Posts de Alexandre Montalvan (748)

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Abandono

Oh, marulhar deste mar de tantos sonhos,
ninguém pode sentir aquilo que tu sentes,
a dor dos longos caminhos do abandono
e deste grande amor que ainda se faz presente.

Oh, este amor tão transitivo e tão raro,
foi ave de um verão curto e passageiro;
não se entregou a ti por inteiro
e, no outono, partiu — deixando-te no desespero.

Oh, quão frio e aterrador é este sombrio inverno,
este amor moderno que, para ti, é eterno;
tua pobre alma se arrasta na loucura
e na insensatez de amar em plena desventura.

É chegada à hora de dividir o indivisível,
de reinventar este triste coração partido
por este amor perdido — cinza, mas que já foi chama —,
que desfigurou tua alma nesta emoção.

Do abandono que sobre ti a dor se derrama,
restos de um amor que foi apenas ilusão:
o risco que se corre quando se ama,
quando se entrega, para sempre, o coração.

Alexandre Montalvan

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Como um Todo - soneto -

A vida foi — e sempre será — um engodo,
mas também o mais lindo arquipélago.
Nela me lanço, nela vago,
e deixo que me leve, pouco a pouco.

Ela é, para mim, o meu soldo,
e até no sofrimento me satisfaço.
Quando me dói a carne,
faço da dor o meu jogo.

Quero mais — quero viver a vida,
mesmo flutuando sobre um tronco,
contanto que o mar me seja gentil.

Mas isso não me tira o sono:
viver, para mim, é um ofício
que me permeia como um todo.

Alexandre Montalvan

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Universo

Neste lindo e misterioso universo,
na vastidão que é… imensa e infinda,
maravilhosos são todos os versos
feitos sob a luz desta lua… tão linda.

Galáxias, nebulosas e cometas
e também berçários de estrelas;
é preciso o Hubble para vê-las:
nascem como se fossem bebês,
tudo feito pra mim e pra você.

Quasares que pulsam eternamente,
astros, buracos negros, escuridão;
o sol — seu nascente e seu poente —,
Deus dos céus até a bolha de sabão.

Ela sobe, a se perder no infinito;
de tão frágil, logo vai explodir.
O universo é misterioso e bonito,
mas um dia eu terei que daqui partir.

Alexandre Montalvan

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Sem um Único Orgasmo

A vida passa na velocidade do vento,
quando menos eu olho, menos eu espero.
Contorno tudo quase sem olhar —
talvez um dia a tristeza me espante,
talvez seja tarde para voltar.

Os dias são ocos e sem vida,
um trem sem passageiros, sem volta, sem ida;
uma alma crua, sem feridas,
que vai por aí sem nada a importar,
como se nada houvesse a avaliar.

Escrevo poesias como uma saída,
saída de um “H” miserável,
para viver vidas que nunca serão vividas,
para poder morrer mil vezes,
sem uma única partida.

Perco-me — e também a cadência do meu andar;
balanço como folhas ao vento.
É o mesmo vento que corta ondas,
que me faz tremular.

A morte segue inane e sem rota,
e eu vou com ela,
pois ante a um último espasmo,
uma faca que penetra e corta.

Sou o último grito,
sem um único orgasmo.

Alexandre Montalvan

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Um Céu Repleto de Luzes

Diz-me, louco — o que no mundo procuras?
É o riso estampado nas redes sociais,
a alegria que flui nas caras sadias
ou a dor que se ausenta… é só dicotomia?

Logo, sorria: toda dor se mascara na face,
pois tudo é somente uma loucura “saudável”.
A arte da alegria transcende este impasse,
e o depois é apenas o choro do miserável.

Ei, você!
aí, sorrindo com cara de paisagem,
não queira ultrapassar um raio de luz —
nós estamos aqui só de passagem,
e a paisagem é a natureza que produz.

Ei, você!
quando tudo é somente fantasia,
toda essa loucura é devassa alegoria;
e nessa fantasia a realidade se perdeu —
acho que você está certo: o louco sou eu.

