Posts de Paulo Sérgio Rosseto (414)

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RENÚNCIA

Falo de ti poesia

A quem possa escutar minha fala

Das mil maneiras que tenho para que consigam me ouvir

Sem precisar que entendam minha língua

Ou necessite explicar simplesmente

O uso de palavras que tomo por minhas

Para descrever-te

 

Além do mais escrevo para que o tempo registre

E me tenha por adepto da cotidiana escrita ser parte

Estendida dos sinais que te revelam avassaladora

E denunciam a expertise de tua significância

 

Ser ou não feliz não é mais escolha

Apenas resultado de absoluta renúncia

Pela arte

 

PSRosseto

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MELANCOLIA

Eu não ousaria mexer na solidão
Quando esta só significaria
Esconder o próprio coração
Dos existentes amores
E daqueles que porventura virão

Perceber se é possível fugir
Para algum horizonte sem luz
Onde o olhar não possa alcançar
Onde o amor resista adentrar
Faz sofrer ver o mundo ruir

Enquanto espero sozinho
Passar esse atroz turbilhão  
Vão-se meus dias e as noturnas canções
Sem qualquer razão de alegria
Que me tornam assim tão tristonho
 
Eu não saberia compor outra melodia
Enquanto meu peito padece

A máxima incerteza que aflita
Depura a melancolia
De pura melancolia

 

 

PSRosseto

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PASSAGEM

Quem passa
Segue um caminho
Veio por ele e por ele
Seguindo vai
Ou por ele veio e agora
Vai por outro
Depende da escolha
Da sorte da sina
Consegue seguir ou decide
Voltar

Quem volta não peca
Somente refaz
Se ganha ou se perde

Quem segue não sabe
Se chega ou se volta
Adquire ou desfaz

Se ultrapassa da ponte
Além da fronteira
Pela cega porteira da emoção
Depois ou aquém dos limites
Infindos limites
Somados à ocasião

Após a viagem
Sobram sempre certos
Restos da passagem

 

PSRosseto

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DESCALÇOS

A gente prepara o futuro mas ele chega e nos apanha descalços

Como relâmpagos atrás do escuro diferençando seus finitos

Percalços que atravancam sanar as nossas possibilidades

E logo após seus trovões arrebentam ateus tímpanos

Destapados interpostos a brutamontes ventanias

 

Ventos de magras palavras e grossos calibres

Diminuindo-nos ao ultrapassado instinto

Sobrevida além desse tempo ausente

Carcomendo lerdo e mansamente

Suas instadas beiradas da vida

 

Sempre se esvai apagando

Pelo pavio e pela cera

Na chama da vela

A diminuta luz

Queima-se

 

Nela

 

PSRosseto

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INSEGURANÇA

Não temo que pule meu muro

Nem desmantele os segredos que guardo

Tenho medo é da insana loucura

Que irrompe do nada

E te faz desumana.

Tenho medo do teu preconceito

Ojeriza que te desatrela

Faca cega que corta o vazio

Tenho medo do teu poderio

Que te faz insensata.

Amedronta-me essa covardia

Desmedida e desconexa

Paradoxal e até paralela

Que esfacela conceitos

E te põe tão perversa.

Inseguras são tuas respostas

Sem noção são as tuas perguntas

Deus me livre das tuas maldades

E por total caridade

Ignore que existo.

E se não puder sanar tuas dúvidas

E se minha presença inquieta

Reze o terço e toda ladainha

Abra o leque se abane sozinha

Depois vê se me esquece.

