Posts de Alexandre Montalvan (809)

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Hoje (2)

Hoje há cor de sangue nas nuvens densas;
trago no sentir bem menos que tu pensas,
e eu caminho sem que eu veja incoerência.

É como estar amortecido pelo tempo,
e que todo o sofrimento estivesse ausente;
este céu de sangue me é indiferente.

Para nós, homens, não há mais o consistente
para deflexão ou parar o sistema,
na trama que é tão maior quanto envolvente.

No mundo em que se deve sempre ir em frente,
não parar, pois este vírus é só para os impuros,
porque o céu é a última fronteira, fatalmente.

Nada dura sobre as pedras ou sobre os muros,
onde o cheiro da pólvora nos oprime;
sem pensar, apenas rangem-se os dentes.

Quando todas as verdades são indecentes,
fecham-se os olhos para não ver o escuro;
por isto ando procurando algo que transcende.

Entre o branco e o azul existem muitas cores,
mas, na desolação, o que impera são as dores,
e fechamos os olhos para estes horrores.

É pena que o perfeito seja inexistente,
ou apenas é como vemos este assunto;
o conjunto não vale nada, infelizmente.

Quando todas as aves do mundo voarem,
tudo acabará e não restará nenhum arbusto;
mas, no céu, ressurgirá o azul e o branco.

Então estarei caminhando e procurando
no chão, sem saber o que eu busco.

Alexandre Montalvan

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Hoje

Hoje estamos cobertos de fumaça,
uma névoa densa e sem sentido;
é a farsa medonha dos pervertidos,
e não é a verdade que se disfarça.

Hoje apenas a mentira extravasa
em cada esquina, beco ou praça;
homens que decantam, sem coração,
sem a menor graça, a própria desgraça.

Hoje nem é o destempero que impera:
é a dor que vem antes do próprio grito.
Estamos em um vale de fatos aflitivos,
estamos cobertos de estrume e terra,
e a palavra é calada pelo não dito.

Hoje tudo no mundo é cor-de-rosa,
pintado com o sangue da embromação;
em cada cartaz, uma cara amassada,
voz embolada, sem verdade ou paixão.

E hoje só não se percebe a espera,
e até o verbo, que é ação, se desespera;
quase tudo é oco ou feito de vento,
e não se encontra sentido no nosso tempo.

Alexandre

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Guardião

Eu, guardião das sombras,
das que habitam dentro de mim,
internas,
tenebrosas catacumbas.

Guardando destroços,
excrementos de uma vida
que nela (vida) fixaram residência;
alma no crepúsculo, exigência.

Falência de tudo que um dia foi belo,
daquilo que era dois, não mais,
transformando o que era lindo castelo
num mar de favelas escuras e podres.

Podre como tudo que existe,
pois apenas nos cercam coisas tristes:
a deterioração da matéria,
espasmos de fome, violência e guerras.

Assombra um mundo-cão;
verme assassino, esmago com as mãos.
E ela, com uma navalha afiada, eu decepo,
pois jaz contaminada, então.

Por isso, meu nome é Guardião...

Alexandre Montalvan

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Sensações

O que, por ser considerado um sacrilégio,
é um tatear cego por falta de cerne?
E a escura matéria que de mim emerge
faz sentir teus olhos sobre mim:
um privilégio, não nego.

Ai de mim, quando tuas duas safiras flutuam,
criando um fogo que consome meu ser
na magia entre o querer e o não querer,
na moldura deste pedaço da lua
que imagino ser.

Olho-te no tempo como se não estivesse
na vastidão do meu sentido de existir,
de viver um amor desde o seu alicerce
e ver este amor na morte transgredir.

És as cores que refletem teu espírito
e, de repente, no teu ventre me aconchego;
se és doçura na vastidão deste infinito,
também és dor na solidão em que me vejo.

Saio do corpo como um espírito vagante;
daqui em diante, entro em um mundo de sonhos.
Restam a mim vestígios de um mundo mundano,
e meu ectoplasma tem um parecer medonho.

Ainda quero sentir tua mão aveludada,
que suavemente embala meu coração,
porque creio que ela fortalece
o éter da m’alma, que,
se não for pelo sim, será pelo não.