Agora brilha a luz em teus olhos,
vinda de buracos escuros no céu.
Você agora é um alvo fácil
para as presas venenosas da cascavel.

Agora há somente um riso distante
e eternas gotas de um segredo
neste céu que agora é brilhante,
que você toca com a ponta do dedo.

Alexandre Montalvan

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Olhos Luminosos

Há olhos luminosos nas ventanas do mundo,
abrem como rosas cândidas neste imenso jardim.
No chão de pedra, brindamos seu laço profundo,
com os brancos dos olhos postos sobre mim.

Diga-me: de qual lado disso eu fico sozinho,
nesta ponte de duas metades iguais?
Onde está o medo que me cerca — meu espinho —
ou o sorriso que, ao tocar-me, me desfaz?

Dentro deste absurdo mundano eu me encontro,
nesta ausência que consome m'humanidade.
Eu me desintegro e me reintegro, ponto a ponto,
entre sombras — nesta suja rua da cidade.

Certo de encontrar uma razão para viver,
traço em teus olhos o meu apoio.
Mas o oceano se fez arroio
quando caiu a máscara do meu eu em você.

Hoje estou assim — um oco caixão —
onde só me resta o corpo e não o espirito.
Nada importa.
Houve um calafrio, um grito —
como se você nunca tivesse tocado minha mão.

Aspiro a solidão nesta noite escura,
que dura a eternidade de um amor.
O sofisma deste sentimento é a minha ruína:
Deus — para que serve uma alma pura
se não a tenho comigo — e isto só aumenta minha dor

Já não sou aquilo que um dia fui.
O tempo me desnudou, lento,
como um furioso entre-rios que deflui
sob as insensatas multicores do firmamento.

Alexandre Montalvan

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Estranha Morte

Entre as sombras de minha alma
guardo os mais ternos segredos,
e eu conto com os meus dedos
todos os meus amores desfeitos.

É tanta a minha carne estremecida,
sendo o meu corpo feito um coração;
todas as lágrimas, em sangue, fluem,
toda sintonia jaz nivelada pelo chão.

Eu fui expulso de dentro de mim,
gota a gota, em lágrimas traiçoeiras,
espalhadas em misterioso jardim,
lançado por minha alma sorrateira.

Como selvagem, na noite indecente, eu despi
o meu corpo na flor deste meu desencanto;
desespero-me e verto-me em prantos
na mais estranha morte que eu já vi.

Alexandre Montalvan

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Eternidade

Posso sentir a morte do fim do dia
O hálito fétido da sua boca aberta
A crescente invasão da agonia
A alma vazia na noite deserta

Tão certas as palavras que existiam
Apenas restavam rastros de melancolia
Deste dia que há tão pouco apenas nascia
E agora, pouco a pouco, a morte o levava
Ele morria

Não posso sepultar mais este dia
Quero me libertar destes grilhões
Fazer de um simples sonho realidade
De um simples ato de vontade, eternidade
E ver nascer, com alegria, um dia que nunca morreria
De verdade

Ter o olhar refletido no nada
Tão frio como o aço da espada
Encontrar o altivo senhor do universo
Que, mesmo distante, está perto
Do meu coração

Alexandre Montalvan

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A Senhora Dona Vírgula (soneto)

Este é o símbolo que pede o silêncio,
fato este que não apenas nomeia,
mas permeia a densidade do sentir
e traz à razão um sentimento suspenso.

Hoje é só um ruído fugaz,
traz ao tempo a sua ausência;
nesta ânsia de se perpetuar, ele faz
brotar na alma tão triste sentença.

Talvez seja apenas para sentir:
o ato, em si, é de pouca valia,
mas muitas outras valias hão de vir.

Claro que não apenas na poesia,
mas não quero chutar a bola no contrapé,
pois isso seria apenas uma heresia.

Alexandre Montalvan

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Frases

Frases vazias… dizes, enquanto penso.
A cama branca, tão limpa, tão fria.
Penso em me esconder. Ou extinguir este mal
que tanta dor traz, inconsequente aversão.

Em meu coração, que se aflige e quase some,
eu, perdido, vivendo ainda um passado.
Grande escuridão de indecifrável nome,
sem perceber que tudo está deteriorado.