 

PSRosseto

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ELEGANTE

Se triste é ver um semblante chato

É terno acolher um semblante triste

Pois a tristeza é diferente do sorriso falso

Este sim existe escancarando a face

 

A tristeza normalmente usa disfarce

Esconde-se atrás de qualquer rosto nulo

Que por vezes nem parece estar cansado

Com o sofrimento que em si abate

 

Aprende-se com as quedas a enxergar

Verdades e superar dificuldades

Rotineiras que a vida em reservas impõe

 

Sábio é quem se interpõe ao cotidiano

Enfrenta obstáculos e serena ciente

De que mesmo a tristeza o põe elegante

 

PSRosseto

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DANCEMOS

Dancemos enquanto ainda é possível a mente

Mexer essa esquelética caixa de sangue e ossos

Em que as dobras já nem quase estão mais juntas

E as gastas juntas nervosamente mal respondem

Às ordens tardas do pensamento

 

Dancemos como dança a chama no seio da acesa brasa

Aparentemente adormecida no interior do carvão precoce;

Basta que uma molécula de oxigênio a desperte

Que ela nos pede a sábia paciência em aguardar flanando

O calor que emana do fogo ao dourar a carne

 

Dancemos pela espontânea precisão dos passos

Que bailam de braços dados com os ritmos

Cadenciados da batuta nas mãos hábeis do maestro

Ainda que seja um só o instrumento que toque

Ou a plêiade de sons que emanam da orquestra

 

Dancemos por onde houver música alegria e vontade

Ou ainda no recolhido silêncio do templo de cada um

Porque dançar aclara os amores enleva o espírito e a alma;

Dancemos enfim largados ou de rosto colado à poesia

Pelos bailes da vida nos requintados salões da saudade

 

PSRosseto

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POR DEBAIXO DA PORTA

Caso esse vento arteiro soprando lá fora

Colocar agora a língua suave e assoprar

Pela mínima fresta por debaixo da porta

E levemente ventar por entre tuas pernas

Entrega-se lânguida ao frescor do arrepio

Que essa benfazeja brisa te acaricia

 

E caso resfria puxe a coberta

Aconchegue-se ao florido jardim

Do seu travesseiro

 

Mas se o sono faltar

Dê-se ao direito

Do devaneio

 

E se porventura incendiar

E tornar-se intensamente desperta

Jogue o lençol

Deixa-se nua

Aos doces apelos

Desse vento poeta

 

PSRosseto

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O ASSANHO DO VENTO

Quando faço tinir a corda do violão

O som acorda e acordes ressoam

Em diferentes tons de uma musica boa

Que brota do estojo que mora

No bojo do coração

 

Esse mesmo ar assopra a flauta, faz melodia

Repica nas mãos o bumbo e o carron

Zune no centro da minha voz

Chega aos céus como louvor

Constrói a paz que se precisa

Fortalece minha alma em festa

 

Enquanto o pulso compassa

E o corpo resoluto respira

Todo meu ser baila suave

No espaço junto às notas que flutuam

E fazem meu peito sereno arfar

 

Mas há um momento

Em que a orquestra para

Encerra e termina a cantoria

Então a noite silencia

Para que eu possa ouvir lá fora

O assanho do vento assoviando

Ninar meu sono com sua canção

 

PSRosseto

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PELA VIDA

Lá pelas tantas da vida

Quando se arruma um amor

O amor desarruma tudo

E desestabiliza a logica

Que se derrama de paixão incontida

 

Lá pelas tantas o amor

Desestabiliza a logica

Desarruma o todo

De quem arruma paixão

A certa altura da vida

 

Mas que seria da vida

Se não fosse a logica do amor

Em qualquer estagio de paixão

Ainda que desestabilize

Incontido o que se derramou?

 

Que importa derramado

Desestabilizado e ilógico

Se a paixão refaz e renova

E o amor renasce e revive

Em qualquer fase da vida?

