Posts de Paulo Sérgio Rosseto (331)

CONCRETAS

CERTEZAS

 

Durmo estirado no chão

Fora desse colchão sem graça

Prefiro a pedra fria que me acolhe

Do que a macia espuma que finge que forra meus ossos

Que até aquece mas não me envolve e nem abraça

 

Descanso num banco de granito

Exposto ao relento na praça

Colado à calçada onde apressado você passa e nem nota

E se apercebe finge que não vê e se olha ainda faz troça

Ou desvia por temor a minha provável ameaça

 

Balanço na rede dependurada entre o piso o teto e a parede

Por ganchos de anzóis presos ao nada

Parafusados em buchas espremidas em concretas certezas

De que entre o pó do cimento a agua e a areia calcada

Existe apenas a vontade e o cuidado

Em não me soltarem no vazio da palavra

 

Assim vou ensaiando meu jeito tardio de entender

Que tudo o que faço além e batalho acima da contínua lavra

Permanecerá à flor da terra mesmo que virtualizado

Enquanto esse corpo que já mal ouve e quase nem fala

Cessará sob a lápide somado a qualquer punhado de terra

Mas não diferente do que o amanhã também te espera

 

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POR DENTRO DE CADA UM

Anda tanta gente por dentro de cada um
Imprimindo sensações lubricas, absolutas

Há em cada íntimo uma pessoa oculta
Intrépida, intrigante, esnobe, insana, incomum
Digitando regras, regendo normas
Tardiamente desperta para o bem
Secretamente agindo incubada em ócio
E que a qualquer momento
Aflora em lugar nenhum transparente
Por Infantis atitudes levemente adultas

Dorme tanta gente no interior poeta de onde vim
Que desaprumo irresoluto, mas asseguro:
Quando me acho único, máximo e adulto
Ajo expondo meu lamentável lado imaturo
E se recolhido percorro meu deserto árduo
Completo minhas buscas justamente por ser puro
O anjo menino que ainda se recolhe em mim

 

 

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DESMANCHE

Meu coração tem teto de glace martelado

Paredes de geléia acartonada

Porta e janela de gelatina caulim

Chão de papel machê encorpado

Escada em espiral e caracol de caramelo

Forro de anilina adocicada de anil

 

Quando choro tudo se desprende e derrete

Menos o telhado que flutua lerdo

Num rio placebo amarelo que viaja em mim

E se precipita aos pedaços rumo ao cerebelo

E se arrebenta no precipício da alma deserta

Zunindo um grito forte ferindo os tímpanos

 

Tua ausência me propõe alerta à espreita

Mas quando convenço que você não vem

Alicerce nenhum me sustenta

 

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CURA

Já não envelheço tanto a cada dia

Aliás percebo horas sem envelhecer

Acontece quando determinadamente

Consigo poupar a língua

De inefáveis momentos de desdéns

 

Sinto indo embora a irremediável pressa do dia

Deixando de vomitar vontades por desatar enjoos

Mesmo o espelho agora me enxerga pequenino

Pois me apreende a entender o que ficou aquém

 

Paro enfim zombando de uma ou outra desventura

Acho que a nostalgia valoriza sinuosidades

E a idade cura onde nem mesmo a imagem

Atreveu-se a ferir ao colocar a mão e não estancou

Diminuindo tensões sem pressa de reduzir voltagens

Sem machucar por bobagens ao perder de vistas

Sem descontar na poesia o que não se desvendou

 

Ando envelhecendo menos a cada estendido dia

Pela expectativa obvia de ainda não ter vivido

 

 

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LÁ FORA

Bem sei que lá fora há riscos evidentes
Porem a ânsia do noturno fascina e clama

Entretanto não voo por temor mas razão frágil  
Permaneço quieto enquanto escuro
Ainda que as asas esgueiram-se ágeis
Entre galhos, lençóis e travesseiros
Às vezes passados, outras em frangalhos
Dobrados justapostos pela casa

