Posts de Alexandre Montalvan (803)

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Auspiciosa

Hoje encontro a palavra auspiciosa,
que manifesta em mim o medo de enlouquecer;
assim como o cravo está para a rosa,
o adverso é aquilo que me faz florescer.

Este pavor faz meu corpo arrepiar;
ao manipular a mente, fico preso em mim.
É enlouquecedora a falta que me faz o ar,
é enlouquecedor imaginar o fim.

Conflitam percepção, imaginação e realidade;
a compreensão racional é exterminada.
Bem e mal se unem nesta imagem lapidada,
e o abstrato se torna concreto, na verdade.

Nada é tão auspicioso quanto o medo de perdê-la,
ela, que no passado foi uma estrela,
que brilhava em um céu azul interminável;
hoje peco ao pensar que um dia pude tê-la.

E loucamente eu fujo
do meu pecado, ao fazer da mágoa
um feio jogo.

Alexandre Montalvan
 



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"Quantum Mechanics"

Se o que vejo, o é porque vejo,
logo, se não vejo, não existe,
mesmo que este seja meu desejo,
porém eu não fico triste.

Porque o racionalismo impera
e eu só soube disto agora,
mas a consciência deve ser sincera:
ela não sabe se está dentro ou fora.

Tudo isto é muito confuso,
porque não consigo ver minha cara;
consequentemente, eu induzo:
esta doutrina não está clara.

Afinal, eu não vejo minha cara,
mas no espelho ela está lá;
claro que isto é atitude rara,
melhor eu procurar minha gata angorá.

Será que ela existe?

Alexandre Montalvan

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Suícidio Moderno

Rasguei os meus pulsos em um
momento de loucura; o sangue
quente que esguichava tinha
uma coloração escura. Exacerbada
era a pretensão de não viver mais;
sentir meu coração bater trazia
a sensação de algo que eu precisava
deixar para trás.

Um fogo, numa montanha
de palha seca, irradiava minha
demência. Uma camisa de força
me esmagava pela pulsante
dor da tua ausência. Sentia a
fria lâmina do esquecimento,
mas queria viver a realidade
desta morte; e esta escuridão
amena não poderá me trazer
a paz.

Será, meu Deus, que esta minha
loucura será perdoada? A arte
de viver me fascina, mas viver
sem você, disso não sou capaz.
Logo a negra dama mostrará
para mim a sua face e o seu
riso macabro, dizendo: “Chegou
a tua hora, meu rapaz!”

Assim comecei a sentir o frio
deste imenso inverno, a loucura
suave deste suicídio moderno.
Quando a morte adentrou meu
corpo, ouvi um estrondo oco:
“Oh, meu Deus, que porra é
esta?” Era eu caindo da cama
e acordando deste sonho louco!

Alexandre Montalvan

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Todos somos Poetas

Todos somos poetas
e também doutores da vida,
dos amores e das dores;
a poesia nasce na alma combalida.

Quer seja na dor ou na tristeza,
mas também na alma energética, quando se
enche de felicidade e amores. Há poetas do mal,
que marcam em sua arma suas presas.

Mas também há os do bem,
que o fazem sem olhar a quem.

De qualquer maneira, quero que tudo se exploda:
sou poeta e pronto, mesmo sendo uma zerda.

Pois é melhor ser uma zerda que uma merda;
afinal, merda fede.

A menos que também existam
poetas que fedem.

Aí eu até posso ser um
poeta fedido.

Afinal, fedido ou não, serei poeta,
mesmo não sendo o seu poeta preferido. 

Alexandre Montalvan

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Comigo

O mundo flutua ao meu redor
como bolha de sabão translúcida;
nela presa, vejo uma gota de suor
que escorre pela minha face,
ali contida.

E desta sensação surge meu horror,
uma fome de destruição voraz,
e buscar a feliz essência da dor
na estrada que nunca você andarás.

E quando ouvidos falam e a boca escuta,
é a incontinência das bolas trocadas;
quando a vida somente atrai cagadas,
você se torna um grande filho da puta.

