Posts de Alexandre Montalvan (755)

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Renascer das Cinzas

Ouço a minha voz como se não fosse eu,
pois estranho o som me parece;
a dor que me aflige e que do silêncio nasceu,
nas pausas entre as frases,
é tanta que me entristece.

Vejo um rosto no espelho que não pode ser meu,
com linhas e traços tão alvos,
um rosto em que há muito a vida desapareceu,
indício de sonhos perdidos,
tal e qual náufragos que não puderam ser salvos.

Sinto em meus dias que meu tempo há muito se perdeu
em um mundo de frases vazias;
resta apenas criar confluências de ser,
renascer e viver
neste mundo novo de devaneios e poesias.

Alexandre Montalvan

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Soneto do Hímen

 

O meu eu lírico é um eu profano
farta-se em me fazer chorar,
faz crer que eu é que engano,
que minha face não seja um mar.

Faz do sexo bacanal mundano,
coisa que a mim só trouxe azar;
embora o sexo seja coisa que amo,
o que ele diz não ouso falar.

O eu lírico é expressão sublime,
isto é um incontestável fato,
mas ser profano não é nenhum crime.

As frases profanas o recatado suprime,
são frases para ele sem nenhum tato,
a dizer que não existe mais nenhum hímen.

Alexandre Montalvan

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Manto Tupinambá – Soneto –

Era um jaguar na sua mata
que mata e vinga o seu povo,
devora o inimigo como um ovo
na certeza da dose exata.

Sua grande e fortificada aldeia
abraça este povo guerreiro,
espalhando o medo como uma teia
ao resto do mundo inteiro.

Os ventos ainda sopram forte,
e o jaguar ainda preza a dignidade,
deslizando suave nas flores do manacá.

E mesmo na nossa fria modernidade,
seu vermelho manto tupinambá é
símbolo da sua memória e identidade.

Alexandre

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Deserotização da Vida

Afaga o tom da minha fala
não tenho mais nada a perder
não tenho mais vida
apenas palavras perdidas
que se esvanecem na memória
afaga o tom da minha fala.

Quanta fome nesta negra escuridão
tão estranhamente até o vento cala
influência confusa do brilho da opala
e a imensa e dolorida dor da solidão.

A lua, tão pálida e triste, se esconde
nas esquinas, avenidas e bares,
grito louco e rouco: ouve, não responde,
eu procuro paz em todos os lugares.

Tantas são as táteis trevas tensas
todas tentam tolher os meus sentidos
tétricas, de doer até os tímpanos dos ouvidos
templos tolos que são meus pensamentos.

E nas palavras toscas, distorcidas,
trêmulas, febris, táteis e comovidas,
apenas no último instante
existe um último sopro de uma tola vida.

Alexandre Montalvan

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O vinho em uma taça

Meu poema não é meu
meu poema não tem dono
porém também não é teu
pois ele traz em seu cerne
o desconsolo.

Meu poema é lixo
não foi feito para meu agrado
são detritos de uma alma desolada
e não emergiu de um capricho
como o sonho de um verão ensolarado.

Meu poema não é meu
porém ele é tudo,
pois o nada não existe;
se existisse, meu poema seria
um nada sem uso.

E mesmo o meu poema,
não sendo meu, nada impede
que eu o faça.
Pois, assim como o vinho em uma taça
que desce por uma garganta vazia,
bêbado ou sóbrio, eu fiz esta
poesia.

Alexandre

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Suas Memórias

Por anos esperou
por um futuro melhor
e muito lutou por isso.

Acontece que não entendia por que
esse futuro, cada vez mais,
se tornava distante
e fugia dele
como algo inalcançável.

Talvez eu devesse olhá-lo
no passado,
como se fosse um pano
que nunca secaria
suas lágrimas
nem seus suores.

Levava em sua ânfora,
de desenhos imaginários e antigos,
apenas cacos de vidro,
e não, como comumente,
o que serve
para conter líquidos.

