Posts de Thiago Rodrigues (57)

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MÍSTICA PAISAGEM

Vem-me de novo a plácida imagem,

No entardecer d'um astro que morrendo 

Em seu final instante foi tecendo 

Com vários tons a mística paisagem.

 

A voz de um sino, longe, vai plangendo,

E de luares céreos a folhagem 

Que o solo cobre aos poucos dá passagem 

À bela flor que outrora vi nascendo.

 

Doce ventura de quem na alma cedo,

Da vida, a lira, ouviste, a vibrares,

Na penumbra de um vetusto arvoredo...

 

Entre lampejos, pétalas e auroras,

Feliz aquele que inda vê passares 

O batalhão nostálgico das horas...

 

Thiago Rodrigues 

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TARDES DESERTAS

Florescem nessas pálpebras abertas,

Longe dos olhos tristes deste horto,

Os sentimentos das tardes desertas,

Relíquias de um poente quase morto...

 

Entoam aves o canto da natura,

Silente o citaredo da saudade 

Traz-me somente o som da sepultura,

As árias autunais da soledade...

 

E pelos prados, bosques e veredas,

No alvorecer sombrio das horas tredas,

Com brumas inda vejo o meu fadário...

 

Folha perdida indo pelos ares,

Eu sou o que vagueia sem cantares,

Eu sou o que vagueia solitário!...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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SINGELA A LUA FORMOSA E BELA

Singela a lua formosa e bela,

Com brumas encobre tua nudez,

E a olhar-te, sigo, formosa e singela,

Lua ebúrnea de etérea palidez.

 

A face contrita eis que revela,

Sobre o horto de profunda morbidez,

E de alvores teu véu sobre a capela 

Extende-se em mirífica mudez.

 

Segues ainda nos caminhos pulcros,

Na solidão das noites desoladas,

Pelos antigos e álgidos sepulcros...

 

De redolências, ai, em redolências,

A alma cobre das pétalas fanadas 

Enclausurada em místicas fulgências...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

 

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PAISAGEM NOTURNA

Ouvi teus passos de freira indo lenta,

Quando comigo foste lado a lado,

Longa era a noite longa e sonolenta,

Enevoada sombra do meu passado...

 

A voz de um sino plangeste opulenta,

Quem já não viste um sonho mortalhado,

Pela da vida estrada poeirenta 

O brilho de um luar ensombreado.

 

E nos brumais remansos a paisagem,

Em tons etéricos que revelava 

De uma lembrança a túrbida imagem...

 

Jardins em névoas, brumas passageiras,

Ao cântico do ermo que vos olhava 

Na penumbra de antigas quaresmeiras...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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RÉQUIEM CREPUSCULAR

A tarde longe morre pranteando,

A melodia dos versos doloridos,

E solitário eu sigo caminhando,

No meu jardim de lírios fenecidos...

 

Sob a arcaria dos claustros vai passando,

Em névoas a alma de olhares perdidos,

Enquanto sinos dobres vão cantando 

No meu jardim de lírios fenecidos...

 

Quanta dolência na triste poesia 

Do ocaso morrendo em letargia,

Das brumas num crepúsculo final...

 

Vão os astros no célico convento,

E pétalas levadas pelo vento 

Deixando vossos rastros no quintal...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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RELICÁRIO

A agrura dentro do meu peito anda,

Como a névoa do bosque solitário,

Ó fantasma de uma alma miseranda 

Que não viste as hóstias do sacrário.

 

Segue a maldade com a voz nefanda,

Pela estrada deserta do calvário,

Levo comigo antiga a guirlanda 

Dos idos tempos em um relicário.

 

Toda tecida de alvas e partidas,

Com pétalas de flores murchecidas,

Com sedas de luares mortalhados...

 

E no vergel secreto do meu peito,

Caminha em silêncio no teu leito,

O vulto lacrimoso do passado.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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NUM CAMPO MORTO SEGUE O POETA

Num campo morto segue o poeta,

Essa nuança da cor de seda,

E o luar, imagem predileta,

A iluminar-te surge pela vereda...

 

Nessa floresta em que habita,

Extende a noite sua mortalha,

Do tempo, o corvo, ali crocita,

Da morte o espia a soturna gralha.

 

E o violino triste desses algares,

Canta em silêncio nessas caladas,

E ele fica em paz a recordares 

Outros acordes de outras madrugadas...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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NESSES VERGÉIS DE PÉTALAS FORMOSAS

Nesses vergéis de pétalas formosas,

De iluminadas flores a fremir,

Ouvi das horas nênias langorosas,

Sombras a tarde rósea vi cobrir.

