Posts de Alexandre Montalvan (798)

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Unicamente

Da janela eu vi a vida
que passava pela rua,
vicejava ao caminhar
e
pululavam risos, frutos, amores,
pululavam as flores,
pululavam crianças a brincar.

Da janela eu vi a vida
que passava sorrateira;
formigavam conflitos
e
discórdias e guerras,
formigavam gritos aflitos,
bravuras, brados lançados
no infinito.

Da janela eu vi a vida:
a magia do conhecimento,
artes, entretenimento, lazer;
e
fervilhava a sabedoria,
fervilhavam artes cênicas,
músicas e poesia,
fervilhava amor pelo saber.

Da janela eu vi a morte.
Eu tive um mau pressentimento,
eu tive medo,
mas docemente ela me disse:

“Não se importe,
morto você está faz tempo.”

Alexandre

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Soneto: Meu Deus

Só há um Deus sobre a terra,
mas eu o busco no sagrado;
e, onde menos alguém espera,
eu o encontro desfigurado.

Pela palavra vã de poucos,
cada qual a consagrar-se porta-voz;
mas seus corações são ocos,
pois Deus habita dentro de nós.

Meu Deus! Minha alma divido contigo,
e peço: protege-me do perigo
de pecar por disso esquecer.

Meu Deus! Quero estar ao teu lado
e fugir da ignorância e do pecado
de tê-lo em meu coração e não perceber.

Alexandre Montalvan

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Tua voz

O som da tua voz
foi o meu primeiro amor;
os ecos do teu sorriso,
me fizeram sorrir,
o calor do teu peito,
me fizeram ressonar
sempre a cada dia

O som da tua voz
indicou-me o caminho;
os ecos do teu sorriso
fezeram-me suportar os percalços.

Hoje

Sem o som da tua voz, o calor do teu peito,
os ecos do teu riso...

a dor...
é tanta a saudade de você,
a cada hora,
cada dia,
enquanto eu viver.

 

Alexandre

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Feliz por Inteiro?

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Feliz por Inteiro

Eu busquei a poesia nas mortes em Gaza:
homens, mulheres, crianças em covas rasas.
Que Deus é este que mata e tudo arrasa?
É pomba branca que morre sem suas asas?

A poesia diz que a verdade se cristaliza
entre os escombros desta terra arrasada;
não exclui o homem e suas destemperanças,
prevalece a distância da palavra e da coisa.

E também pode estar escondida no silêncio,
nos sofrimentos e lamentos dos aflitos;
a melancolia é um atributo do mundo,
e a poesia nada tem a ver com o que eu penso.

Mas ela trafega entre o prático e o devaneio,
trazendo uma enorme consternação pela terra;
e é aqui que toda a existência se encerra:
pois eu nunca serei feliz por inteiro.

Alexandre Montalvan

 

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Um Dueto Contigo

Não te percas neste deserto,
onde a terra seca torra;
nem abutres passam perto,
nem a morte se demora.

Não te deixes chafurdar no profundo
deste pântano fétido, medonho,
morada de almas impuras deste mundo,
de pesadelos, e não de sonhos.

Vem e sobe nas costas do vento,
segue nos braços das noites aladas;
vem comigo aos extremos do pensamento,
para seres, no mundo, infinitamente amada.

Deixa-me oferecer-te uma rosa;
quero contigo criar músicas e versos.
Neste dueto, tu serás a mais formosa
e a mais brilhante estrela do universo.

Alexandre Montalvan

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Amor e Paixão

A noite me chega como se fosse dia,
iluminada pelo dom das cores;
traz um som como há muito não trazia
e o aroma indescritível de flores.

Desperta em mim uma percepção crescente,
na irrupção de um absurdo transcendente;
e, na irracionalidade do mundo,
fecho os olhos para não ir mais fundo.

Mas não me entrego a esta visão fetichista,
dessa parte diminuta que reflete o todo.
O amor por ti é abstrato e também uma pista
de que o todo, além do ar, tem terra, água e fogo.

Caminho no mundo com você em meu peito,
num pulsar de frequência constante;
alma e corpo que juntos buscam um jeito:
amor e paixão, num ser só, um só corpo.