É assim pelo mundo afora:
com sua sede insaciável
de ser
e não perceber
o quanto são lindas
as suas memórias.

Alexandre Montalvan

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A Face do Mal - soneto-

O que há por onde eu ando?
Malícias que me pegam entre as pernas?
Se for eu, chuto-as aos bandos,
empurrando-as para a escura caverna.

Coisas são como são! Nunca esqueça:
meu instinto não foge à regra.
Cobra morre ao ter esmagada a cabeça
quando a indiferença não a desintegra.

Meu coração é uma ternura morta,
m’alma, pela vicissitude, nada comporta;
por isso fecho os olhos para o mundo.

Se é certo ou errado, isso não me importa:
aquilo que não se quebra se entorta,
e a face do mal aparece a cada segundo.

Alexandre Montalvan

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Abandono

Oh, marulhar deste mar de tantos sonhos,
ninguém pode sentir aquilo que tu sentes,
a dor dos longos caminhos do abandono
e deste grande amor que ainda se faz presente.

Oh, este amor tão transitivo e tão raro,
foi ave de um verão curto e passageiro;
não se entregou a ti por inteiro
e, no outono, partiu — deixando-te no desespero.

Oh, quão frio e aterrador é este sombrio inverno,
este amor moderno que, para ti, é eterno;
tua pobre alma se arrasta na loucura
e na insensatez de amar em plena desventura.

É chegada à hora de dividir o indivisível,
de reinventar este triste coração partido
por este amor perdido — cinza, mas que já foi chama —,
que desfigurou tua alma nesta emoção.

Do abandono que sobre ti a dor se derrama,
restos de um amor que foi apenas ilusão:
o risco que se corre quando se ama,
quando se entrega, para sempre, o coração.

Alexandre Montalvan

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Como um Todo - soneto -

A vida foi — e sempre será — um engodo,
mas também o mais lindo arquipélago.
Nela me lanço, nela vago,
e deixo que me leve, pouco a pouco.

Ela é, para mim, o meu soldo,
e até no sofrimento me satisfaço.
Quando me dói a carne,
faço da dor o meu jogo.

Quero mais — quero viver a vida,
mesmo flutuando sobre um tronco,
contanto que o mar me seja gentil.

Mas isso não me tira o sono:
viver, para mim, é um ofício
que me permeia como um todo.

Alexandre Montalvan

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Universo

Neste lindo e misterioso universo,
na vastidão que é… imensa e infinda,
maravilhosos são todos os versos
feitos sob a luz desta lua… tão linda.

Galáxias, nebulosas e cometas
e também berçários de estrelas;
é preciso o Hubble para vê-las:
nascem como se fossem bebês,
tudo feito pra mim e pra você.

Quasares que pulsam eternamente,
astros, buracos negros, escuridão;
o sol — seu nascente e seu poente —,
Deus dos céus até a bolha de sabão.

Ela sobe, a se perder no infinito;
de tão frágil, logo vai explodir.
O universo é misterioso e bonito,
mas um dia eu terei que daqui partir.

Alexandre Montalvan

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Sem um Único Orgasmo

A vida passa na velocidade do vento,
quando menos eu olho, menos eu espero.
Contorno tudo quase sem olhar —
talvez um dia a tristeza me espante,
talvez seja tarde para voltar.

Os dias são ocos e sem vida,
um trem sem passageiros, sem volta, sem ida;
uma alma crua, sem feridas,
que vai por aí sem nada a importar,
como se nada houvesse a avaliar.

Escrevo poesias como uma saída,
saída de um “H” miserável,
para viver vidas que nunca serão vividas,
para poder morrer mil vezes,
sem uma única partida.

Perco-me — e também a cadência do meu andar;
balanço como folhas ao vento.
É o mesmo vento que corta ondas,
que me faz tremular.

A morte segue inane e sem rota,
e eu vou com ela,
pois ante a um último espasmo,
uma faca que penetra e corta.