 

E pelo céu as brumas lacrimosas,

Todas vagavam tristes sem sorrir,

Na letargia das liras lutuosas,

As vossas dores pude-lhes sentir.

 

Eram arpejos vindos de outros cantos,

Dos soturnais e místicos recantos,

Em mansidão meu pranto se desfez...

 

Seguiu a vida seu curso novamente,

E no meu peito calma e dolente,

A mesma alma de etérea palidez.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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VISÕES DO ALVORECER

Sob o alvor de olhares vindo tranquilo,

Da solitude, o velho citaredo,

Ah, quanto tempo fazes qu'estou a ouvi-lo,

Para mim seu canto não é segredo.

 

E a ver os astros indo vou sem medo,

No verde-azul das brumas de berilo,

Onde espero a noite e o dia quedo 

Indo morrer nos páramos tranquilo.

 

Outra aurora sob o arbúsculo espera 

O silêncio as flores ver nasceres 

No crepúsculo irial da primavera...

 

E o citaredo na alma canta e escuta,

Longos mistérios, longos misereres,

No alvorecer de uma senda impoluta...

 

Thiago Rodrigues 

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SOTURNAL

As aves das florestas nebulosas,

Sobre ti, grasnando, pelos recantos,

Ó alma de entardeceres e de rosas 

Que ouviste dos pesares os teus prantos.

 

A mesma voz das horas langorosas,

Acompanhaste-lhe com os teus cantos,

E pelo céu, as brumas vagarosas,

Tão pálidas e mudas como santos.

 

Da minha vida, o livro, inda aberto,

Enfeitaste-lhe as névoas do destino 

Com pétalas de flores de um deserto...

 

Na escuridão sem brilho, sem um norte,

Ouvindo, plangeres, do tempo, o sino,

Que nos leva aos pórticos da morte.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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CANÇÕES DO ANOITECER

E novamente a tarde se contrista,

Como dois olhos vagos e dolentes,

Que vão em busca d'um lago e frementes 

As refulgências da noite ametista.

 

E mortuárias brumas doutros poentes,

Uma lembrança sequer não se avista,

Alma de flores alma que é benquista,

Andas contigo ocasos redolentes...

 

Andas contigo alma de misereres,

Toda dolência fria dos sofreres,

Toda agrura d'ocaso em seu final...

 

E enquanto a noite já se aproximava,

A lua uma ária para ti cantava,

Arpejos de um plangor sentimental.

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

 

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SAUDOSOS DOBRES

Aqui eu sigo ainda sob a luz dos círios,

A alva flor das horas despetalando,

Quem vem comigo tem os seus martírios,

Quem longe vejo segue caminhando...

 

O sol poente me encheste de delírios,

Flores nascendo, flores vão tombando,

E nos meus versos sempre os brancos lírios 

A minha alma tristonha engrinaldando...

 

Os mesmos lírios, de outrora, o jazigo,

Cobriram com fragrâncias olorosas,

Hoje mortos eu levo-lhes comigo...

 

Do sentimento a mesma voz vibrastes:

Cânticos e hinos e árias lacrimosas,

Os mesmos dobres que a saudade entoastes...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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ENTRE ALVAS SEGUISTE A LUA NOVA

Entre alvas seguiste a lua nova,

Essa sombra de suaves redolências,

Já vagastes por sobre uma cova,

Envolta pelo véu dessas dolências.

 

E a névoa por sobre a tua alcova,

Tem as mágoas de pálidas fulgências,

Como o vento que entoas uma trova 

Nos caminhos de etéreas florescências.

 

Algo de antigo vagueia nesses ares,

Algo que lembra-me das melodias 

E da alma luminosa dos luares...

 

Alguma coisa dos meus tempos idos,

Remetem essas ruas tão vazias 

Com seus clarões d'aurora envelhecidos...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

 

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MANHÃ DESFOLHADA

Manhã de folhas mortas em cortejo,

De névoa fria e de mansidão,

Vendo irem as aves com seu arpejo

Voando livres pela imensidão...

 

Do silêncio no caminho que adejo,

Entoando liras de solidão;

Das almas remotas que já não vejo,

E sombras que floresciam pelo chão.

 

Ó brumas que vão andando nos ares,

Como vós que seguem com seus mistérios 

Também vou indo com os meus pesares...