Alexandre Montalvan

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Pedaços

Neste pedaço de sonhos,
eu crio demônios;
crio amor e tristeza e, na rocha,
eu crio aspereza.
Também crio céus e estrelas;
no coração, a incerteza.
Eu crio a morte e a vida,
multiplico as histórias, o adeus, as partidas.

Eu sou como um monstro medonho:
eu crio, eu me exponho.
Eu mostro os meus intestinos,
tomados por fezes;
o sangue que corre nas veias,
o pão que m'alma anseia.
Eu mostro minhas faces na cara,
eu mostro minhas taras.
E, como não sei quem eu sou,
eu sou filho do amor
ou talvez deste medo;
e todo meu receio
é não saber quem sou.

Alexandre Montalvan

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Ó Rara Beleza!

Ó rara beleza que o mundo encerra,
De corpos e almas que juntas se unem,
Nas veias do tempo, correndo a terra,
Embaladas por amores que os perfumem.

Os olhos que fitam a luz do dia,
Brilhando em um misto de cores,
São janelas de uma vida pequena e vazia,
Que procuram, em vão, a paz e amores.

As vozes que clamam no ar silente
São ecos das dores que a vida encobre;
E os corações que sofrem, tão presentes,
São marcas do amor, um sentir tão nobre.

Assim caminhamos nesta vida tão pequena,
Buscando um sentido que nos dê alegria;
E, no fim, quando a noite se fizer plena,
Seremos só lembranças do que fomos um dia.

Alexandre Montalvan

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Cálice de Vinho — Venha Tomar

Eu teci o meu silêncio em minha boca,
não por medo, mas pela compreensão do abstrato;
a interioridade dos meus pensamentos advoga
ao que caminha pela avenida com todo o tato.

Há muita coisa que meu verso indaga,
mas há um silêncio que deve haver num sepulcro;
e quando ele — silêncio — se transforma em vulto,
pode-se ouvir o sibilar de uma adaga.

Não era a ovelha que caminhava pelas estepes sozinha;
trazia em meu cerne a violência da ausência,
pois o vazio era tudo o que eu tinha
e, para todos os meus pecados, não havia penitência.

Hoje continuo a caminhar sozinho
e trago em meu peito a cruz e a espada;
e, mesmo que esta espada não sirva para nada,
o silêncio da minha boca impera —
pelo menos enquanto tomo um cálice de vinho.

Alexandre Montalvan

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Ciúmes

Por não entender a vida, eu vivo nas trevas;
você é a luz que paira sobre meu negrume,
provocando as sombras de um sonho em vão,
inebriando-me com o teu vil perfume.
Eu me exaspero neste louco ciúme
que vai aumentando minha escuridão.

Eu sou um pântano caudaloso e triste,
e, nestas trevas, toda esta dor;
sou o agudo grito que jamais ouviste.
Eu já nem sei mais quem agora eu sou:
talvez o vento frio que este inverno encena
ou um artifício em minha pequenez;
talvez a fome insaciável e plena...
Eu sou só, agora, um talvez.

Qual é a verdade que nós dois não vemos?
Qual folha que no outono primeiro cai?
Qual amor pode curar a dor dos enfermos?
Por que este ciúme do meu peito não sai?

Minha insignificância humana desespera
por estar sozinho nesta madrugada fria;
toda a dor do mundo em mim se prolifera,
já não me enaltece no raiar do dia,
neste amanhecer de triste agonia,
em que em vão pereço em minha estupidez.

Alexandre Montalvan

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Entre as sombras e a escuridão

Não há braços que me confortem,
não há som no lamento de uma flor;
mas há os que me abraçam até a morte,
na dor de uma existência sem amor,
e a alma, na eterna argúcia da desordem.

Nela me apego antes que me tomem,
e chego, através das sombras,
à borda da escuridão.
Pois homens são lobos do próprio homem;
eles enxergam onde não há luz,
com olhos virados para dentro da sua solidão.

Palavras errantes entre meus dramas e as comédias,
vestidas de sombras, com luminâncias falsas;
sorvemos escuridão, vivemos na tragédia.
Afundaram a nossa balsa,
roubaram as nossas calças
e também soltaram as nossas rédeas,
entre as sombras e a escuridão.