Pouco a pouco acabaram todos os sorrisos,
uma rosa que murcha lentamente em um vaso.
E o amanhã foi ficando cada dia mais doído,
como um sol que vai morrendo em seu ocaso.

Frases vazias dizes, enquanto eu penso
que, tão lentamente, foi morrendo a alegria,
em um dissolver de amor imenso,
diluído nesta triste poesia.

Alexandre

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Psicopata da Paixão

A paixão avassaladora mata,
feita de prazer, sangue e dor;
é brilho de ouro, mas é só prata,
ou dor de amor — nem melhor, nem pior.

Viciante incivilidade ingrata,
entrega à vida um universo de cor;
a mão do homem passa a ser uma pata,
e as suas ações, as do pior roedor.

É um rato em imagem caricata,
que sempre se rebaixa, aqui, ali, aonde for;
certo de que aquilo que não engorda, mata,
suscita no prazer uma fonte de dor.

E faz essa escolha insensata:
entre a dor e o prazer, escolheu o prazer,
bancando um psicopata —
gozou até morrer.

Alexandre

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Entre Corpos

Quando dois corpos se encontram,
num roçar de ondas eloquentes,
em oceano de toques ardentes,
elevam-se vertiginosamente.

É o arrepiar de um tesão infinito,
de toques suaves e ternos;
até os astros ressoam irrestritos
neste sentido de prazer eterno.

O frescor da romã partida nos dentes,
nos lábios rosados da água nascente;
o sumo doce e morno do baixo-ventre
ilumina os sentidos, simplesmente.

Tanto é o fogo que irrompe nos olhos,
pois, ao buscar o prazer furtivo
no ronronar de murmúrios dúbios,
a alma se liberta, e o corpo é pra sempre cativo.

Alexandre Montalvan




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Cancioneiro

Mas o tempo passa chorando
Pela dor neste cancioneiro,
Quando cessa todo o canto,
Alagando o mundo inteiro.

Ai de mim neste recanto,
Ao não ver teu brando encanto.
Sal do mar, do mar que eu crio,
Que são apenas águas de um rio.

Nos interstícios que tu eras,
Mas que agora não és mais,
Aguaceiros de longas esperas,
Quando tu eras teus iguais.

A alma de um branco franco,
Quais areias de uma praia vasta.
Quando andas sobre teus prantos,
E estas mesmas areias tu arrastas.

Cancioneiro de um vazio inteiro,
Livros nas areias enterrados.
Inspira a dor que é um desvario,
Como as secas margens de um rio.

E este amor, que sequer sentiu,
Que motivou esta terrível dor,
É o mesmo coração que se partiu
Ao perder este imenso amor.

Alexandre Montalvan

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O Que eu Mais Amo em Você

Eu sou apenas cinzas,
remanescente de um coração em chamas,
como uma estrela que, no céu, derrama
chamas quentes para iluminar.

É um céu tingido de vermelho
pelas lágrimas que obstinam em rolar;
este amor eterno é passageiro,
como as gotas das águas do mar.

Quando eu ouço tua voz na noite,
tão escura quanto meu pesar,
todo amor que havia agora foi-se,
como os sonhos que eu vi passar.

Como nuvem de espuma clara,
que nos céus quer permanecer,
saiba que as coisas que nos separam
são as que mais eu amo em você.

Alexandre

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Não Encontrei a Tua Mão

Hoje eu acordei na beira da cama,
mas era um precipício na minha imaginação.
Minha mente, em mil pedaços, se desfazia;
desgraçadamente, não encontrei a tua mão.

A foda era que nada fazia sentido.
Desesperado, pensei em fazer uma oração:
“Deus! Não sou ateu, mas não sei de nenhuma.”
Infelizmente — ou felizmente — caí de cara no chão.

Porém, naquele instante, a realidade era falha,
e eu, desmoronado, sem atinar para a solução,
olhei para cima e vi uma mão com uma navalha.
Fiquei paralisado com uma dor no coração.

