Posts de Thiago Rodrigues (49)

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VISÕES DO ALVORECER

Sob o alvor de olhares vindo tranquilo,

Da solitude, o velho citaredo,

Ah, quanto tempo fazes qu'estou a ouvi-lo,

Para mim seu canto não é segredo.

 

E a ver os astros indo vou sem medo,

No verde-azul das brumas de berilo,

Onde espero a noite e o dia quedo 

Indo morrer nos páramos tranquilo.

 

Outra aurora sob o arbúsculo espera 

O silêncio as flores ver nasceres 

No crepúsculo irial da primavera...

 

E o citaredo na alma canta e escuta,

Longos mistérios, longos misereres,

No alvorecer de uma senda impoluta...

 

Thiago Rodrigues 

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SOTURNAL

As aves das florestas nebulosas,

Sobre ti, grasnando, pelos recantos,

Ó alma de entardeceres e de rosas 

Que ouviste dos pesares os teus prantos.

 

A mesma voz das horas langorosas,

Acompanhaste-lhe com os teus cantos,

E pelo céu, as brumas vagarosas,

Tão pálidas e mudas como santos.

 

Da minha vida, o livro, inda aberto,

Enfeitaste-lhe as névoas do destino 

Com pétalas de flores de um deserto...

 

Na escuridão sem brilho, sem um norte,

Ouvindo, plangeres, do tempo, o sino,

Que nos leva aos pórticos da morte.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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CANÇÕES DO ANOITECER

E novamente a tarde se contrista,

Como dois olhos vagos e dolentes,

Que vão em busca d'um lago e frementes 

As refulgências da noite ametista.

 

E mortuárias brumas doutros poentes,

Uma lembrança sequer não se avista,

Alma de flores alma que é benquista,

Andas contigo ocasos redolentes...

 

Andas contigo alma de misereres,

Toda dolência fria dos sofreres,

Toda agrura d'ocaso em seu final...

 

E enquanto a noite já se aproximava,

A lua uma ária para ti cantava,

Arpejos de um plangor sentimental.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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SAUDOSOS DOBRES

Aqui eu sigo ainda sob a luz dos círios,

A alva flor das horas despetalando,

Quem vem comigo tem os seus martírios,

Quem longe vejo segue caminhando...

 

O sol poente me encheste de delírios,

Flores nascendo, flores vão tombando,

E nos meus versos sempre os brancos lírios 

A minha alma tristonha engrinaldando...

 

Os mesmos lírios, de outrora, o jazigo,

Cobriram com fragrâncias olorosas,

Hoje mortos eu levo-lhes comigo...

 

Do sentimento a mesma voz vibrastes:

Cânticos e hinos e árias lacrimosas,

Os mesmos dobres que a saudade entoastes...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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ENTRE ALVAS SEGUISTE A LUA NOVA

Entre alvas seguiste a lua nova,

Essa sombra de suaves redolências,

Já vagastes por sobre uma cova,

Envolta pelo véu dessas dolências.

 

E a névoa por sobre a tua alcova,

Tem as mágoas de pálidas fulgências,

Como o vento que entoas uma trova 

Nos caminhos de etéreas florescências.

 

Algo de antigo vagueia nesses ares,

Algo que lembra-me das melodias 

E da alma luminosa dos luares...

 

Alguma coisa dos meus tempos idos,

Remetem essas ruas tão vazias 

Com seus clarões d'aurora envelhecidos...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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MANHÃ DESFOLHADA

Manhã de folhas mortas em cortejo,

De névoa fria e de mansidão,

Vendo irem as aves com seu arpejo

Voando livres pela imensidão...

 

Do silêncio no caminho que adejo,

Entoando liras de solidão;

Das almas remotas que já não vejo,

E sombras que floresciam pelo chão.

 

Ó brumas que vão andando nos ares,

Como vós que seguem com seus mistérios 

Também vou indo com os meus pesares...

 

No caminho, que de alvores se veste,

Seguindo-nos vão os astros etéreos 

Que enfeitam esta abóbada celeste.

 

Thiago Rodrigues 

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DOBRES LACRIMOSOS

A mágoa que vos enclausura ainda,

Em um claustro de névoas e tristuras,

Traz os fantasmas d'uma noite infinda,

Fantasmas do pavor e das agruras:

 

Do pesadelo, que no peito finda,

Num féretro d'amargas desventuras,

No préstito das horas como é linda 

A tarde sem a dor das amarguras.

 

Dos poentes as notórias telas,

Entre brumas distantes que revelas,

Todo o fulgor de um astro passageiro...