Alexandre Montalvan

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Que se Faça a Luz

A noite nos traz a consciência e um vazio,
e também a indeterminação de uma realidade;
a existência vaga, solitária, num abismo frio,
e o amor embrutece em cada esquina da cidade.

A alienação emocional que este mundo produziu
ferve nos olhares empobrecidos, em cada cavidade,
expondo o declínio dos seres, de fio a pavio,
num palco que explode e colapsa nossa identidade.

O tempo destruiu nossa ingenuidade juvenil;
ele feriu os peitos da nossa castidade.
Desesperador, este passado que me fugiu,
trazendo a trágica existência desta verdade.

Voamos sobre águas putrefatas, que causam arrepios,
nossos corpos retorcidos por tantas e tantas eras;
pois a mesma força que nos trouxe à luz
nos enviou para as profundezas das nossas trevas.

Alexandre Montalvan

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Uma Onda

Não há natureza que se esconda
atrás da porta, e nem isto é realidade.
Qual é o sentido desta onda,
deste odor apodrecido da cidade?

Onde encontrar as flores de verdade,
margaridas, inocências vivas da vida turva,
que neste cenário apenas azuleciam,
fazendo desta reta uma sinuosa curva?

E no escarro é que escavam poesias alvas,
conjunturas figuradas de um céu avernoso,
que até a acácia encarnada não se salva
deste distinto e enlutado tronco misterioso.

Toda a emoção que aflora é momentânea,
não por um querer ou por um gosto,
pois, tal e qual quando um rei é deposto,
a impossibilidade de mudança é instantânea.

Nada mais existe para sonhar;
as cerejeiras não florescem ao luar.
A natureza está carente de beleza:
o azul profundo de um mar efervescente
em um espaço que perdeu seu pesar.

Mas as flores se assemelham a cogumelos fumegantes.

Traga até mim o teu recado,
adocicado, mitigado de amante.
É o som de um suave violino?
É a rosa se abrindo ou é miragem?
Uma rosa selvagem,
um despertar feminino.

Alexandre Montalvan

 

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Almas Imortais

Segue sem rumo,
indecisa barca,
segue à deriva nas vagas,
na travessia incerta
de mares de sal e pedra.

Carrega sonhos contigo
ou qualquer coisa
que tenha cheiro,
que tenha cor,
qualquer coisa que viva e venha
de onde for.

Carrega poesia singela,
flor secreta do desejo,
carrega o aroma esfumaçante
nascido de perfumadas velas.

Segue ao sabor dos ventos,
indecisa barca,
não aprisiones
pensamentos,
nem a dor, nem a emoção.

Não impeças o amor,
pois, assim como o vento,
eles vêm e vão.

Segue por mares astrais,
indecisa barca,
carrega contigo os amigos queridos,
serve de abrigo
às almas imortais.

Leva meu corpo contigo,
meus medos,
meus gritos,
leva meu gozo infinito
para longe, distante,
pois eu não voltarei jamais.

Alexandre Montalvan

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Mundo Frágil

Frágil é meu mundo,
redoma brilhante intransponível,
a ruir por um expressar profundo,
frágil, embora possível.

No azul acinzentado da redoma vazia,
meu corpo imolado no fogo,
exprimo um gemido rouco:
frágil é meu mundo neste jogo.

Enlanguesço vertiginosamente na sua presença,
no medo convincente do teu abandono,
no peso absurdo deste meu final de outono;
parece que, ao fechar meus olhos, faz a diferença.

Ausente é meu mundo impossível;
ao dormir, cubro a cabeça com medo do escuro.
Viver este medo é mais que horrível:
dou um mergulho precário de cima do muro.

Caminhar a par de uma poesia,
apoiando o lápis em uma folha de papel,
escandindo as palavras de uma mortalha fria,
pois, ora morto, quero ir para o céu.

