Posts de Alexandre Montalvan (772)

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Como as Ondas

Nas ruas, os sons emergem do nada,
como em todos os caminhos do mundo;
estalando surdos, passos nas calçadas,
frágeis almas esperando a madrugada.

Sirenes — cinzas mortas — soam em vão,
caem do espaço como pétalas de flores;
talvez seja a morte levada em um caixão,
quiçá na brisa um arco-íris de cores.

Mas é o vento que bate a porta como um coice;
esta tempestade é sentida pelas frias mãos.
Como a solidão, ela cerca a noite
ignorando as ondas de amor e perdão.

Cerca a noite toda esta solidão;
a escuridão tinge os olhos com lágrimas.
Pequenas gotas caem no chão —
doce veneno em um lago de mágoas.

Alexandre Montalvan

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Nada é Pequeno Demais

Amor e ódio nascem de um mesmo tronco;
a razão, porém, deve atuar como um cerco
a equilibrar estas duas forças no corpo
e sobrepujar esta energia pura.

E seus dissabores não se sabe até quando
vieram no limiar desta estrutura,
no desaguar do sentimento sem falhar,
ao se voltar para esta mesma criatura.

Transformando o silêncio em algo venal,
provocando sua imediata ruptura,
e ao invocar, a todo momento,
um sonho que não poderia ser teu.

E o mundo, como o conhecia, não existe mais;
todos os sentires eram coalhados de emoção,
toda a luz da terra foi se transformando,
e nada neste novo mundo é pequeno demais,
mas tudo irá caber em seu pequeno coração.

Alexandre Montalvan

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Massa Falida

Inacessível é minha alma imortal
para a compreensão do eu anti-humano
que vive neste meu corpo mundano,
paradoxo de uma confluência fatal

O barro da terra é imensurável,
é matéria bruta, mas diversa;
não me venha com falsa conversa,
para que eu saia da minha vida miserável

A consciência nunca será matéria
que se corrompe pelo sal da vida,
sal este que alimenta a vida
que a leva à fronteira da miséria

Se na terra o problema sou eu mesmo,
crio caos pra entender o que não sei,
me procuro, mas até hoje não me achei,
estou perdido nesta massa falida e etérea.

Alexandre Montalvan

 

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Apodrecer

Recebi do mundo um convite
de criar as cores da aurora.
Nasce o sol como uma dinamite,
que explode em luzes sonoras.

Quando o vento assopra a praga
e provêm estes surdos lamentos;
quando o sangue escorre da adaga,
que, escondido em tal sentimento,
na carne floresce a chaga.

Nos espasmos do meu mundo escuro,
colori-los será o meu intento.
Rogo a Deus, sob a forma de prece,
que o caçador se transforme em caça;
louco o mundo, como se ele soubesse
que toda a graça é simples fumaça.

Estou perdido nesta insanidade,
que talvez soe como uma poesia;
não consigo parar um segundo
toda a doença da m’alma doentia,
que me leva para baixo, para o fundo.

Porém, hoje é tão pouco o que sei;
mas só sei que esta dor nunca morre.
O mundo todo parece ausente,
não tenho como aliviar este porre.

Meus caminhos eu seguirei sozinho,
iluminado pelo sol e o seu brilho,
muito embora eu não veja a hora
de apodrecer no calor do meu ninho.

Alexandre Montalvan

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A Teia do Mundo

A cada novo dia o mundo perde a cor,
um lento desgastar a cada alvorada,
ser apunhalado e não sentir nada
quando um triste adeus se torna indolor,
mas ainda purulento e espesso.

Estou só nesta noite feia e escura;
no cheiro da terra molhada me teço,
implorando por um pouco de ternura
como uma criança embalada em berço
à beira de um incinerador.

Desamparado, condeno a luz;
escorre-me pela boca um gosto sádico.
Quem me escuta jamais me traduz
quando me deito para o sonho
de um sonhar traumático.

Ao amanhecer, a luz é moradia
na exatidão de uma face marcada;
o sangue encharca a terra vermelha.
É urgente destruir ao fio da espada
o ferrão nervoso da abelha.

Alexandre

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Hora Extra

O repouso da morte me chama,
como a chama que arde e se apaga,
como a chaga que abre e se fecha,
como a acha, o tacape e a pedra.

