamos e que vemos,

Recorda-nos, o vento, as noites frias...

 

Despetalando flores ilusórias,

Num caminho de estátuas e memórias,

Vendo o tempo soluçando elegias...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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NOS LINDOS CREPÚSCULOS EU SONHEI

Nos lindos crepúsculos eu sonhei,

Vendo as aves do amor no céu partindo,

Sob o luar ainda vos seguirei,

Ó lírios da esperança reluzindo...

 

Na torre erma que um dia eu vaguei,

Senti d'agrura o manto me cobrindo,

Tantos espectros havia que eu chorei 

Enclausurado num pesar infindo.

 

Foste comigo a voz de uma prece,

Na verspertina bruma da saudade,

Quando o dia em dobres anoitece...

 

Ai, hora tristonha, hora merencória,

Nesses crepúsculos da soledade,

Folhas tombando pela estrada flórea...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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SACRAS REDOLÊNCIAS

Ide com os lamentos que encontraste,

D'amargura, ó penumbra espectral,

Todo o plangor d'um sino que entoaste 

Repicaste em soturna catedral.

 

Em minh'alma que outrora tu vagaste,

Folhas caíam na tarde autunal,

Recordavas alvores que enterraste 

A noite em um prado cemiterial.

 

As alamedas flóreas, seculares,

Há tempos que vagueia pelos ares,

Eterna a velha mágoa dos poentes...

 

E o astro que de novo o céu inflama,

Reflete tua essência sobre a lama,

Morrendo em vivas cores reluzentes...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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MÍSTICA PAISAGEM

Vem-me de novo a plácida imagem,

No entardecer d'um astro que morrendo 

Em seu final instante foi tecendo 

Com vários tons a mística paisagem.

 

A voz de um sino, longe, vai plangendo,

E de luares céreos a folhagem 

Que o solo cobre aos poucos dá passagem 

À bela flor que outrora vi nascendo.

 

Doce ventura de quem na alma cedo,

Da vida, a lira, ouviste, a vibrares,

Na penumbra de um vetusto arvoredo...

 

Entre lampejos, pétalas e auroras,

Feliz aquele que inda vê passares 

O batalhão nostálgico das horas...

 

Thiago Rodrigues 

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TARDES DESERTAS

Florescem nessas pálpebras abertas,

Longe dos olhos tristes deste horto,

Os sentimentos das tardes desertas,

Relíquias de um poente quase morto...

 

Entoam aves o canto da natura,

Silente o citaredo da saudade 

Traz-me somente o som da sepultura,

As árias autunais da soledade...

 

E pelos prados, bosques e veredas,

No alvorecer sombrio das horas tredas,

Com brumas inda vejo o meu fadário...

 

Folha perdida indo pelos ares,

Eu sou o que vagueia sem cantares,

Eu sou o que vagueia solitário!...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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SINGELA A LUA FORMOSA E BELA

Singela a lua formosa e bela,

Com brumas encobre tua nudez,

E a olhar-te, sigo, formosa e singela,

Lua ebúrnea de etérea palidez.

 

A face contrita eis que revela,

Sobre o horto de profunda morbidez,

E de alvores teu véu sobre a capela 

Extende-se em mirífica mudez.

 

Segues ainda nos caminhos pulcros,

Na solidão das noites desoladas,

Pelos antigos e álgidos sepulcros...

 

De redolências, ai, em redolências,

A alma cobre das pétalas fanadas 

Enclausurada em místicas fulgências...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

 

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PAISAGEM NOTURNA

Ouvi teus passos de freira indo lenta,

Quando comigo foste lado a lado,

Longa era a noite longa e sonolenta,

Enevoada sombra do meu passado...

 

A voz de um sino plangeste opulenta,

Quem já não viste um sonho mortalhado,

Pela da vida estrada poeirenta 

O brilho de um luar ensombreado.

 

E nos brumais remansos a paisagem,

Em tons etéricos que revelava 

De uma lembrança a túrbida imagem...

 

Jardins em névoas, brumas passageiras,

Ao cântico do ermo que vos olhava 

Na penumbra de antigas quaresmeiras...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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RÉQUIEM CREPUSCULAR

A tarde longe morre pranteando,

A melodia dos versos doloridos,

E solitário eu sigo caminhando,

No meu jardim de lírios fenecidos...

 

Sob a arcaria dos claustros vai passando,

Em névoas a alma de olhares perdidos,

Enquanto sinos dobres vão cantando 

No meu jardim de lírios fenecidos...

 

Quanta dolência na triste poesia 

Do ocaso morrendo em letargia,

Das brumas num crepúsculo final...

 

Vão os astros no célico convento,

E pétalas levadas pelo vento 

Deixando vossos rastros no quintal...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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RELICÁRIO

A agrura dentro do meu peito anda,

Como a névoa do bosque solitário,

Ó fantasma de uma alma miseranda 

Que não viste as hóstias do sacrário.