Sou o último grito,
sem um único orgasmo.

Alexandre Montalvan

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Um Céu Repleto de Luzes

Diz-me, louco — o que no mundo procuras?
É o riso estampado nas redes sociais,
a alegria que flui nas caras sadias
ou a dor que se ausenta… é só dicotomia?

Logo, sorria: toda dor se mascara na face,
pois tudo é somente uma loucura “saudável”.
A arte da alegria transcende este impasse,
e o depois é apenas o choro do miserável.

Ei, você!
aí, sorrindo com cara de paisagem,
não queira ultrapassar um raio de luz —
nós estamos aqui só de passagem,
e a paisagem é a natureza que produz.

Ei, você!
quando tudo é somente fantasia,
toda essa loucura é devassa alegoria;
e nessa fantasia a realidade se perdeu —
acho que você está certo: o louco sou eu.

Agora brilha a luz em teus olhos,
vinda de buracos escuros no céu.
Você agora é um alvo fácil
para as presas venenosas da cascavel.

Agora há somente um riso distante
e eternas gotas de um segredo
neste céu que agora é brilhante,
que você toca com a ponta do dedo.

Alexandre Montalvan

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Olhos Luminosos

Há olhos luminosos nas ventanas do mundo,
abrem como rosas cândidas neste imenso jardim.
No chão de pedra, brindamos seu laço profundo,
com os brancos dos olhos postos sobre mim.

Diga-me: de qual lado disso eu fico sozinho,
nesta ponte de duas metades iguais?
Onde está o medo que me cerca — meu espinho —
ou o sorriso que, ao tocar-me, me desfaz?

Dentro deste absurdo mundano eu me encontro,
nesta ausência que consome m'humanidade.
Eu me desintegro e me reintegro, ponto a ponto,
entre sombras — nesta suja rua da cidade.

Certo de encontrar uma razão para viver,
traço em teus olhos o meu apoio.
Mas o oceano se fez arroio
quando caiu a máscara do meu eu em você.

Hoje estou assim — um oco caixão —
onde só me resta o corpo e não o espirito.
Nada importa.
Houve um calafrio, um grito —
como se você nunca tivesse tocado minha mão.

Aspiro a solidão nesta noite escura,
que dura a eternidade de um amor.
O sofisma deste sentimento é a minha ruína:
Deus — para que serve uma alma pura
se não a tenho comigo — e isto só aumenta minha dor

Já não sou aquilo que um dia fui.
O tempo me desnudou, lento,
como um furioso entre-rios que deflui
sob as insensatas multicores do firmamento.

Alexandre Montalvan

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Estranha Morte

Entre as sombras de minha alma
guardo os mais ternos segredos,
e eu conto com os meus dedos
todos os meus amores desfeitos.

É tanta a minha carne estremecida,
sendo o meu corpo feito um coração;
todas as lágrimas, em sangue, fluem,
toda sintonia jaz nivelada pelo chão.

Eu fui expulso de dentro de mim,
gota a gota, em lágrimas traiçoeiras,
espalhadas em misterioso jardim,
lançado por minha alma sorrateira.

Como selvagem, na noite indecente, eu despi
o meu corpo na flor deste meu desencanto;
desespero-me e verto-me em prantos
na mais estranha morte que eu já vi.

Alexandre Montalvan

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Eternidade

Posso sentir a morte do fim do dia
O hálito fétido da sua boca aberta
A crescente invasão da agonia
A alma vazia na noite deserta

Tão certas as palavras que existiam
Apenas restavam rastros de melancolia
Deste dia que há tão pouco apenas nascia
E agora, pouco a pouco, a morte o levava
Ele morria

Não posso sepultar mais este dia
Quero me libertar destes grilhões
Fazer de um simples sonho realidade
De um simples ato de vontade, eternidade
E ver nascer, com alegria, um dia que nunca morreria
De verdade

Ter o olhar refletido no nada
Tão frio como o aço da espada
Encontrar o altivo senhor do universo
Que, mesmo distante, está perto
Do meu coração

Alexandre Montalvan

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A Senhora Dona Vírgula (soneto)

Este é o símbolo que pede o silêncio,
fato este que não apenas nomeia,
mas permeia a densidade do sentir
e traz à razão um sentimento suspenso.