 

No caminho, que de alvores se veste,

Seguindo-nos vão os astros etéreos 

Que enfeitam esta abóbada celeste.

 

Thiago Rodrigues 

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DOBRES LACRIMOSOS

A mágoa que vos enclausura ainda,

Em um claustro de névoas e tristuras,

Traz os fantasmas d'uma noite infinda,

Fantasmas do pavor e das agruras:

 

Do pesadelo, que no peito finda,

Num féretro d'amargas desventuras,

No préstito das horas como é linda 

A tarde sem a dor das amarguras.

 

Dos poentes as notórias telas,

Entre brumas distantes que revelas,

Todo o fulgor de um astro passageiro...

 

Na efemeridade da vida que ias,

Meu sonho em dobres e melancolias,

Plangendo como sino no mosteiro.

 

Thiago Rodrigues 

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VOZES DO ALVORECER

Eram vozes distantes renascendo,

Como a noite sem lua nos desertos 

Caminhos que já vão amanhecendo 

Solitários por névoas encobertos.

 

Mãos em prece, um lamento tecendo,

Goivos e lírios e lótus abertos,

No rastro das trevas que iam morrendo,

Seguiam meus passos lentos e incertos.

 

Era o arpejo dos rútilos sonhares,

A flor dos sonhos nos olhos se abrindo 

Ao cântico dos últimos pesares...

 

Tudo que vira pelo céu descera,

Como o orvalho brando que vai caindo 

Sobre um caminho ermo que florescera...

 

Thiago Rodrigues 

 

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LUAR DE OLHARES MERENCÓRIOS

Quem vem de lá trazendo as boas novas,

No horizonte infindo que lacrimeja,

Pisando vem, silente, pelas covas,

Enquanto a ave d'outrora o céu voeja:

 

Quem vem de lá, contigo, as mesmas trovas,

O acompanha pelo horto que negreja,

E num momento o teu semblante encovas,

A voz do tempo que árias rumoreja...

 

Foi um sorriso que curaste as chagas,

Desta minh'alma que andas escutando 

Poetas mortos das escuras plagas...

 

Lírio da vida pelos campos flóreos,

As dores todas seguindo olvidando 

Sob um luar de olhares merencórios...

 

Thiago Rodrigues 

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LÍRIO NOTURNO

Fora na hora merencória de um sino,

Que minh'alma de olhares enublados,

Andaste por andar sem ter destino,

Na solidão das sombras e dos prados...

 

Já vinha a noite, longe, com seu hino,

Cheia de cores de hortos irisados,

O sepulcral silêncio vespertino,

Tinha alvores de céus nunca sonhados.

 

Tudo passavas pelo véu das horas,

Ante a face da tarde que descoras,

Ante o lírio noturno que floresce...

 

Tudo seguias calmo pelos cerros,

E ver, podia, seguindo, os enterros,

O brilho de um luar que não se esquece...

 

Thiago Rodrigues 

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CÂNTICOS DA ALMA

Alma, ó alma, esses cânticos que trazes,

Seguir nas sombras foste a tua sina,

Ouvindo entre goivos e lilases,

Da solitude a prece vespertina.

 

Pois a tristeza mal inda lhe fazes,

Cai a tarde na antiga Palestina...

E no meu peito tétricas, vorazes,

Vão as dores num horto sem neblina.

 

Ouvi novenas em tempos remotos,

Os que rezavam foram pra onde sigo,

E de Jesus também eram devotos...

 

E a noite como os vultos d'um convento,

Seguiste-lhes indo para o jazigo,

Caminhando sem dor e sem lamento...

 

Thiago Rodrigues 

 

 

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NEVOENTOS OLHOS DOS TEMPOS IDOS

Os nevoentos olhos dos tempos idos,

Com que me olhaste, ai, com que me olhaste...

Sou o fantasma que leva sem a haste 

As pétalas dos sonhos fenecidos.

 

Por que chorar, na tarde, que tombaste,

Se a noite vem com véus enegrecidos,

Nessas veredas, vi, envelhecidos,

Luares em um luar que me encantaste.

 

Como as ondas batendo num recife:

Leva o novo, o velho e vai levando 

A morte um esquife atrás de outro esquife...

 

Resta-nos ver, a vida, com bons olhos,

Seguindo rindo ou seguindo chorando,

Em pé vagando e rezando de giolhos...

 

Thiago Rodrigues 

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