Posts de Alexandre Montalvan (859)

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Sol

Eu abro o meu peito
para ver o meu sangue escorrendo.
Quero ver meu coração batendo,
sentir que, por mais que faça,
continuo vivendo.

As lembranças deixadas nos caminhos,
aos pedaços, espalhadas mundo afora,
com minha carne cravejada de espinhos
e a alma implorando para ir embora.

A ruína da minha vida, o sentimento,
a angústia de não ter você comigo,
a loucura que transforma meu momento
em delírios de viver a tua procura.
Não têm cura esta dor, este tormento.

Passo as noites esperando você,
desejando que o passado retornasse,
pedindo para o vento que soprasse
e trouxesse você com o sol
ao amanhecer.

Alexandre


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Processo Lento

Uma batida leve, lenta e constante,
atmosfera calma, enganosa,
com atitude algo inconsequente,
uma dor lasciva, recorrente, sedosa.

Minutos, horas, dias, meses.
Não se percebe, não se sente;
a mente se destrói,
reconstrói-se lentamente.

Realidade em mutação,
vivência nunca antes vivida,
experiências nunca antes sentidas,
vagarosa e lenta destruição.

Tempo verte o vento,
o vento, as tempestades.
São almas, gemidos, ganidos,
violência, ódio, falsidades.

Olhos que olham sem vida.
A morte antecede o nascer.
Como entender?

As rosas plantadas em teu jardim,
teu lindo amanhecer,
o que um dia eu também fui...

E que nunca mais voltarei a ser!

Alexandre Montalvan

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Cancioneiro

Mas o tempo passa chorando
pela dor neste cancioneiro,
quando cessa todo o canto,
alagando o mundo inteiro.

Ai de mim neste recanto,
ao não ver teu brando encanto.
Sal do mar, do mar que eu crio,
que são apenas águas de um rio.

Nos interstícios que tu eras,
mas que agora não és mais,
aguaceiros de longas esperas,
quando tu eras teus iguais.

A alma de um branco franco,
como as areias de uma praia vasta,
quando andas sobre teus prantos
e essas mesmas areias tu arrastas.

Cancioneiro de um vazio inteiro,
livros nas areias enterrados.
Inspira a dor que é um desvario,
como as secas margens de um rio.

E este amor, que sequer sentiu,
que motivou esta terrível dor,
é o mesmo coração que se partiu
ao perder este imenso amor.

Alexamdre Montalvan

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Universo

Neste lindo e misterioso universo,
na vastidão que é... imensa e infinda,
maravilhosos são todos os versos
feitos sob a luz desta lua... tão linda.

Galáxias, nebulosas e cometas,
e também berçários de estrelas:
é preciso o Hubble para vê-las.
Elas nascem como se fossem bebês,
tudo feito pra mim e pra você.

Quasares que pulsam eternamente,
astros, buracos negros e escuridão,
o Sol... o seu nascente e o seu poente,
Deus dos céus até uma bolha de sabão.

Ela sobe, a se perder no infinito;
de tão frágil, logo vai explodir.
O universo é misterioso e bonito,
mas um dia eu terei que daqui partir.

Alexandre Montalvan

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O Voo do Mal

Pombas selvagens vão para a guerra.
Não é isto que se espera
que ocorra neste mundo,
mas vão em bandos
em um céu da cor de chumbo.
Elas vão voando.

São pombas selvagens e severas.
Matarão os seus inimigos
sem nenhum pudor;
em atos demoníacos,
os deixarão desnudos
neste sangrento campo de horror.

Em sua ira absurda, elas gritarão,
com seus bicos enormemente abertos,
por onde fluidos de dor vão escorrendo
e se despejando nos tetos
das catedrais do tempo,
onde há negras flores
com suas hastes cobertas de espinhos.

A singularidade do mal é única,
da mesma maneira que também é a bondade,
mas, na guerra, a maldade é a singular túnica.
Junte-se a mim nesta dualidade tirânica
e entregue-se à insanidade da alma
humana.