Mas nada deste mundo me imputa;
corro a esmo em um belo prado florido.
Por isso mesmo todos me chamam de biruta,
mas no mundo eu só me fodo mesmo: é comigo.

Alexandre Montalvan

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Unicamente

Da janela eu vi a vida
que passava pela rua,
vicejava ao caminhar
e
pululavam risos, frutos, amores,
pululavam as flores,
pululavam crianças a brincar.

Da janela eu vi a vida
que passava sorrateira;
formigavam conflitos
e
discórdias e guerras,
formigavam gritos aflitos,
bravuras, brados lançados
no infinito.

Da janela eu vi a vida:
a magia do conhecimento,
artes, entretenimento, lazer;
e
fervilhava a sabedoria,
fervilhavam artes cênicas,
músicas e poesia,
fervilhava amor pelo saber.

Da janela eu vi a morte.
Eu tive um mau pressentimento,
eu tive medo,
mas docemente ela me disse:

“Não se importe,
morto você está faz tempo.”

Alexandre

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Soneto: Meu Deus

Só há um Deus sobre a terra,
mas eu o busco no sagrado;
e, onde menos alguém espera,
eu o encontro desfigurado.

Pela palavra vã de poucos,
cada qual a consagrar-se porta-voz;
mas seus corações são ocos,
pois Deus habita dentro de nós.

Meu Deus! Minha alma divido contigo,
e peço: protege-me do perigo
de pecar por disso esquecer.

Meu Deus! Quero estar ao teu lado
e fugir da ignorância e do pecado
de tê-lo em meu coração e não perceber.

Alexandre Montalvan

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Tua voz

O som da tua voz
foi o meu primeiro amor;
os ecos do teu sorriso,
me fizeram sorrir,
o calor do teu peito,
me fizeram ressonar
sempre a cada dia

O som da tua voz
indicou-me o caminho;
os ecos do teu sorriso
fezeram-me suportar os percalços.

Hoje

Sem o som da tua voz, o calor do teu peito,
os ecos do teu riso...

a dor...
é tanta a saudade de você,
a cada hora,
cada dia,
enquanto eu viver.

 

Alexandre

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Feliz por Inteiro?

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Feliz por Inteiro

Eu busquei a poesia nas mortes em Gaza:
homens, mulheres, crianças em covas rasas.
Que Deus é este que mata e tudo arrasa?
É pomba branca que morre sem suas asas?

A poesia diz que a verdade se cristaliza
entre os escombros desta terra arrasada;
não exclui o homem e suas destemperanças,
prevalece a distância da palavra e da coisa.

E também pode estar escondida no silêncio,
nos sofrimentos e lamentos dos aflitos;
a melancolia é um atributo do mundo,
e a poesia nada tem a ver com o que eu penso.

Mas ela trafega entre o prático e o devaneio,
trazendo uma enorme consternação pela terra;
e é aqui que toda a existência se encerra:
pois eu nunca serei feliz por inteiro.

Alexandre Montalvan

 

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Um Dueto Contigo

Não te percas neste deserto,
onde a terra seca torra;
nem abutres passam perto,
nem a morte se demora.

Não te deixes chafurdar no profundo
deste pântano fétido, medonho,
morada de almas impuras deste mundo,
de pesadelos, e não de sonhos.

Vem e sobe nas costas do vento,
segue nos braços das noites aladas;
vem comigo aos extremos do pensamento,
para seres, no mundo, infinitamente amada.

Deixa-me oferecer-te uma rosa;
quero contigo criar músicas e versos.
Neste dueto, tu serás a mais formosa
e a mais brilhante estrela do universo.

Alexandre Montalvan

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Amor e Paixão

A noite me chega como se fosse dia,
iluminada pelo dom das cores;
traz um som como há muito não trazia
e o aroma indescritível de flores.

Desperta em mim uma percepção crescente,
na irrupção de um absurdo transcendente;
e, na irracionalidade do mundo,
fecho os olhos para não ir mais fundo.

Mas não me entrego a esta visão fetichista,
dessa parte diminuta que reflete o todo.
O amor por ti é abstrato e também uma pista
de que o todo, além do ar, tem terra, água e fogo.