 

A resposta quem dá é a coragem

De amar e apaixonar-se incondicional

Sem importar-se se revive ou renova

Desarruma ou desestabiliza

Quem encontra paixão e amor pela vida

 

PSRosseto

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CADA ERRO ENSINA

Não me tome tão repleto se tua fome não é tanta

Pois o alimento escassa e não é justo que soçobre

O espanto do pecado pelo desperdício da comida

 

Retira-me do teu armário antes que embolore

Doa-me a quem precisa e pouco tem a recobrir-se

Aquecer do frio, dignificar-se com um mínimo conforto

 

Da tua agua cede-me um gole que meus lábios molhem

Ou insignificante jarro para que banhe meu dorso

Limpe e lave o sujo que em mim impregna e cola

 

Vê se ouve minha fala, escuta o clamor que aflige

Minha alma sem guia recostada nas sarjetas

Que margeiam as avenidas dessa vida peregrina

 

Crê nas verdades que te conto ainda que assuste

E não me cobre do impossível se não te parece real

Pois nem sempre se acerta mas cada erro ensina

 

PSRosseto

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DOCE DELEITE

Vai muito além da vontade

Por algo doce na madrugada

Um manjar branco ou pudim

Um naco de goiabada

Algum pastel de Belém

Camafeu de nozes

Diamante de morango ao creme

 

Extrapola o apetite

Pelo açúcar que excita

Que molha os lábios

A boca salivando treme

Por esse lascivo desejo

Do beijo adocicado

Legitimo chocolate ao leite

 

Doce deleite que arrebata

A sede não de água

Mas do carinho que mata

A saudade que arde sem jeito

No âmago do peito

Nos seios em pêssego

E por onde o querer lateja

 

PSRosseto

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O QUE FAZEM ESSES HOMENS

O que fazem esses homens eternos

Dentro de templos fechados

No silencio sem janelas

Nos enredos de seus passos

Íntimos mistérios

Escondidos em preceitos?

 

Talvez rezem ou procuram

A oração perfeita e pura

Que cure a alma pela doçura da caridade

E torne mais perfeita e fraterna

Cada ser e a humanidade.

 

Seriam tantas as respostas

Nessa batalha mística do escuro

Contra a magnitude da vida;

Talvez seja escura busca

Que se aclara com a visão ávida da luz.

 

Vencem ardilosas e árduas batalhas

Trazem consigo pura e reta

A estrada por onde aprimoram e aprumam

Seus vastos e próprios espaços.

 

Do que sei guardo com a alma

Se desconheço estudo, e se descubro

Cubro com o manto do segredo.

 

Me torno também mudo

Como a calma que me resta.

 

Poucos veem o que fazem

Esses homens de terno.

 

PSRosseto

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CALMARIA

Caso um beijo distante

Bata levemente em tua janela

Fecha os olhos

Ouve a magia

Sente a máxima sensação

Da intensa calmaria que a toma

Embevece a alma

E o espírito sabiamente silencia

 

Sensatos são os momentos

De interna ponderação

O coração aquieta o pensamento

E vice-versa nos tornamos parte

Daquilo que se imagina

 

Assobia agora qualquer canção

Vai sentir que o sopro da melodia

Distraída te recobre e aquece

O frio de tua mão

Como se agora estivesse

Intensamente ardente

Ainda que virtual

O mundo que você precisa

E o sonho que de você deseja

Que quando bem sonhado

Sossega e sacia

 

PSRosseto

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OUSADIAS

Meu sol costuma dormir pertinho

Nada dessa historia de ir ao Oriente no final do dia

 

Ele não viaja, apenas desliga a luz e torna amanhã

Alguma parte de ser que seja tarde

Ou faz amanhecer algo que precise

E nunca deixa de brilhar por mim

 

Antes de apagar põe os pássaros em suas árvores

Arrebanha as nuvens aos seleiros

Diz aos ventos que arrefeçam e se refaçam

E aos arcanjos que clareiem minha áurea

Para que eu não sonhe em vão ou perca o sono

Descabido temeroso com minha própria insônia

 

Mantem por fim alertas um punhado de estrelas

Por sentinelas, pois caso ela venha saberá

Onde me achar apesar de qualquer escuridão

Que me tome nos braços por ser ainda noite

 

Ensinou-me que a vida sem ousadias

Por vezes fica ilegítima e sem graça

 