Alexandre Montalvan

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Coração de Pedra

Neste dia quente, um sol abrasador...
poesia insolente
leio-a
à beira-mar, no calor.

Gorjeia a gaivota,
lutando contra o vento;
a areia branca margeia a onda
desenhando-se lentamente.

Na solidão, um leve pensamento
a balizar a poesia.

Não tenhas medo do fim do dia,
nem da cantilena surda
na frente de casa.
É apenas um coração
de pedra fria esburacada
em um mundo velho,
de ideias ultrapassadas.

Tão estranho é este mundo,
se mal pode compreender
o tempo de um segundo.
Como entender a eternidade?
Como entender o amor verdadeiro,
se ele é feito, na verdade,
por inteiro:
da entrega...
da renúncia...
da bondade.

Não tenhas medo
da noite tão fria,
deste inverno
que insinua a madrugada.
É apenas a esperança
do coração da tua amada.

De uma lágrima que sai
dos olhos em fuga,
um olhar divino
de um rosto escaqueirado
e cheio de rugas.

Alexandre Montalvan

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Querida Dor

Querida dor que me consome,
fazes parte deste meu intento de viver.
Meu corpo se liquefaz em espuma,
e uma finitude cega não me deixa ver
que tu és a essência que me perfuma.

Amada dor que talha o meu destino,
rasga-me a carne na triste paisagem;
objeto precioso que faz meu tino
desfazer-se em um rio tormentoso
e sem margens.

Libidinosa e atroz, tu me extasias,
perversa e embriagante
na lascívia delicada dos teus braços.
Faz-me as chagas conhecer;
feres meu corpo com os dedos delicados da agonia.

Humano que sou: falho, tolo e desregrado,
caminho descalço neste rio de prazer,

para o único fim: morrer.

Alexandre Montalvan

 

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Auspiciosa

Hoje encontro a palavra auspiciosa,
que manifesta em mim o medo de enlouquecer;
assim como o cravo está para a rosa,
o adverso é aquilo que me faz florescer.

Este pavor faz meu corpo arrepiar;
ao manipular a mente, fico preso em mim.
É enlouquecedora a falta que me faz o ar,
é enlouquecedor imaginar o fim.

Conflitam percepção, imaginação e realidade;
a compreensão racional é exterminada.
Bem e mal se unem nesta imagem lapidada,
e o abstrato se torna concreto, na verdade.

Nada é tão auspicioso quanto o medo de perdê-la,
ela, que no passado foi uma estrela,
que brilhava em um céu azul interminável;
hoje peco ao pensar que um dia pude tê-la.

E loucamente eu fujo
do meu pecado, ao fazer da mágoa
um feio jogo.

Alexandre Montalvan
 



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"Quantum Mechanics"

Se o que vejo, o é porque vejo,
logo, se não vejo, não existe,
mesmo que este seja meu desejo,
porém eu não fico triste.

Porque o racionalismo impera
e eu só soube disto agora,
mas a consciência deve ser sincera:
ela não sabe se está dentro ou fora.

Tudo isto é muito confuso,
porque não consigo ver minha cara;
consequentemente, eu induzo:
esta doutrina não está clara.

Afinal, eu não vejo minha cara,
mas no espelho ela está lá;
claro que isto é atitude rara,
melhor eu procurar minha gata angorá.

Será que ela existe?

Alexandre Montalvan

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Suícidio Moderno

Rasguei os meus pulsos em um
momento de loucura; o sangue
quente que esguichava tinha
uma coloração escura. Exacerbada
era a pretensão de não viver mais;
sentir meu coração bater trazia
a sensação de algo que eu precisava
deixar para trás.

Um fogo, numa montanha
de palha seca, irradiava minha
demência. Uma camisa de força
me esmagava pela pulsante
dor da tua ausência. Sentia a
fria lâmina do esquecimento,
mas queria viver a realidade
desta morte; e esta escuridão
amena não poderá me trazer
a paz.

Será, meu Deus, que esta minha
loucura será perdoada? A arte
de viver me fascina, mas viver
sem você, disso não sou capaz.
Logo a negra dama mostrará
para mim a sua face e o seu
riso macabro, dizendo: “Chegou
a tua hora, meu rapaz!”