O repouso da vida na cama,
onde o sono impera e conclama,
onde a vida vã se prolifera,
onde a sede da carne me chama.

O destino somente é destino,
e a carne é simples matéria;
toda a vida é ato contínuo:
asteroides, estrelas e a terra.

O repouso da morte me chama
nesta mão que é canhota ou destra;
eu, deitado em meio ao caminho,
nesta vida eu faço hora extra,
como um halo de luzes nas trevas.

Enquanto a morte tão doce me espera.

Alexandre Montalvan

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Anjo Alado

Por onde vão teus sorrisos,
ou os teus pensamentos...
por montanhas, por bosques floridos,
em um céu azulado
sobre teus cabelos,
e eu, louco de amor por você...
Perdido!

Teus olhos dourados
refletem-se no espelho,
estrelas, poemas e flores,
o doce gosto da fruta,
o ardor da pimenta,
e eu, para sempre, te chamo...
Querida!

Por onde vão teus sonhos
nos braços de anjos alados,
em cores alvas de tons azulados,
nas noites de ventania,
e eu com você...
na mais louca magia
dos eternos enamorados!

Alexandre

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Imenso Amor

Amaram-se em outro planeta,
imenso como era o amor.
Amaram-se sobre púrpuras de seda;
era tanto amor que esqueceram de morrer.

Amaram-se em um amor desvairado,
num mar de flores em imensidão.
Doce o aroma da gardênia do cerrado:
amaram tanto, para tudo mais esquecer.

Amaram-se sempre, e o amor conduz
ao que eram dois tornar-se um apenas,
ser único, repleto de paixão, amor e luz;
esta irrealidade é mais etérea que terrena.

Pois tinham um olhar que fazia perder a fala,
exalando luz de vida na escuridão;
nele existe o mistério que apunhala
bem no cerne de qualquer coração.

Alexandre Montalvan

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Um Jogo de Xadrez

Sou aquilo que tu vês,
caos transformado em humano,
cheio de medos e desenganos,
um humano encharcado de talvez.

E, talvez, eu consiga um dia voltar,
voltar a sentir uma feliz inocência;
desengano e inocência farão um par,
minimizando a dor da tua ausência.

Não posso ter a ternura de estar,
pois perdi o amanhã e também o ontem,
e, sem tê-los, não posso te dar,
e não há no mundo quem os aponte.

Escrevo usando a minha insensatez,
mesmo que tente pressenti-la, eu me dano,
pois a vida é como um jogo de xadrez,
onde o pião tem o rei como seu tirano.

Alexandre Montalvan

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Multidão

Multidão

Tudo é uma grande ilusão
Sonhos, apenas lixo enfeitando os caminhos
Fecharam a torneira do amor
E as gotas caem…
É apenas solidão

O mundo é desértico e seco
Em mares de óleo escuro
Parques de crianças esquecidas
Mortas-vivas estendidas à sombra
De viadutos, esquinas e muros

Um Deus que não pune, nem olha,
Olhares finitos
Um mar de espectros esquecidos
À margem, sem carne, esquálidos e aflitos

Um cão que não morde, nem ladra
Em um mundo cão
Pisado, amassado, dobrado
Que não é redondo nem quadrado
É apenas um transitório perdido
Em meio à multidão

Alexandre Montalvan

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Entre as Sombras e a Luz

Por este chão que ando,
imaginando ondas, fito sonhos entre as sombras,
ouço a intriga e o lamento
de um vento de outono
que revela um lindo firmamento.

Puro azul que finda em ranhuras das espumas,
finos laços de algodão em plumas,
olhos rasos com a paz de um renascer;
e quando o sol afunda
num abismo de brumas,
o tempo é uma centelha
deste jeito próprio de viver.

Oh, Tempo! Que, de tão concreto… é abstrato.
Flor de fim de outono em um jardim de jasmins,
que é o aroma que eu aspiro
em meio a suspiros densos.
Caminho neste relvado vespertino,
abrandado pelas sombras do equinócio
e nuvens brancas e imaculadas do meu destino.