Alexandre Montalvan

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Acordei Morto

Hoje cedo eu acordei morto
como há muito talvez já estaria
mesmo assim corri ao aeroporto
ansioso para encontrar Sofia

Sofia deve ter-se enrolado
e da minha morte não falou
talvez nem tudo esteja errado
talvez meu morrer não acabou

Se o meu morrer é tão distante
e se Sofia não pirou
Mas, se eu pirei neste instante
o meu morrer, que fim levou

Que fim levaram os meus cabelos
e o meu ar de Alain Delon
até nas orelhas eu tenho pelos
até esqueci o meu logon.

Alexandre Montalvan

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Reflexos

Nos reflexos dos meus olhos
eu só vejo você
na sinfonia absurda e barata, sigo,
sigo a esmo, mesmo sem entender

Nos trilhos do tempo
que passa — a vida é pura trapaça
eu sonho teus olhos nos meus
desejo teu corpo colado ao meu,
sendo pedra e também vidraça

Ouço um trem no silêncio da madrugada,
a minha alma cala e consente
as lágrimas molham o chão da sala
é o mal que a gente sente

É a solidão ordinária
porque agora, porque durante, porque sempre
vou na direção contrária
cão louco, raivoso, deixei de ser gente

Alexandre Montalvan

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Décimo Terceiro Andar

Nas bordas do sono
Acordei na noite
Em um sobressalto morno.
Como um soco ou um coice,
Como o despertar de um sonho,
Uma imagem me veio:
Meu amor foi embora
E eu estava sozinho por inteiro.

Nos dias de hoje, deslizes
Sem casa, sem teto,
Com as nuvens ao vento
E os meus sentimentos
Em incontornáveis crises.

Sentimentos perdidos
Na correnteza de um rio,
Sob um céu infinito
Neste mundo real finito... coalhado
De sonhos...
Mares de braços e pernas
Escuros e frios.

Anjo de asas douradas,
Você partiu
E levou partes de mim.

Foi um voo de andorinha,
Leve como a brisa noturna.
Você partiu, minha rainha,
E me trouxe o desalento.

Mas eu ainda posso ouvir
Meu coração batendo
Neste exato lugar,
Olhando a rua da varanda
Do meu prédio no décimo terceiro
andar.

Alexandre Montalvan

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Inocência Perdida

Eu renego a transcendência e abraço o eu;
arranco teus olhos, para que
não vejas minha dor.
Meu amor por mim nunca será teu,
pois a pureza deste amor só me faz
querer o que for.

Não sou inacessível: procuro um Deus;
esta falta me traz um puro temor.
Sou apenas a negação de todos os ateus,
sou somente o verbo transformado em dor.

Antes, perseguia coisas que o mundo esqueceu,
mas m’alma foi destruída
por um ser vingador.
Todos os meus dias ficaram
escuros como breu;
senti o ódio e nele transformei o amor.

Não serei grato a você, mas te devo um favor:
a sua inocência perdida nunca floresceu.
Todas as sutilezas estão ao seu dispor,
mas a verdade que esconde não morreu
e aparecerá um dia seja onde for.

Alexandre Montalvam

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Nem Tudo que se Quer!

Nem tudo que se quer é certo.
Noite não será dia, enquanto se dorme;
nem tampouco o amor comporta
algo que o deforme.

De todas as loucuras de um homem,
o amor é o desafio e a fome,
porque, no seu peito, ecoa
toda a sua inquietude
e, no coração,
a mágoa é um rio:
mais profundo que doce,
mais quente que frio.

Mas não se anda lado a lado
sob as nuvens densas e brancas,
e a poeira some
nas águas de uma cachoeira,
oriundas de um lago;
e, por isto, eu imploro
que o amor possa mais que existir.

Nas asas das aves raras,
pluriformes,
que voam sobre as tormentas,
o nada não se assenta
e faz um homem sonhar.

Logo, voa, gaivota,
em formas sensuais e altivas,
e rompe o elo das correntes
e a teia que a aranha
tece e envolve
a vida.

Enquanto a tua mão faz dissolver
a minha lucidez,
nestas palavras disformes mas vivas
o amor decorre em todo o seu revés,
na profundez desta distância.
Faz arrepiar todos os meus pelos,
mares de emoções em flagrante degelo,
apurado pela força da dissonância cognitiva.

Alexandre Montalvan

Saiba mais…
CPP