Camuflado ninho de penas e folhas

Contenho ao ímpeto que me chama
Tão insone como tantas vezes faço
Equilibro imóvel como toda ave
Até que o sol em consideração
Volte dúbio num pio um raio à forra
Nesta vasta e ampla liberdade de sonho
Que não me tolhe e sim acolhe e ampara

São assim os limites de quem ama
Soturnas as amarras ainda que pense
Por não ser recíproco a quem lhe possa

 

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MANGA MADURA

A secreta procura está no tato
No passear leve dos dedos
Sobre a forma e a textura da fruta
E no sentir arrepiar-se pelo cheiro

Na ronda da língua entre os dentes
E na espera da pele pelo lábio
No entreabrir da boca provando a casca
Âmago lambendo desejo e êxtase
Hiato de ruído e silêncio - polpa e amêndoa

A candura verte evidente
Mel e bálsamo escorrendo a esmo
Minando a fonte
Banhando a face da semente
Umedecendo o dorso
Contraponto catarse
Em contato ao frescor olhar
Como suave brisa que alivia

Mormente quem sente esse íntimo desejo
Da cobiça a uma bela manga madura
Degusta a avidez da fome como se beijasse
Padecendo dessa doce sedução mística loucura

Que somente sara e sacia

Ante ao gesto ávido de mordê-la

 

 

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CERTAMENTE MORREREI

Certamente morrerei mais tantas vezes

Pois meu orgulho poderá não desaparecer

E exigirá que me repita nesse ato final

O quanto necessário precise padecer

 

Já morri de amores, de imediato contentamento

Saudade, alegria, felicidade plena, frio e de rir

De inveja, medo, prazeres, desconfiança e sono

Na prescrição das dores que me fazem reviver

 

De repente a morte continue seu laboratório

E se experimente mais em minha espiritualidade

Aprimorando seu oficio em me matar por onde for

 

Apenas não gostaria de viver no abandono

De quem não sentirá pesar algum estando ausente

Ao recobrir na terra aberta meu ultimo momento

 

PSRosseto - www.psrosseto.com.br

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MIGALHAS

Voei do alpendre
Ao curto braço da cadeira

Cobicei pingos de pão
Que rolaram do teu lanche
Involuntários farelos
Das amarras da gravidade

Fartei-me pelo chão
Com o que em tua blusa
Tornara-se sujeira
Enquanto te alimentavas
Das invejadas migalhas
Dada minha liberdade

O mundo pode ser perverso
Mas o acaso da comunhão
Torna a vida mais perfeita

Por isso compensa

 

PSRosseto - www.psrosseto.com.br -

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BAGUNÇA

Houve fina garoa sobre a poça

Que até então já aquietada

Sossegara brincando após

O primeiro chuvisco na praça

 

E assim enchendo-se novamente de chuva

Dessa vez na calmaria da rua

Transbordou vagarosa pelo declive

Ensopando as falhas entre as pedras

Cantante e desperta como toda água

Mansa, esguia, boa, límpida e fria

 

E lá embaixo depois de alguma andança

Espalhando-se feito enxurrada

Na lama do paralelo ao pé da calçada

De novo em descanso deu de cara com a lua

Espelhando-se em si de felicidade

Toda melada e dando risadas descontraída

 

Entra o vento apressado afeito criança

Nessa profusão de imagens fazendo bagunça

Rodopia e sacode lambendo a paisagem

Tremulando áspero entre ondas

As surpresas amigas que entredizem

 

- A que ponto chegamos, querida!

 

PSRosseto

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QUEM NÃO ERRA

A lida às vezes navega

Por barcos sem mastros

Desprovidos de velas

Navios sem lastros

Sem cordas nem âncoras

Timões em proas sem rumos

Barcos calados na areia

Aportados em baías

Degredados

 

A sorte às vezes recende de mágoas

Tal qual vela sem pavio

Cela sem dorso nem doma

Chinelo quebrado pisando descalços

 

Ainda assim os mares continuam

Acolhendo os seus rios

E os rios galopando percalços

Nos tomam nos braços

Acolhem nossas naus

Amenizam nossos passos

Restituem-nos pacientemente a vida

 

O cotidiano é a soma de esperas

Expectando acertos

Mas quem não erra?