Caminho no mundo com você em meu peito,
num pulsar de frequência constante;
alma e corpo que juntos buscam um jeito:
amor e paixão, num ser só, um só corpo.

Alexandre Montalvan

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Pedaços

Neste pedaço de sonhos,
eu crio demônios;
crio amor e tristeza e, na rocha,
eu crio aspereza.
Também crio céus e estrelas;
no coração, a incerteza.
Eu crio a morte e a vida,
multiplico as histórias, o adeus, as partidas.

Eu sou como um monstro medonho:
eu crio, eu me exponho.
Eu mostro os meus intestinos,
tomados por fezes;
o sangue que corre nas veias,
o pão que m'alma anseia.
Eu mostro minhas faces na cara,
eu mostro minhas taras.
E, como não sei quem eu sou,
eu sou filho do amor
ou talvez deste medo;
e todo meu receio
é não saber quem sou.

Alexandre Montalvan

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Ó Rara Beleza!

Ó rara beleza que o mundo encerra,
De corpos e almas que juntas se unem,
Nas veias do tempo, correndo a terra,
Embaladas por amores que os perfumem.

Os olhos que fitam a luz do dia,
Brilhando em um misto de cores,
São janelas de uma vida pequena e vazia,
Que procuram, em vão, a paz e amores.

As vozes que clamam no ar silente
São ecos das dores que a vida encobre;
E os corações que sofrem, tão presentes,
São marcas do amor, um sentir tão nobre.

Assim caminhamos nesta vida tão pequena,
Buscando um sentido que nos dê alegria;
E, no fim, quando a noite se fizer plena,
Seremos só lembranças do que fomos um dia.

Alexandre Montalvan

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Cálice de Vinho — Venha Tomar

Eu teci o meu silêncio em minha boca,
não por medo, mas pela compreensão do abstrato;
a interioridade dos meus pensamentos advoga
ao que caminha pela avenida com todo o tato.

Há muita coisa que meu verso indaga,
mas há um silêncio que deve haver num sepulcro;
e quando ele — silêncio — se transforma em vulto,
pode-se ouvir o sibilar de uma adaga.

Não era a ovelha que caminhava pelas estepes sozinha;
trazia em meu cerne a violência da ausência,
pois o vazio era tudo o que eu tinha
e, para todos os meus pecados, não havia penitência.

Hoje continuo a caminhar sozinho
e trago em meu peito a cruz e a espada;
e, mesmo que esta espada não sirva para nada,
o silêncio da minha boca impera —
pelo menos enquanto tomo um cálice de vinho.

Alexandre Montalvan

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Ciúmes

Por não entender a vida, eu vivo nas trevas;
você é a luz que paira sobre meu negrume,
provocando as sombras de um sonho em vão,
inebriando-me com o teu vil perfume.
Eu me exaspero neste louco ciúme
que vai aumentando minha escuridão.

Eu sou um pântano caudaloso e triste,
e, nestas trevas, toda esta dor;
sou o agudo grito que jamais ouviste.
Eu já nem sei mais quem agora eu sou:
talvez o vento frio que este inverno encena
ou um artifício em minha pequenez;
talvez a fome insaciável e plena...
Eu sou só, agora, um talvez.

Qual é a verdade que nós dois não vemos?
Qual folha que no outono primeiro cai?
Qual amor pode curar a dor dos enfermos?
Por que este ciúme do meu peito não sai?

Minha insignificância humana desespera
por estar sozinho nesta madrugada fria;
toda a dor do mundo em mim se prolifera,
já não me enaltece no raiar do dia,
neste amanhecer de triste agonia,
em que em vão pereço em minha estupidez.

Alexandre Montalvan

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Entre as sombras e a escuridão

Não há braços que me confortem,
não há som no lamento de uma flor;
mas há os que me abraçam até a morte,
na dor de uma existência sem amor,
e a alma, na eterna argúcia da desordem.

Nela me apego antes que me tomem,
e chego, através das sombras,
à borda da escuridão.
Pois homens são lobos do próprio homem;
eles enxergam onde não há luz,
com olhos virados para dentro da sua solidão.