Logo após faz manhã e entendo por fim

Que nada é à toa

 

PSRosseto

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EM CADA GOTA

E se ao findar o dia me der um cálice ao meio

E mais meio e meio outro e outro mais meio

Serão deliciosos goles com inigualáveis aromas

Desse tânico raro e violáceo vermelho

A morder meu paladar e a língua a sorvê-lo

Intimamente inebriando-me inteiro

 

Provar da taça do vinho é um ritual nobre

De frescor frutado, ervas finas, floral, tostado

Um íntimo exercício privilégio de poucos

Ao brindar a loucura no translucido cristal

Que antepara o buque em cada gota que baila

Entre o brinde e o lábio que se entreabre matreiro

 

Ao bolero, às meias, aos saltos e ao cheiro

Que instigam o devaneio e a paixão sem pudor

Vivencio o diálogo dos sussurros do amor

Às uvas, à vinha e aos sonhos de Baco

Eu, irrequieto poeta provoco, sinto e provo sozinho

Do frescor da lua e sua malícia e final de boca

 

PSRosseto

 

Saiba mais…

POR TODOS OS LADOS

O cheiro da tua lembrança

Perfuma minha solidão

Seu bailar de um lado a outro na sala

Petarda meu sono

Dilata minhas veias

Farfalha e espalha

A vontade de investir todo o meu tempo em você

 

Parece ser incrível mágica

Viver entre a vontade

E o disfarce em saber nada

Pedir ou querer estar tão próximo

E a um só tempo enormemente distante

Como um veleiro na agua e longe do cais

Que surfa sem leme em mar revolto

Sem ventos para voltar

 

Há por todos os lados

Sempre um repetido e novo engano

Entre acertos e riscos de errar

 

PSRosseto

Saiba mais…

ARREPIAR

Cada um tem seu jeito

Há quem escandalosamente grite

Há quem silencie

Há quem apenas deleite

Há quem estremece e palpita

Há quem ache tudo perfeito

Há quem se arrasta na cama

Há quem reclama

Há quem finge que ama

Há quem pensa que goza

Há quem fala de tudo

Há quem se cala e dorme

Há quem se obrigue por isso

Há quem agradece e reza

Há quem nem se suja

Há quem sua vertiginosamente

Há quem remoça

Há quem intenso e lerda

Há quem seja precoce

 

De toda maneira

Arrepiar de amor é coisa bela

 

PSRosseto

Saiba mais…

CHUVINHA

O dia que criei pra ti

Tem flores e altar

Adocicado manjar

Violão e seresta

 

Tem as fases todas da lua

Em uma só nave

Estrelas que saem do sol

E viram pingos de mel

Vento transatlântico e terral

Aurora boreal e arrebol

 

A qualquer hora

Tem chuvinha fria

Fingindo ser amena garoa

Alguns raiozinhos teimosos

Provocando estalinhos de festa

Folhas molhadas

Cheirinho de terra

E preguiça à beça

Como o diabo queria

 

Já a noite que me dei pra mim

Tem somente você e poesia

Saiba mais…

O FIM DE TODO MUNDO

Não fosse a agua não me daria conta da chuva

Apenas da enxurrada

Não fossem os embranquecidos cabelos

Me perderia na fila dos dias idos

Não fosse a taça esqueceria as uvas e do vinho

Não embriagaria

Não fosse o garfo despreocuparia da fome

Lembraria a faca

Não fossem os segredos não faria poemas

Dormiria cedo

Não fosse a arma o portão estaria solto

E livre meu espirito de qualquer medo   

Não fosse a ética não haveria culpa

Estaríamos mortos

 

Aprenderia a pular etapas descrer do obvio

Rever o abismo por outros modos

Descer muito abaixo do choro

Analisar o jogo

Teria coragem de rezar prevenindo

O inicio e não o fim de todo mundo

 

PSRosseto

Saiba mais…
CPP