 

PSRosseto

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NO FERVOR DA MADRUGADA

Essa tua ousada libido
Mora num lugar tão quieto e calmo
Que ate mesmo qualquer vento perdido
Deitando-se em teu colo cheiroso
Inventaria de não mais ventar
Somente pra te ver suada

Mas esse indiscreto arzinho
Desperto de gula e prazeres
Eriça e te rebuliça os mamilos
Revira teus olhos bonitos
Desabrocha teu danado risinho
Põe-te do avesso acordada
Adentra a tua vontade faceira
E arteiro se esconde mansinho
Por entre os teus pelos macios

No fervor da madrugada
Quem não cobiça e se atiça
Após a insônia do cio
Aos apelos da geladeira?

 

PSRosseto

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SONETO DO AMOR MADURO

Esperamos algumas dobras aprendendo mansidão

Depois, nos mesmos espaços a fio tivemos por lição

As certezas do intrépido desafio em vencermos

A vastidão dos doídos encantos indomados do mundo.

 

Outro tempo nos fora gasto no cotidiano desbaste

Daquilo que se desvendara com o surgir das verdades

Tão distintas quanto translúcidas com o passar da idade

Tão carismáticas a ponto de tornarem-se cumplicidade.

 

Fomos assim perseguindo ilusões e vencendo vaidades

Conquistando a amizade, obedecendo raras vontades

Distantes da subserviência, do ócio, das tolas paixões.

 

Tornamo-nos generosos, íntimos, prósperos e próximos

Tão comuns como apropriados são os doces sentimentos.

Então descobri que a amara desde o primeiro momento

 

PSRosseto

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ENTRE LETRAS

Devemos às palavras todo o louvor da língua

A exegese da verve como indumento

Arauta semântica de doce papila

 

Analise portanto as tuas sentenças

Cada qual carrega a necessidade da crença

O objeto da justa balança

A audácia da reza

A peleja da avença

 

Palavra alguma se desgasta por má influência

Nem degenera por desuso ou excesso em usa-la

Ainda que represente ou signifique

Sinônimo de síntese em insistentes sentimentos

Instigue o que te fora dito mesmo silenciosamente

 

Amigo, ame tanto a língua quanto a pátria tua

Suficiente que jamais baste

Para que satisfaça e não enjoe

Renasça sem que desmanche

Revigore sem que vicie

E te fale sem que aquebrante os significados

De qualquer suspeita de pensamento em contrição

 

Ainda que falho todo texto atesta e santifica

Pelos ensaios, as causas, entre letras e tons

Calar-se é prudência, a palavra é dom

 

PSRosseto

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BREVE

Na sumária manhã

Boa parte das pálpebras se abre com o sol

Desperta mesmo quem mantem cerradas as janelas

 

São os compromissos do organismo

Em naturalmente recompor movimentos

Sair do mérito horizontal

Encarar de olhos abertos as luzes do mundo

 

Eu ainda no breu do ventre

Piso o chão à espera do dia

Não por temer que não venha ou clareie

E sim por reconhecer

Que adentre meu vagabundo sonho

Acostume complacente descompor-se em endemia

E me fazer dormir eternamente

 

Nesse dia leve

Nada de mim mais restará poemas

Unicamente a fantasia de que fora um sono breve

 

PSRosseto

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TREM DAS ALMAS

Assisti da janela tantas almas

Desde a tenra juventude até poucos dias

Seguirem calcadas nos mesmos dormentes

Longitudinais estendidos mundo afora

 

Cada parada e partida ao longo das estações

Transpunham os embates das aragens

E tornavam-se inesperados passageiros

Repletos de encantadas aventuras

 

As torrentes de soslaios, no entanto

Descolaram as madeiras desses solos

Desunindo no entrelaço o aço dos trilhos

 