Palavras errantes entre meus dramas e as comédias,
vestidas de sombras, com luminâncias falsas;
sorvemos escuridão, vivemos na tragédia.
Afundaram a nossa balsa,
roubaram as nossas calças
e também soltaram as nossas rédeas,
entre as sombras e a escuridão.

Alexandre Montalvan

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Que se Faça a Luz

A noite nos traz a consciência e um vazio,
e também a indeterminação de uma realidade;
a existência vaga, solitária, num abismo frio,
e o amor embrutece em cada esquina da cidade.

A alienação emocional que este mundo produziu
ferve nos olhares empobrecidos, em cada cavidade,
expondo o declínio dos seres, de fio a pavio,
num palco que explode e colapsa nossa identidade.

O tempo destruiu nossa ingenuidade juvenil;
ele feriu os peitos da nossa castidade.
Desesperador, este passado que me fugiu,
trazendo a trágica existência desta verdade.

Voamos sobre águas putrefatas, que causam arrepios,
nossos corpos retorcidos por tantas e tantas eras;
pois a mesma força que nos trouxe à luz
nos enviou para as profundezas das nossas trevas.

Alexandre Montalvan

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Uma Onda

Não há natureza que se esconda
atrás da porta, e nem isto é realidade.
Qual é o sentido desta onda,
deste odor apodrecido da cidade?

Onde encontrar as flores de verdade,
margaridas, inocências vivas da vida turva,
que neste cenário apenas azuleciam,
fazendo desta reta uma sinuosa curva?

E no escarro é que escavam poesias alvas,
conjunturas figuradas de um céu avernoso,
que até a acácia encarnada não se salva
deste distinto e enlutado tronco misterioso.

Toda a emoção que aflora é momentânea,
não por um querer ou por um gosto,
pois, tal e qual quando um rei é deposto,
a impossibilidade de mudança é instantânea.

Nada mais existe para sonhar;
as cerejeiras não florescem ao luar.
A natureza está carente de beleza:
o azul profundo de um mar efervescente
em um espaço que perdeu seu pesar.

Mas as flores se assemelham a cogumelos fumegantes.

Traga até mim o teu recado,
adocicado, mitigado de amante.
É o som de um suave violino?
É a rosa se abrindo ou é miragem?
Uma rosa selvagem,
um despertar feminino.

Alexandre Montalvan

 

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Almas Imortais

Segue sem rumo,
indecisa barca,
segue à deriva nas vagas,
na travessia incerta
de mares de sal e pedra.

Carrega sonhos contigo
ou qualquer coisa
que tenha cheiro,
que tenha cor,
qualquer coisa que viva e venha
de onde for.

Carrega poesia singela,
flor secreta do desejo,
carrega o aroma esfumaçante
nascido de perfumadas velas.

Segue ao sabor dos ventos,
indecisa barca,
não aprisiones
pensamentos,
nem a dor, nem a emoção.

Não impeças o amor,
pois, assim como o vento,
eles vêm e vão.

Segue por mares astrais,
indecisa barca,
carrega contigo os amigos queridos,
serve de abrigo
às almas imortais.

Leva meu corpo contigo,
meus medos,
meus gritos,
leva meu gozo infinito
para longe, distante,
pois eu não voltarei jamais.

Alexandre Montalvan

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Mundo Frágil

Frágil é meu mundo,
redoma brilhante intransponível,
a ruir por um expressar profundo,
frágil, embora possível.

No azul acinzentado da redoma vazia,
meu corpo imolado no fogo,
exprimo um gemido rouco:
frágil é meu mundo neste jogo.

Enlanguesço vertiginosamente na sua presença,
no medo convincente do teu abandono,
no peso absurdo deste meu final de outono;
parece que, ao fechar meus olhos, faz a diferença.

Ausente é meu mundo impossível;
ao dormir, cubro a cabeça com medo do escuro.
Viver este medo é mais que horrível:
dou um mergulho precário de cima do muro.

Caminhar a par de uma poesia,
apoiando o lápis em uma folha de papel,
escandindo as palavras de uma mortalha fria,
pois, ora morto, quero ir para o céu.

Alexandre Montalvan

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CPP