Um grito,
num mar de funesto silêncio,
brota torvo nas tuas palavras,
entrecortado com ruído mundano;
flutuam e contornam este mar imenso.
Uma dor num dolorido coração humano,
que já não tem o amor de outrora;
tomam todas as tuas palavras,
absorvidas no silêncio,
e as jogam fora.
Porém, cale-se primeiro,
para que possa ouvir.
Assim é no mundo inteiro:
ensinam-te a viver,
ensinam-te a sorrir
e a desprender-te
deste fardo ligeiro
que se prende a ti.
Assim como nas ruas desertas,
eu me deixo, calado, permanecer
na exata percepção do nada,
na total inexistência de você.
A ti, a minha mão foi estendida,
na certeza de um sentimento fugaz;
sem reciprocidade válida,
a paixão não correspondida
nada fará a crisálida
voar.
Sinta-se agora tão só e triste,
porque o portão está fechado;
sem poder entrar, a solidão persiste,
espremida neste espaço escuro.
São cristais de sal neste dilúvio
a inundar o teu futuro.
Agora há apenas sangue e dor,
obra de um ator manipulador e perverso;
é um grito absurdo de horror,
no final mais escuro do universo.
Alexandre Montalvan