Sabes que sou falso cativo deste tempo real,
junto a corações de vidro
que transbordam de poemas;
porém vislumbro-te na esteira destes sonhos
de dimensão mediúnica,
e em meu coração dividido
você será sempre a primeira e a única…

Alexandre Montalvan

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Ocaso - soneto -

Abandonei-me à essência da eternidade
em uma macies sedosa da branca cal
nesta procura geral por uma verdade
tantas taças loquazes do ventre do céu

O acinzentado espectro do definhamento
fórceps de uma vida que não quero mais
com todo o terror de um sentimento
das dores absurdas que deixei para trás

São tantos os amores que no peito arde
num mundo folheado de falsos atores
prefiro o sol no ocaso invernal da tarde

Pois eu amo a morte e todas as suas cores
e a sombria ventania. Oh! Deus me guarde
deixe-me morrer num jardim de negras flores.

Alexandre Montalvan

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Esta mão!

De quem é esta mão?
Que tão estranha me parece…
Sei que não me sai das entranhas,
mas é como um rio que desce
à procura do mar?

Talvez nada a possa salvar:
o diabo orando uma prece!
Até aqui, nada singular?
Mas assim a coisa acontece.

Montanhas brancas, cobertas de neve,
em um negrume que emite
uma paz imensa
que ninguém descreve.

Segura o silêncio
para não poder ouvir seu grito.
Era a intensidade que envolvia a mão,
a face atormentada pelo atrito,
a palidez de um sonho
quando se perde a razão.

Alexandre Montalvan

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Nas Sombras do Teu Olhar

Escuros e profundos abismos
eram os teus olhos, tão negros,
misteriosos na noite; anseios,
delicados sussurros roubados,
mas embriagantes e brilhantes,
preciosos, perenes pecados.

As cascatas de estrelas no céu
eram cor de fogo em teus cabelos,
e esvoaçavam ao vento, feito véu,
e flutuavam em meus pensamentos.

Em teu ar floresceram enigmas;
no teu céu, pétalas de rosas;
em teus mares negros, estigmas,
fruto de sonhos, dores e amores.

Inatingível era o teu coração,
granito triste da terra suada;
alcova mágica, sonhos e paixão —
no olhar, apenas sombras veladas.

Alexandre Montalvan
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A Ética da alma

A estranheza de tantas procuras
habitam os labirintos da mente
e oque é humano toca o dissidente
É pela criação — e não pela espada —
e eleva sua alma ao ápice do nada.

Sentimentos são abismos férteis,
onde dor e loucura se expandem ao infinito.
Um sentir acrimonioso:
aguçar o olhar é acender luzes
para que a inquietação vire um gozo.

Há uma força silenciosa no verso:
que faz aflorar os fluídos do sentir,
derrubando falsos preconceitos.
O humano que escreve se torna raro
quando oferece a palavra
transforma a noite em dia claro —
não para si,
mas para a elucubração da alma.

No mais, por si, o que resta é vazio.
sem valor, nem sentido.
O que é essencial basta ao despertar:
mudar é aprender a partilhar,
amar é reconhecer no outro
o que também nos falta.

O que é o Eden, senão pergunta?
O que é o “quê”, senão experiência sentida?
A escrita não responde —
flui pelas mãos do artista e ela continua.

Existe um além do visível:
crer sem ter os olhos fechados,
razão sem arrogância,
dedicação como disciplina do ser.
O corpo exige alimento correto,
o pensamento exige análise justa —
não rude, não caótica,
ser um humano responsável não custa.

A simplicidade da rosa,
o excesso corrói os reflexos.
Uma mente saudável é esforço contínuo:
a arrogância é sem nexo
habitar a si mesmo
traz o precioso com sua presença
é mais digno
do que adulterar a própria essência.

A criação é também descanso.
É aventura literal,
diálogo entre mito e emoção,
faz do irreal, real.
Não se deve ceder às farsas do poder,
nem confundir crença com manipulação.

A mansidão nas cores da natureza:
rochas, águas, quedas pequenas,
tudo imensamente belo.
O fluxo é terapia,
o lugar certo preserva o equilíbrio —
cada ser é único.
Um universo em forma de verso,
em sentidos paralelos.

Preencher corações não é possuir,
é permitir o espanto.
Crianças lembram o que esquecemos:
curiosidade é forma de sabedoria.