Alexandre Montalvan

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Lágrimas da Alma

A crueza dos teus versos
mostra a dor que tua alma esconde,
e toda a beleza do universo
é o contraponto que a corrompe.

Linhas corporais e ásperas
revelam a dor suprema
deste amor perdido,
que te serviu de tema.

Na tristeza que feriu a alma,
com certeza também o corpo feriria,
trouxe estas lágrimas agressivas.

Lágrimas que tua alma esconderia,
porém, nas letras da tua poesia,
estão as lágrimas que na tua alma havia.

Alexandre Montalvan

 

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Todas as Maldades do Mundo

As maldades que me trouxeram ao mundo,
todas curtidas em cianureto e fel,
que me jogaram em um buraco profundo,
como um amassado pedaço de papel.

Sou amado apenas pelo mal que difundo;
é quando eu toco em um pedaço do céu.
Mas olho minha mão com olhar imundo,
percebendo que a vida pode ser cruel.

Sou uma fera vivendo entre as feras
e um demente que vive entre loucos,
um ser vivente entre tantas esperas.

Mas que, na verdade, viveu muito pouco
e tenta encontrar Deus entre as feras,
mas apenas vislumbra a dor e as guerras.

Alexandre Montalvan

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Destino Prematuro

São cinzas que escapam entre os dedos
restos de sentimentos
Os ventos as levam sobre as águas e seus segredos
sonhos que se perdem, pedaços de saudades
onde se encontram os devaneios.

Com o corpo tornando-se líquido
fechado em um calabouço que em
sonhos transcorriam
mas onde nunca ninguem tinha ido

Restando apenas este desejo obscuro
entre gemidos e o som do próprio vento
que escorre entre os dedos como as sombras
de um destino prematuro

Porém tocar teu corpo como se fosse um beijo
um carinho com um toque sensual.
A mente transtornada em desejo,
em todo o corpo numa fome terrivelmente animal

Alexandre Montalvan

 

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Tristeza

Percorre enfim a minha alma
tristeza imensa
e pensa que pode ser a última
a sopesar,
chega dilacerando as partes e o todo,
chega como quem chega para
ficar.

Em noites de lenta quimera,
apego-me a esta tristeza
a me enamorar;
sonho como quem sonha e tristeza venera,
sonho com uma forma de viver
para sonhar.

Tristeza, tão terna criança,
externa os mantras sem fim,
cultiva as flores da esperança,
repousa tuas dores em mim.

Alexandre Montalvan

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Amor Assassino

No caos no qual se afunda a cidade
delirante é a dor na paisagem
não há quem se sinta culpado
pois é chegada a hora da adversidade

É um mundo em suspensão, mas altivo
e nada disso por nós foi escolhido
menos ainda, qualquer um o escolheu
e de todos os pecados nos sentimos despidos

Batem à porta na exata hora do arrepio
e a rudeza invade os pelos de toda a pele
a boca é contorcida em um sorriso esmaecido
e toda a ardência exala apenas um caractere

Amor! Intenso, mortal, imolado e sublime
pois a mão que acaricia os lábios vermelhos
é a mesma que nos fere como inocentes coelhos
e ambos os atores são culpados por este crime

Alexandre Montalvan
 
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Portais do Inferno

Toda a tragédia no meu eu profundo
é a doença que n’alma explode,
tragicomicamente estatela o mundo,
e eu terei de engolir sem um pingo de fome.

E em teus lábios está o meu destino,
porém é em uma forma mais funesta;
eu quero desfolhar toda esta floresta
quando beber a água do riacho cristalino.

Mas não existem mais anjos no céu,
pois todos caíram aqui na Terra;
perderam as asas em um fogaréu,
e toda a minha tragédia é grito de guerra.