Hoje é só um ruído fugaz,
traz ao tempo a sua ausência;
nesta ânsia de se perpetuar, ele faz
brotar na alma tão triste sentença.

Talvez seja apenas para sentir:
o ato, em si, é de pouca valia,
mas muitas outras valias hão de vir.

Claro que não apenas na poesia,
mas não quero chutar a bola no contrapé,
pois isso seria apenas uma heresia.

Alexandre Montalvan

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Frases

Frases vazias… dizes, enquanto penso.
A cama branca, tão limpa, tão fria.
Penso em me esconder. Ou extinguir este mal
que tanta dor traz, inconsequente aversão.

Em meu coração, que se aflige e quase some,
eu, perdido, vivendo ainda um passado.
Grande escuridão de indecifrável nome,
sem perceber que tudo está deteriorado.

Pouco a pouco acabaram todos os sorrisos,
uma rosa que murcha lentamente em um vaso.
E o amanhã foi ficando cada dia mais doído,
como um sol que vai morrendo em seu ocaso.

Frases vazias dizes, enquanto eu penso
que, tão lentamente, foi morrendo a alegria,
em um dissolver de amor imenso,
diluído nesta triste poesia.

Alexandre

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Psicopata da Paixão

A paixão avassaladora mata,
feita de prazer, sangue e dor;
é brilho de ouro, mas é só prata,
ou dor de amor — nem melhor, nem pior.

Viciante incivilidade ingrata,
entrega à vida um universo de cor;
a mão do homem passa a ser uma pata,
e as suas ações, as do pior roedor.

É um rato em imagem caricata,
que sempre se rebaixa, aqui, ali, aonde for;
certo de que aquilo que não engorda, mata,
suscita no prazer uma fonte de dor.

E faz essa escolha insensata:
entre a dor e o prazer, escolheu o prazer,
bancando um psicopata —
gozou até morrer.

Alexandre

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Entre Corpos

Quando dois corpos se encontram,
num roçar de ondas eloquentes,
em oceano de toques ardentes,
elevam-se vertiginosamente.

É o arrepiar de um tesão infinito,
de toques suaves e ternos;
até os astros ressoam irrestritos
neste sentido de prazer eterno.

O frescor da romã partida nos dentes,
nos lábios rosados da água nascente;
o sumo doce e morno do baixo-ventre
ilumina os sentidos, simplesmente.

Tanto é o fogo que irrompe nos olhos,
pois, ao buscar o prazer furtivo
no ronronar de murmúrios dúbios,
a alma se liberta, e o corpo é pra sempre cativo.

Alexandre Montalvan




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Cancioneiro

Mas o tempo passa chorando
Pela dor neste cancioneiro,
Quando cessa todo o canto,
Alagando o mundo inteiro.

Ai de mim neste recanto,
Ao não ver teu brando encanto.
Sal do mar, do mar que eu crio,
Que são apenas águas de um rio.

Nos interstícios que tu eras,
Mas que agora não és mais,
Aguaceiros de longas esperas,
Quando tu eras teus iguais.

A alma de um branco franco,
Quais areias de uma praia vasta.
Quando andas sobre teus prantos,
E estas mesmas areias tu arrastas.

Cancioneiro de um vazio inteiro,
Livros nas areias enterrados.
Inspira a dor que é um desvario,
Como as secas margens de um rio.

E este amor, que sequer sentiu,
Que motivou esta terrível dor,
É o mesmo coração que se partiu
Ao perder este imenso amor.

Alexandre Montalvan

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CPP