Como um cego, tateei no assoalho estagnado.
Senti a consolação das lágrimas — não minhas; estranhas.
A alma doente de um corpo condenado;
desgraçadamente, não encontrei a tua mão.

Alexandre

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Amor Sem Fim

Entre gemidos e carícias,
o amor explode
como um raio de luz que nos colhe
ou ondas de um mar de delícias.

Em teus seios,
quero o toque majestoso,
como o colibri em uma flor,
explosão suave de um gozo
no mais puro amor.

E assim se cumpre o presente,
pois só ele existe, afinal:
um amor eterno, onipresente,
onde nunca haverá final.

E é no olhar… cumplicidade;
pétalas de rosas espalhadas pelo chão,
o gozo supremo e infinito
ao sentir, na pele, o toque da tua mão.

Alexandre Montalvan


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O êxtase de Herodes 

O êxtase — de um mundo em movimento;
sêmen que corre pelas águas — do rio profundo;
e nas lascividades breves de um momento
escorre lento — do raso ao fundo.

Segura — o grito preso na garganta;
as lágrimas, sim, começam a rolar.
Roucos gemidos — que até espantam —
buscam prazer no eterno afundar.

Um só corpo em dois: vítima — e algoz;
neste espasmo que é contínuo — e lento,
contorce o ventre em um gozo feroz;
geme enlouquecido — louco alento.

E um mar enfurecido — explode;
estas ondas, no êxtase do prazer,
te lançam — nos braços poderosos de Herodes:
e a escolha cruel — matar… ou morrer.

Alexandre

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Erupção Sensual

E, na confusão anacrônica do nosso enredo,
decerto o temido axioma eram só desejos,
onde os toques e carícias eram de medo.
Deitados, nós ficamos em fogo e nos beijos.

Semblantes dispersos em brasas na fogueira,
e os ossos rangiam onde as carnes abundam.
É no rigor imberbe em que línguas afundam,
no enlouquecido furor destas fronteiras.

Mal distensionada, a noite perdeu os sentidos;
somente o suor denunciava o que tinha havido,
e pétalas de flores cicatrizavam o colchão.

Mas nossa carne postulava por loucuras,
nossos semblantes tinham a palidez branca da lua,
enquanto lavas mornas escoavam do vulcão.

Alexandre

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No Fundo do Poço

Faça de mim apenas um poço,
em qualquer deserto sem água,
neste infortúnio causal que ouço,
no qual a ternura pouca mirrava.

Faça-me tela de linho branco,
onde o amor se desmancha nas cores
e onde a dor é um mal natural,
linfa impura de tantos horrores,
que escorre por entre pedras de açores.

Faça de mim amor para quem não entendeu
que é para todos — as regras, as leis.
Faça-me o fogo em que me queimei,
sonorizando a dor que arrefeceu
na noite sem a lua, cor de breu.

Faça de mim o ator que nunca fui,
ou esta tristeza que coça e arde,
sem que eu possa dizer um “ui”,
nas entrevidas da sombra que polui,
ao ver morrer a minha finita tarde.

Dê-me, então, teu abraço, ó noite escura!
Já não há lei,
nem dos homens, nem de Deus.
Aos meus olhos, mostre o meu fim!
Só o negrume é o que não poderá negar
para mim.

Alexandre Montalvan

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Melancolia

Cobres m’alma com enormes asas negras.
Coração navega em um mar de tristezas.
Tudo à minha volta se tornou vazio;
todas as cores são de um cinza frio.

Sonho, pois em sonho consigo reviver
momentos preciosos que eu passei com você.
No silêncio do ninho, doce chuva quente,
leviana, sensual e ardente.

Na música romântica dançamos lentamente,
em um ritmo erótico, envolvente.
A tempestade surge de repente:
raios, trovões, batidas fortes se repetindo.

As carnes quentes se abrindo,
sussurros densos,
como densas as nuvens extensas, tão úmidas,
e choram, desesperadas, urgentes, unidas.

Na alegria do sonho, a realidade vazia;
ao adormecer, sonhar; ao acordar, agonia.
Sem nenhum sentido, isolado,
somente encontro um caminho:
a melancolia.

Alexandre Montalvan

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CPP