Assim comecei a sentir o frio
deste imenso inverno, a loucura
suave deste suicídio moderno.
Quando a morte adentrou meu
corpo, ouvi um estrondo oco:
“Oh, meu Deus, que porra é
esta?” Era eu caindo da cama
e acordando deste sonho louco!

Alexandre Montalvan

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Todos somos Poetas

Todos somos poetas
e também doutores da vida,
dos amores e das dores;
a poesia nasce na alma combalida.

Quer seja na dor ou na tristeza,
mas também na alma energética, quando se
enche de felicidade e amores. Há poetas do mal,
que marcam em sua arma suas presas.

Mas também há os do bem,
que o fazem sem olhar a quem.

De qualquer maneira, quero que tudo se exploda:
sou poeta e pronto, mesmo sendo uma zerda.

Pois é melhor ser uma zerda que uma merda;
afinal, merda fede.

A menos que também existam
poetas que fedem.

Aí eu até posso ser um
poeta fedido.

Afinal, fedido ou não, serei poeta,
mesmo não sendo o seu poeta preferido. 

Alexandre Montalvan

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Comigo

O mundo flutua ao meu redor
como bolha de sabão translúcida;
nela presa, vejo uma gota de suor
que escorre pela minha face,
ali contida.

E desta sensação surge meu horror,
uma fome de destruição voraz,
e buscar a feliz essência da dor
na estrada que nunca você andarás.

E quando ouvidos falam e a boca escuta,
é a incontinência das bolas trocadas;
quando a vida somente atrai cagadas,
você se torna um grande filho da puta.

Mas nada deste mundo me imputa;
corro a esmo em um belo prado florido.
Por isso mesmo todos me chamam de biruta,
mas no mundo eu só me fodo mesmo: é comigo.

Alexandre Montalvan

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Unicamente

Da janela eu vi a vida
que passava pela rua,
vicejava ao caminhar
e
pululavam risos, frutos, amores,
pululavam as flores,
pululavam crianças a brincar.

Da janela eu vi a vida
que passava sorrateira;
formigavam conflitos
e
discórdias e guerras,
formigavam gritos aflitos,
bravuras, brados lançados
no infinito.

Da janela eu vi a vida:
a magia do conhecimento,
artes, entretenimento, lazer;
e
fervilhava a sabedoria,
fervilhavam artes cênicas,
músicas e poesia,
fervilhava amor pelo saber.

Da janela eu vi a morte.
Eu tive um mau pressentimento,
eu tive medo,
mas docemente ela me disse:

“Não se importe,
morto você está faz tempo.”

Alexandre

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Soneto: Meu Deus

Só há um Deus sobre a terra,
mas eu o busco no sagrado;
e, onde menos alguém espera,
eu o encontro desfigurado.

Pela palavra vã de poucos,
cada qual a consagrar-se porta-voz;
mas seus corações são ocos,
pois Deus habita dentro de nós.

Meu Deus! Minha alma divido contigo,
e peço: protege-me do perigo
de pecar por disso esquecer.

Meu Deus! Quero estar ao teu lado
e fugir da ignorância e do pecado
de tê-lo em meu coração e não perceber.

Alexandre Montalvan

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Tua voz

O som da tua voz
foi o meu primeiro amor;
os ecos do teu sorriso,
me fizeram sorrir,
o calor do teu peito,
me fizeram ressonar
sempre a cada dia

O som da tua voz
indicou-me o caminho;
os ecos do teu sorriso
fezeram-me suportar os percalços.

Hoje

Sem o som da tua voz, o calor do teu peito,
os ecos do teu riso...

a dor...
é tanta a saudade de você,
a cada hora,
cada dia,
enquanto eu viver.

 

Alexandre

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Feliz por Inteiro?

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Feliz por Inteiro

Eu busquei a poesia nas mortes em Gaza:
homens, mulheres, crianças em covas rasas.
Que Deus é este que mata e tudo arrasa?
É pomba branca que morre sem suas asas?

A poesia diz que a verdade se cristaliza
entre os escombros desta terra arrasada;
não exclui o homem e suas destemperanças,
prevalece a distância da palavra e da coisa.