 

Segue a maldade com a voz nefanda,

Pela estrada deserta do calvário,

Levo comigo antiga a guirlanda 

Dos idos tempos em um relicário.

 

Toda tecida de alvas e partidas,

Com pétalas de flores murchecidas,

Com sedas de luares mortalhados...

 

E no vergel secreto do meu peito,

Caminha em silêncio no teu leito,

O vulto lacrimoso do passado.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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NUM CAMPO MORTO SEGUE O POETA

Num campo morto segue o poeta,

Essa nuança da cor de seda,

E o luar, imagem predileta,

A iluminar-te surge pela vereda...

 

Nessa floresta em que habita,

Extende a noite sua mortalha,

Do tempo, o corvo, ali crocita,

Da morte o espia a soturna gralha.

 

E o violino triste desses algares,

Canta em silêncio nessas caladas,

E ele fica em paz a recordares 

Outros acordes de outras madrugadas...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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NESSES VERGÉIS DE PÉTALAS FORMOSAS

Nesses vergéis de pétalas formosas,

De iluminadas flores a fremir,

Ouvi das horas nênias langorosas,

Sombras a tarde rósea vi cobrir.

 

E pelo céu as brumas lacrimosas,

Todas vagavam tristes sem sorrir,

Na letargia das liras lutuosas,

As vossas dores pude-lhes sentir.

 

Eram arpejos vindos de outros cantos,

Dos soturnais e místicos recantos,

Em mansidão meu pranto se desfez...

 

Seguiu a vida seu curso novamente,

E no meu peito calma e dolente,

A mesma alma de etérea palidez.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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VISÕES DO ALVORECER

Sob o alvor de olhares vindo tranquilo,

Da solitude, o velho citaredo,

Ah, quanto tempo fazes qu'estou a ouvi-lo,

Para mim seu canto não é segredo.

 

E a ver os astros indo vou sem medo,

No verde-azul das brumas de berilo,

Onde espero a noite e o dia quedo 

Indo morrer nos páramos tranquilo.

 

Outra aurora sob o arbúsculo espera 

O silêncio as flores ver nasceres 

No crepúsculo irial da primavera...

 

E o citaredo na alma canta e escuta,

Longos mistérios, longos misereres,

No alvorecer de uma senda impoluta...

 

Thiago Rodrigues 

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SOTURNAL

As aves das florestas nebulosas,

Sobre ti, grasnando, pelos recantos,

Ó alma de entardeceres e de rosas 

Que ouviste dos pesares os teus prantos.

 

A mesma voz das horas langorosas,

Acompanhaste-lhe com os teus cantos,

E pelo céu, as brumas vagarosas,

Tão pálidas e mudas como santos.

 

Da minha vida, o livro, inda aberto,

Enfeitaste-lhe as névoas do destino 

Com pétalas de flores de um deserto...

 

Na escuridão sem brilho, sem um norte,

Ouvindo, plangeres, do tempo, o sino,

Que nos leva aos pórticos da morte.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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CANÇÕES DO ANOITECER

E novamente a tarde se contrista,

Como dois olhos vagos e dolentes,

Que vão em busca d'um lago e frementes 

As refulgências da noite ametista.

 

E mortuárias brumas doutros poentes,

Uma lembrança sequer não se avista,

Alma de flores alma que é benquista,

Andas contigo ocasos redolentes...

 

Andas contigo alma de misereres,

Toda dolência fria dos sofreres,

Toda agrura d'ocaso em seu final...

 

E enquanto a noite já se aproximava,

A lua uma ária para ti cantava,

Arpejos de um plangor sentimental.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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SAUDOSOS DOBRES

Aqui eu sigo ainda sob a luz dos círios,

A alva flor das horas despetalando,

Quem vem comigo tem os seus martírios,

Quem longe vejo segue caminhando...

 

O sol poente me encheste de delírios,

Flores nascendo, flores vão tombando,

E nos meus versos sempre os brancos lírios 

A minha alma tristonha engrinaldando...

 

Os mesmos lírios, de outrora, o jazigo,

Cobriram com fragrâncias olorosas,

Hoje mortos eu levo-lhes comigo...

 

Do sentimento a mesma voz vibrastes:

Cânticos e hinos e árias lacrimosas,

Os mesmos dobres que a saudade entoastes...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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ENTRE ALVAS SEGUISTE A LUA NOVA

Entre alvas seguiste a lua nova,

Essa sombra de suaves redolências,

Já vagastes por sobre uma cova,

Envolta pelo véu dessas dolências.

 

E a névoa por sobre a tua alcova,

Tem as mágoas de pálidas fulgências,

Como o vento que entoas uma trova 

Nos caminhos de etéreas florescências.

 

Algo de antigo vagueia nesses ares,

Algo que lembra-me das melodias 

E da alma luminosa dos luares...

 

Alguma coisa dos meus tempos idos,

Remetem essas ruas tão vazias 

Com seus clarões d'aurora envelhecidos...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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