Foi feito para mim por um mortal decreto
uma morada feia em um glacial inverno;
tem todas as paredes pintadas de preto,
que abrirão para mim os portais do inferno.

Alexandre montalvan

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Apocalipse

Confusa ou confusão
em versos que são feitos,
descaminhos e amores defeitos,
histórias de sonhos que são
nada menos que efêmeros versos de vida e paixão,
são somente pedaços de um todo
que se confundem de repente com o novo,
mas são infindavelmente perpétuos,
pois nasceram com o universo.

Por isso, confuso é o verso
que me dá a estranheza
e demonstra o quão áspero
é o que nasce do espanto.

Quando olhos veem coisas engraçadas
e as olham assombrados,
ao nascer da alvorada em um céu sem sol.

No entanto, o espanto
são as flores
que florescem na madrugada.

Se elas morrerem na escuridão que finda,
não morrerão totalmente,
pois lançarão suas sementes
em um mar de lama
que é um quase nada,
mas que, por puro espanto,
voltarão confusas a nascer
na próxima madrugada.

Alexandre Montalvan

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Todos os Caminhos

Todos os caminhos são verossímeis,
mas entre homens e almas há espinhos,
e terríveis são estes sentimentos,
mesmo que em tua descrença a discórdia
seja fruto de divinos pensamentos.

Porém, teu coração não bate ao acaso,
então olhe com os olhos dos homens,
e o peito incurável morre ao descaso,
mas as almas não.

Ou então olhe pelos olhos das almas:
eternidade é uma opção,
e o sangue parado e morto
é de tudo um pouco,
menos a eternidade em tuas mãos.

Toda é a dor que se esparrama pelas ruas,
sobre a plebe sem que a elite se exclua;
nem os muros no inverno congelante a seguram,
mesmo estando sob o manto dourado da lua.

Alexandre Montalvan

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Sou Eu


Iluminado por uma luz artificial,
um vulto se ergue como uma assombração,
situação absurda, aflitiva e anormal;
por ele, eu sinto uma benévola afeição.

Muitos milhões de anos se passaram nesta casa;
a lua, com seu olho brilhante, procurava em vão o amor,
fria, tão fria, a cada era que extravasa,
alternando-se, em vão, entre eras de calor.

Estou tão só, e este vulto é a única companhia;
tenho em mim a sua alma e a de outros tantos,
que me vejo ensopado pelo espanto,
e nenhum outro pensamento ou vontade me valia.

Sou uma alma lançada a um fosso profundo,
como um verme preso à língua de Satanás;
corro da morte desde o início do mundo,
e a fome de amor me transforma em um ente voraz.

Enquanto espero este sentimento supremo,
vivo em desespero nesta existência de horror;
eu como o pó da terra e, por isso, eu blasfemo,
e este ser saído da luz é meu eu pecador.

Alexandre Montalvan

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Comido pelo Jacaré

Tire a mão da minha espada,
eu não quero cortar teu pescoço.
O amor por ti não me serve para nada;
as tuas súplicas são as últimas que ouço.

Nosso sexo se tornou uma roubada,
é como, sem dentes, roer um osso.
Quando você na cama fica travada,
é como se estivesse num calabouço.

Eu fui chutar um cachorro morto,
e, mesmo morto, mordeu o meu pé.
Eu pensei: "Estou no desconforto,

pois, pelo jeito, eu sou um qualquer".
Quem não sabe nadar não chega ao porto,
e, por cima, ainda é comido por um jacaré.

Alexandre Montalvan

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Entre as Sombras e a Escuridão

Não há braços que me confortem,
não há som no lamento de uma flor,
mas há os que me abraçam até a morte,
na dor de uma existência sem amor,
e a alma na eterna argúcia da desordem.

Nela me apego antes que me tomem
e chego, através das sombras,
à borda da escuridão.
Pois homens são lobos do próprio homem;
eles enxergam onde não há luz,
com olhos virados para dentro da sua solidão.