Desde esse dia todo amor desavisado

Que assusta, desviaja e nem desafia

Fechando as paralelas, descarrila

 

PSRosseto

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CONSTÂNCIA

Mesmo os rios de tantas vezes

Não se topam infinitos

Fazem curvas entre matas

Ah! contornam pelas pedras

Circundam barrancas

Às vezes tornam-se menos nítidos

Mas não sei se mais rasos ou profundos

Mansos e bonitos e disciplinados

E se acabam assoreados

Ou no colo de outras águas

Às margens em voltas e vindas

 

Alguns rechaçam

Aquele necessário momento de introspecção

E trocam a correnteza da foz

Por passeios na praça

Derramam-se entre as ruas

Espreguiçam rebeldes nos quintais

Até invadem casas

Encharcam fogões e camas

Depois dormem enlameados

Da fúria represa de suas mágoas

 

O bote de minha vida segue seu curso

Apesar da inconstância e dos temporais

Eu é quem não sei ser sereno

Abrupto riacho e tão pequeno

 

PSRosseto

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COSTUMES

O que orbita entorno ao teu coração

Reconforta esse peito descuidado

Aproxima-te da minha terra impura

Revive meu jardim já desbotado

 

Tomando aflições por bons costumes  

Somos parte intrínseca que partilha e ama

Sentimentos diversos sob efeitos divergentes

- Se tua luz me aclara minha lua te chama

 

Todo o todo em nós é pragmático infinito

Universo muito aquém de simples mundos

Descabendo as retrações dos próprios polos

 

Há quem denomine ilógico destino

A teimosia eclodir densa ternura

Das nossas unhas roçando os mesmos poros

 

PSRosseto

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SIGNIFICADOS

Se até meia palavra detém significados

Meia porção de poema ainda que breve

Descreve infindos predicados

Para quem o ame ou despreze

Mesmo que esdruxulo ou sereno

Severo ou eterno como um brilho no infinito

 

Por isso todo verso

Ainda que no apelo do amor farfalhe

Sempre é bonito em qualquer idioma

Se consegue dos sentidos avizinhar-se

Pela emoção de quem o separe

Independente de quem lhe reserve

 

Ao poeta apenas cabe o exercício da escrita

Nos poros da alma suada

De alguém que o leia ou declame

 

PSRosseto

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AUSÊNCIAS

Estive quase sempre

Presente quando pude

Isto significa ao certo

Um considerável percentual

De ausências

Pois mesmo presente estando

Em até não podendo estar

Foi como estivesse

Estado semi-ausente

Porem uma vez estado onde nem fui

Fora plenamente

 

Estou agora revendo possibilidades

Em ir ou não novamente

Caso permita irem

Essas ambíguas partes pertinentes

A que possivelmente não vai

Junto à que pretende

Continuarei onde estou

Às vezes ido inteiro

Outras reticente

 

 

PSRosseto

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SEDE

Na hora da sede intensa

O líquido que se desmancha em porção necessária

Anda pelo interno do copo aparentemente lerdo e lento

Por demais devagar e manso abrasa estar cheio

Tanto que a língua cansa dessa espera e ainda mais amarga

Arde no sal da saliva rala parecendo lágrima

Impaciente na garganta molhando o esôfago do sedento

E suado corpo que chora e implora e deseja a benfazeja

Gota que ao longe calmamente orgulhosa sai pelo olho

No cristal do vidro transparente e olha e aguarda o momento

De ser imediatamente sorvida junto às tantas outras moléculas de agua

 

Também minha boca tem essa mesma precisão quando espera meu beijo

E qualquer virgula que se interponha entre essa vontade e o desejo

Torna-se mais insensata que o tempo do mais sutil e absurdo pensamento

Como se o ardor do carinho e o amor não fossem os mesmos enigmáticos

E não ocupassem céleres um único espaço dentro de um jarro com gelo

Esperando ser um gole de agua de um copo escolhido a esmo

Idêntica reciprocidade de alguém também por ti sedento

 

PSRosseto

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CPP