 

Na efemeridade da vida que ias,

Meu sonho em dobres e melancolias,

Plangendo como sino no mosteiro.

 

Thiago Rodrigues 

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VOZES DO ALVORECER

Eram vozes distantes renascendo,

Como a noite sem lua nos desertos 

Caminhos que já vão amanhecendo 

Solitários por névoas encobertos.

 

Mãos em prece, um lamento tecendo,

Goivos e lírios e lótus abertos,

No rastro das trevas que iam morrendo,

Seguiam meus passos lentos e incertos.

 

Era o arpejo dos rútilos sonhares,

A flor dos sonhos nos olhos se abrindo 

Ao cântico dos últimos pesares...

 

Tudo que vira pelo céu descera,

Como o orvalho brando que vai caindo 

Sobre um caminho ermo que florescera...

 

Thiago Rodrigues 

 

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LUAR DE OLHARES MERENCÓRIOS

Quem vem de lá trazendo as boas novas,

No horizonte infindo que lacrimeja,

Pisando vem, silente, pelas covas,

Enquanto a ave d'outrora o céu voeja:

 

Quem vem de lá, contigo, as mesmas trovas,

O acompanha pelo horto que negreja,

E num momento o teu semblante encovas,

A voz do tempo que árias rumoreja...

 

Foi um sorriso que curaste as chagas,

Desta minh'alma que andas escutando 

Poetas mortos das escuras plagas...

 

Lírio da vida pelos campos flóreos,

As dores todas seguindo olvidando 

Sob um luar de olhares merencórios...

 

Thiago Rodrigues 

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LÍRIO NOTURNO

Fora na hora merencória de um sino,

Que minh'alma de olhares enublados,

Andaste por andar sem ter destino,

Na solidão das sombras e dos prados...

 

Já vinha a noite, longe, com seu hino,

Cheia de cores de hortos irisados,

O sepulcral silêncio vespertino,

Tinha alvores de céus nunca sonhados.

 

Tudo passavas pelo véu das horas,

Ante a face da tarde que descoras,

Ante o lírio noturno que floresce...

 

Tudo seguias calmo pelos cerros,

E ver, podia, seguindo, os enterros,

O brilho de um luar que não se esquece...

 

Thiago Rodrigues 

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CÂNTICOS DA ALMA

Alma, ó alma, esses cânticos que trazes,

Seguir nas sombras foste a tua sina,

Ouvindo entre goivos e lilases,

Da solitude a prece vespertina.

 

Pois a tristeza mal inda lhe fazes,

Cai a tarde na antiga Palestina...

E no meu peito tétricas, vorazes,

Vão as dores num horto sem neblina.

 

Ouvi novenas em tempos remotos,

Os que rezavam foram pra onde sigo,

E de Jesus também eram devotos...

 

E a noite como os vultos d'um convento,

Seguiste-lhes indo para o jazigo,

Caminhando sem dor e sem lamento...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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NEVOENTOS OLHOS DOS TEMPOS IDOS

Os nevoentos olhos dos tempos idos,

Com que me olhaste, ai, com que me olhaste...

Sou o fantasma que leva sem a haste 

As pétalas dos sonhos fenecidos.

 

Por que chorar, na tarde, que tombaste,

Se a noite vem com véus enegrecidos,

Nessas veredas, vi, envelhecidos,

Luares em um luar que me encantaste.

 

Como as ondas batendo num recife:

Leva o novo, o velho e vai levando 

A morte um esquife atrás de outro esquife...

 

Resta-nos ver, a vida, com bons olhos,

Seguindo rindo ou seguindo chorando,

Em pé vagando e rezando de giolhos...

 

Thiago Rodrigues 

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O PÁSSARO SOTURNO

O dia escuro estava tão sombrio,

Voavam aves de pavor e medo,

Da névoa, o fantasma, de olhar vazio 

Enevoava as folhas de um arvoredo.

 

Uma saudade no ar não é segredo,

Pra quem a alma tremeste já de frio,

E vai a vida seguindo o teu enredo,

Na primavera, no outono ou no estio.

 

Nossos passos pra trás já vão ficando,

Meu velho peito doente já sentiste 

A agonia do tédio lhe tocando...

 

A mão do tempo é a mesma que amortalha,

E pelos ares, rindo, inda persiste 

A voz dolente de soturna gralha.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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NOTURNAS SOLIDÕES

Quantas vezes, sozinho, eu vi andando,

Com o véu das manhãs enevoadas,

A tristeza os lírios esfolhando

Sob um céu de luas amortalhadas.