Palavras errantes entre meus dramas e as comédias,
vestidas de sombras com luminâncias falsas.
Sorvemos escuridão, vivemos na tragédia;
afundaram a nossa balsa,
roubaram as nossas calças,
também soltaram as nossas rédeas,
entre as sombras e a escuridão.

Alexandre Montalvan

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Sufrágio

A cada novo dia, o mundo perde sua cor,
um desgaste lento a cada alvorada,
ser apunhalado e não sentir nada,
quando um triste adeus se torna indolor,
mas purulento e espesso.

Estou só nesta noite feia e escura;
no cheiro da terra molhada, me teço,
implorando por um pouco de ternura,
como uma criança embalada no berço,
em um incinerador midiático.

Desamparado, condeno este tipo de luz,
e me escorre pela boca um gosto sádico;
mas quem me escuta não me traduz
quando me deito para um sonho
de um sonhar performático.

Ao amanhecer, a luz é moradia,
na exatidão de uma face marcada;
o sangue encharcando a terra vermelha,
é urgente destruir o lume da espada,
no zumbir nervoso de uma abelha,
presa de braços dados à aranha em uma teia.

Alexandre Montalvan

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Incontrolável Amor

Irresponsável é esta ternura,
cheia de um tesão crescente,
nestes beijos eloquentes,
de língua, lábios e dentes,
amando tua figura.

A paixão tencionada e cortante é pura sequela
no desespero desta noite de fogo;
estou louco e mudo, com língua neste jogo;
toco teus seios no escuro,
perco a sensatez que nada me revela.

Deste arrepio, agarro as tuas mãos,
eu beijo e aspiro teus cabelos;
doce é minha pretensão de ir mais longe,
a minha boca louca em tuas coxas,
úmida, você atende meus apelos.

Carne, pele, pelos. Gritante impudor,
um mar de ofegantes gemidos,
é a fúria em forma de sons permitidos;
a avidez da minha boca em teus ouvidos
é a paixão mesclada ao amor.

Sangrando pelos meios, escorre o leite da vida,
corpos nus em uma imagem não permitida,
desconstruídos na lascívia atrevida,
despedaçados de prazer e gozo,
fruto deste amor... Incontrolável e saboroso!

Alexandre Montalvan

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Por Caminhos Tortos

Hoje procuramos algo perdido
que em algum lugar do caminho se perdeu.
Hoje, você e eu... nós,
caminhamos sozinhos,
mas, mesmo sendo nós, não somos muito mais
que eu.

Talvez seja apenas um engano.
O mundo incomplacente e tirano não perdoa
o singular.
Pluralizar é uma farsa amena
no universo que não é meu.
A verdade é tão pequena
que não consegue encontrar
aquilo que se perdeu.

É toda uma tristeza incontida,
não encontrar a saída
de um mundo que não está em tuas mãos,
com a alma emudecida,
de todas as maneiras traída,
e o insensível coração.

No amanhã, se encontrarmos uma saída,
não a possível e concebida,
mas a que é natural,
todos os tiranos estarão mortos. Mas,
se não for por caminhos tortos,
não será por mera imposição.

Por caminhos tortos, às vezes, são justamente eles que nós levam a lugares
onde o caminho reto jamais chegaria.

Alexandre Montalvan

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Crepúsculo

Nas nuvens do céu, o abandono,
pois choram nas águas do mar;
as folhas, no vento do outono,
todas mortas, balançam no ar.

Tristeza de uma longa espera,
eu me perco olhando para o mar,
na dor que a minha alma supera,
como nuvens que flutuam no ar.

Um pouco de mim vai morrendo
ao ver o triste outono passar;
este lindo amor, já findo,
pois morre pelo medo de amar.

Quando a lua no céu vai surgindo,
seu brilho assusta as nuvens do ar;
seu reflexo no mar é tão lindo:
é crepúsculo no azul do mar.

Alexandre Montalvan

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CPP