Há olhos luminosos nas ventanas do mundo,
abrem como rosas cândidas neste imenso jardim.
No chão de pedra, brindamos seu laço profundo,
com os brancos dos olhos postos sobre mim.
Diga-me: de qual lado disso eu fico sozinho,
nesta ponte de duas metades iguais?
Onde está o medo que me cerca — meu espinho —
ou o sorriso que, ao tocar-me, me desfaz?
Dentro deste absurdo mundano eu me encontro,
nesta ausência que consome m'humanidade.
Eu me desintegro e me reintegro, ponto a ponto,
entre sombras — nesta suja rua da cidade.
Certo de encontrar uma razão para viver,
traço em teus olhos o meu apoio.
Mas o oceano se fez arroio
quando caiu a máscara do meu eu em você.
Hoje estou assim — um oco caixão —
onde só me resta o corpo e não o espirito.
Nada importa.
Houve um calafrio, um grito —
como se você nunca tivesse tocado minha mão.
Aspiro a solidão nesta noite escura,
que dura a eternidade de um amor.
O sofisma deste sentimento é a minha ruína:
Deus — para que serve uma alma pura
se não a tenho comigo — e isto só aumenta minha dor
Já não sou aquilo que um dia fui.
O tempo me desnudou, lento,
como um furioso entre-rios que deflui
sob as insensatas multicores do firmamento.
Alexandre Montalvan