 

Ia sozinha, nas trevas, vagando,

Como o vento das ermas madrugadas,

Que as folhas levaste-as rumorejando 

No frescor das noites enluaradas.

 

Senhora, por que seguem-me funéreos

Os teus olhos de noite langorosa 

Envoltos nas brumas de astrais mistérios?...

 

Andas contigo nessas vastidões,

O doce aromal de etérea rosa 

Florindo das noturnas solidões...

 

Thiago Rodrigues 

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NO HORTO SOLITÁRIO

Retornei, retornaste pela trilha 

Flórea que nossos passos encobriste.

Velava-nos uma lua andarilha 

Com teu semblante pálido e triste.

 

N'autunal estrada que tu seguiste,

Também seguira eu. O céu que brilha 

Os meus pesares e os teus inda ouviste,

Do tédio sou filho, d'agrura és filha!

 

De quietude a vida nos cobriu:

Chorei, choraste no meu peito enferma,

O que senti aqui também sentiu.

 

Vamos juntos envoltos em nuance,

Por essa trilha de névoa álgida e erma 

Até que um dia o corpo, enfim, descanse...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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O LUAR VETUSTO LHE COBRIU DE SEDAS

O luar vetusto lhe cobriu de sedas,

Errante caminheiro, alma em prantos,

Perdido viverás nessas veredas,

Tu que procura a paz em outros cantos.

 

Em outros campos d'augurais recantos,

Foste contigo nessas horas tredas,

Dos altares, a solidão dos santos,

Sem as faces angelicais e ledas.

 

Na selva escura dos pesares maus,

Nos tece uma mortalha o sofrimento 

Cantarolando os pávidos solaus...

 

Nesses trilhos ínvios que se perdeste,

Lhe cobrirá no retumbar do vento 

A mesma seda alva que o luar teceste.

 

Thiago Rodrigues 

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FÚNEBRES MELODIAS

Até quando, poeta, tecer teus versos,

Responde à vida que lhe pergunta,

Teus olhos, ai, em lágrimas imersos,

Estão a ver uma imagem defunta.

 

Saudade sentes dos tempos vetustos,

Artesão das palavras, assim vives,

Nas veredas, pelos bosques augustos,

Andando pelos pávidos declives...

 

Assim vives indo pelos canteiros,

Pelas ameias de flores altivas,

Pois que de toda a dor se desprendeu...

 

Como vultos indo pelos mosteiros,

Em teu peito sempre andam vivas,

As melodias de um sino que morreu...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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VETUSTOS SONHARES ADORMECIDOS

Vetustos sonhares adormecidos,

Meus olhos com lágrimas eu inundo,

E vão nos vales meus passos perdidos,

Vagueando pelas trevas do mundo...

 

A esperança nos dias doloridos,

Eu encontrei-a no azul do céu profundo;

Nos roseirais, sem flores, fenecidos,

No trovejar de um místico segundo.

 

A vida vai passando neste instante:

Etéreo anjo sobre nós a adejares 

Com véus de astros de pálido semblante...

 

E pela sombra a alma a velar os ninhos,

Como um pássaro triste a retornares 

Nesses de outrora pávidos caminhos...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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O RESSOAR DOS SENTIMENTOS CASTOS

O ressoar dos sentimentos castos,

Me envolveste com tua voz serena,

Meu velho sonho pelos campos vastos,

Foste surgindo pela tarde amena...

 

Uma lembrança de cabelos bastos,

Eu vi nascer como a flor da açucena,

E a maldade nos olhares nefastos,

Me entristecer sem pausa e sem pena.

 

Fora no tempo dos luares calmos,

Quando uma agrura andava em meu peito,

Que me tocaste a alma etéreos salmos...

 

Senti em mim por dentro uma verdade,

E eu me lembrei da vida em meu leito 

Na vespertina prece da saudade...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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LIRAS E TROVAS

Por que entraste de novo em minha vida,

Na palidez da tarde que viceja,

A merencória nota esquecida,

De uma canção que o peito lacrimeja...

 

São violinos, harpas, ensombrecida 

Uma cantiga de um astro que voeja,

Na lividez da bruma esmaecida,

Com teu semblante lívido que alveja.

 

Pra ser sincero, olhando o meu passado,

Aqui sozinho, hoje, rememorando,

Feliz me deixa o dia enevoado...

 

E nessas névoas que o luar encovas,

Vejo o teu vulto indo caminhando 

Numa estrada de liras e de trovas...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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