A cultura também educa o sensível:
o riso que resiste ao tempo,
a imaginação que cria mundos,
os ícones que revelam humanidade
no gesto simples.

Valorizar o outro é um ato moral.
Afastar-se do escárnio é lucidez.
Diante da imensidão,
o poema não conclui —
ele se oferece.
Trazendo luz a escuridão.

Alexandre Montalvan

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Som do Coração!

Sem nenhum alarde, meu caro, o engodo
na boca arde, e eu passo por louco,
mas tento dizer a verdade.

As minhas palavras são miseráveis,
explodem, e é como se não fosse pouco,
cospem no seu chão.

Não posso evitar o contrário,
no ato basal de encontrar o ordinário
ou o mínimo imaginário:
o som rouco da palavra que a m’alma perfuma,
a dizer coisa nenhuma.

No céu, o vento sopra cada tormento,
e o som que na minha boca ecoa
é a dor que exala do meu coração —
palavras que o vento não perdoa,
mas que só falam de amor e de paixão.

Alexandre Montalvan

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Um pouco de Sol

Valha-me, meu corpo!
É teu… O não sentir que se aproxima,
o sono eterno na noite fria.
Valha-me que te pego a tremer.
Como me treme a mão ao escrever
esta poesia.

E a todos meus sentidos que se esvaem,
como a não filosofia de um seco rio,
aos mortos que me tocam o pensamento,
valha-me que te sinto. Oh! Frio,
como a lâmina que sibila
e que traz às minhas costas
um arrepio.

Sol, oh! Sol,
volta a brilhar em minha vida.
Teu farol sozinho
há de afastar a noite
que me constrange.
Ao teu calor poderei voltar a amar,
e tua luz
vai iluminar o meu caminho.

Sol, oh! Sol,
faz-me sentir o ardor da brisa,
pois, a cada uma das minhas madrugadas,
eu morro mais um pouco
entre as sombras que voam alienadas,
ao ouvir meu grito rouco.

Sol, oh! Sol,
amiúdam-se os risos
neste cais de tantos versos.
É preciso que todo encanto
se perca no improviso
quando a madrugada vai morrendo
e o dia na noite está imerso.

Sol, oh! Sol,
dá-me a dor que me deixou tão de repente,
porque dela eu tiro a vida.
E, por mais que preterida,
é na dor que eu curo
minhas feridas.

Alexandre Montalvan

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Renascer das Cinzas

Ouço a minha voz como se não fosse eu,
pois estranho o som me parece;
a dor que me aflige e que do silêncio nasceu,
nas pausas entre as frases,
é tanta que me entristece.

Vejo um rosto no espelho que não pode ser meu,
com linhas e traços tão alvos,
um rosto em que há muito a vida desapareceu,
indício de sonhos perdidos,
tal e qual náufragos que não puderam ser salvos.

Sinto em meus dias que meu tempo há muito se perdeu
em um mundo de frases vazias;
resta apenas criar confluências de ser,
renascer e viver
neste mundo novo de devaneios e poesias.

Alexandre Montalvan

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Soneto do Hímen

 

O meu eu lírico é um eu profano
farta-se em me fazer chorar,
faz crer que eu é que engano,
que minha face não seja um mar.

Faz do sexo bacanal mundano,
coisa que a mim só trouxe azar;
embora o sexo seja coisa que amo,
o que ele diz não ouso falar.

O eu lírico é expressão sublime,
isto é um incontestável fato,
mas ser profano não é nenhum crime.

As frases profanas o recatado suprime,
são frases para ele sem nenhum tato,
a dizer que não existe mais nenhum hímen.

Alexandre Montalvan

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Manto Tupinambá – Soneto –

Era um jaguar na sua mata
que mata e vinga o seu povo,
devora o inimigo como um ovo
na certeza da dose exata.

Sua grande e fortificada aldeia
abraça este povo guerreiro,
espalhando o medo como uma teia
ao resto do mundo inteiro.

Os ventos ainda sopram forte,
e o jaguar ainda preza a dignidade,
deslizando suave nas flores do manacá.

E mesmo na nossa fria modernidade,
seu vermelho manto tupinambá é
símbolo da sua memória e identidade.

Alexandre

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CPP