E também pode estar escondida no silêncio,
nos sofrimentos e lamentos dos aflitos;
a melancolia é um atributo do mundo,
e a poesia nada tem a ver com o que eu penso.

Mas ela trafega entre o prático e o devaneio,
trazendo uma enorme consternação pela terra;
e é aqui que toda a existência se encerra:
pois eu nunca serei feliz por inteiro.

Alexandre Montalvan

 

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Um Dueto Contigo

Não te percas neste deserto,
onde a terra seca torra;
nem abutres passam perto,
nem a morte se demora.

Não te deixes chafurdar no profundo
deste pântano fétido, medonho,
morada de almas impuras deste mundo,
de pesadelos, e não de sonhos.

Vem e sobe nas costas do vento,
segue nos braços das noites aladas;
vem comigo aos extremos do pensamento,
para seres, no mundo, infinitamente amada.

Deixa-me oferecer-te uma rosa;
quero contigo criar músicas e versos.
Neste dueto, tu serás a mais formosa
e a mais brilhante estrela do universo.

Alexandre Montalvan

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Amor e Paixão

A noite me chega como se fosse dia,
iluminada pelo dom das cores;
traz um som como há muito não trazia
e o aroma indescritível de flores.

Desperta em mim uma percepção crescente,
na irrupção de um absurdo transcendente;
e, na irracionalidade do mundo,
fecho os olhos para não ir mais fundo.

Mas não me entrego a esta visão fetichista,
dessa parte diminuta que reflete o todo.
O amor por ti é abstrato e também uma pista
de que o todo, além do ar, tem terra, água e fogo.

Caminho no mundo com você em meu peito,
num pulsar de frequência constante;
alma e corpo que juntos buscam um jeito:
amor e paixão, num ser só, um só corpo.

Alexandre Montalvan

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Pedaços

Neste pedaço de sonhos,
eu crio demônios;
crio amor e tristeza e, na rocha,
eu crio aspereza.
Também crio céus e estrelas;
no coração, a incerteza.
Eu crio a morte e a vida,
multiplico as histórias, o adeus, as partidas.

Eu sou como um monstro medonho:
eu crio, eu me exponho.
Eu mostro os meus intestinos,
tomados por fezes;
o sangue que corre nas veias,
o pão que m'alma anseia.
Eu mostro minhas faces na cara,
eu mostro minhas taras.
E, como não sei quem eu sou,
eu sou filho do amor
ou talvez deste medo;
e todo meu receio
é não saber quem sou.

Alexandre Montalvan

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Ó Rara Beleza!

Ó rara beleza que o mundo encerra,
De corpos e almas que juntas se unem,
Nas veias do tempo, correndo a terra,
Embaladas por amores que os perfumem.

Os olhos que fitam a luz do dia,
Brilhando em um misto de cores,
São janelas de uma vida pequena e vazia,
Que procuram, em vão, a paz e amores.

As vozes que clamam no ar silente
São ecos das dores que a vida encobre;
E os corações que sofrem, tão presentes,
São marcas do amor, um sentir tão nobre.

Assim caminhamos nesta vida tão pequena,
Buscando um sentido que nos dê alegria;
E, no fim, quando a noite se fizer plena,
Seremos só lembranças do que fomos um dia.

Alexandre Montalvan

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Cálice de Vinho — Venha Tomar

Eu teci o meu silêncio em minha boca,
não por medo, mas pela compreensão do abstrato;
a interioridade dos meus pensamentos advoga
ao que caminha pela avenida com todo o tato.

Há muita coisa que meu verso indaga,
mas há um silêncio que deve haver num sepulcro;
e quando ele — silêncio — se transforma em vulto,
pode-se ouvir o sibilar de uma adaga.

Não era a ovelha que caminhava pelas estepes sozinha;
trazia em meu cerne a violência da ausência,
pois o vazio era tudo o que eu tinha
e, para todos os meus pecados, não havia penitência.

Hoje continuo a caminhar sozinho
e trago em meu peito a cruz e a espada;
e, mesmo que esta espada não sirva para nada,
o silêncio da minha boca impera —
pelo menos enquanto tomo um cálice de vinho.

Alexandre Montalvan

Saiba mais…
CPP