Posts de CLAUDIO ANTONIO MENDES (58)

PEDIDOS E PLANOS

 

Peço que a noite possa nos cobrir

Com seu fôlego leve como a brisa

E peço que a lua possa testemunhar

O toque dos nossos lábios ansiosos

 

É que eu planejei o melhor de nós

Para além do cansaço da semana

Mergulhados nos fardos do trabalho

Como abelha obrigada pela colmeia

 

Peço que a cidade possa se silenciar

E se regozijar com os nossos sussurros

Não que sejamos os únicos amantes

Nessa redoma de concreto e sonhos

 

É que eu me senti no direito

De ser feliz ao menos na sexta-feira

Percorrendo o corpo da linda mulher

 Companheira nas batalhas profundas

 

Peço que os deuses me entendam

E possa abençoar a minha intenção

É que busco fugir do tédio reacendendo

A cada instante a chama da paixão

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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FEITO ANJO

Saúdo cada manhã com o sorriso

Que aflora

No teu rosto feliz que abriso

Com a aurora

Sob as fragrâncias do paraíso

Mas outrora

Eu era um boêmio sem juízo

 

Naquele tempo sob o véu da ilusão

Eu não sabia

Que falsos amigos levam à perdição

Pura fantasia

Em cada trago e em cada gole a traição

Falsa rebeldia

Nas noites rumo à total destruição

 

E quando tudo parecia naufragar

Sem solução

A chama da esperança a apagar

E sem perdão

Com a minha vida eu estava a pagar

A errônea opção

Você, feito anjo, surgiu para me afagar

 

(Cláudio Antonio Mendes)

 

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SORRISO ESTREITO

 

 

Enquanto a vida reparte as cartas

Eu sigo te amando

Enquanto o confisco vai para mesas fartas

Sigo contigo sonhado

Enquanto as folhas comem as lagartas

Sigo aqui poetizando

Mesmo que para distante tu partas

 

Seguir amando num mundo tão cinza

Não é nada fácil

É como ser uma espécie extinta

Ou objeto frágil

Papel sendo rejeitado pela tinta

Para o poema ágil

Pingando das mãos do poeta ranzinza

 

 

Tristeza instalada dentro do meu peito

Que me inspira

A tentar na vida encontrar um jeito

Que não seja mentira

De te oferecer o amor mais perfeito

Ao som da lira

Alargando esse meu sorriso estreito

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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AUSÊNCIAS ETERNAS

A fantasia que me movia pela noite

Em busca das migalhas do teu afeto

Foi evaporando a cada inseto em volta

De uma lâmpada incandescente e nula

 

Minguado fui me incorporando às flores

De um paupérrimo lençol árido e surrado

Tive sede e a umidade dos teus lábios

Não se encontrava mais ao meu dispor

 

Gélido como a extensão polar da solidão

Tentei expandir-me para além do círculo

Mas percebi que era mais que um século

A distância pela qual eu teria que rastejar

 

Não era somente te enviar uma mensagem

Desculpar-me ou implorar para a tua memória

Colher os frutos daquilo que semeie em tua pele

Em cada saliência pelas minhas mãos férteis

 

Passou a ser algo mais do que me reconstituir

E encontrar o desejo que me assombra no vazio

Ainda assim há os minúsculos cacos que se foram

Para serem ausências eternas do ápice sem retorno

 (CLÁUDIO ANTONIO MENDES)

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DETERMINAÇÃO

 

Eu não consigo explicar para as flores

O motivo do teu adeus tão violento

Das tuas mãos suaves jamais pensei

Que seriam capazes de gesto tão cruel

 

A mágoa que você deixou em mim

Como uma nódoa da noite no lençol

É ferida aberta por onde agora sangra

As desilusões escondidas nos senões

 

Eu vou tentar me acostumar com o dia

Sem ter teu corpo vagando pela casa

O amor que eu julguei tão solidificado

Desmanchou-se com tua decisão fútil

 

Não consigo juntar os cacos espalhados

Pela nossa história com mais de três anos

E encontrar o erro que acaso tenha cometido

Ou a palavra que não coube bem no verso

 

Eu sei que ainda não domei essa saudade

Enjaulada dentro do meu peito em decadência

Mas estou determinado a não pedir que volte

Pela janela das horas que não consigo trancar

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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TRISTEZA DISSONANTE

Acordei com os olhos marejados de dor 
(E a bendita da novela mexicana nem me esperou)
Uma lágrima sobressai entre as gotas de sangue
A vida quer se esconder sob a palidez do tapete e
Você nem sequer me empresta seu sorriso irônico

Puxei as orelhas do tempo entre tremuras e gracejos
Não posso mais me conter de tanta vontade de amar
Eu só queria que a tarde fosse feliz em nossos olhos
Mas você sequer consegue algemar os raios do sol

Vou partir para minha tristeza dissonante feito cinza
E teu dia foi embora entre os dedos sujos de tinta
Por você ter tentando maquiar o rosto dessa cidade
Mergulhada nos acasos de uma história sem floreios

A embriaguez que me belisca o fígado enquanto voo
Em calçadas sujas na busca da decência crepuscular
Existe como uma planta que cria raízes sobre a rocha
Só enxergo flores quando a garrafa me revela o fundo

E se os cacos de uma vida não consegue mais ferir
Os desavisados em suas caminhadas inquietantes
O sereno da noite passa a ter efeito de um analgésico
E o que resta de memória recorda as cantigas de ninar
Daquela infância (agora tão distante) que ainda me acena

 

- Cláudio Antonio Mendes -

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ETERNO RESSUSCITAR

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando a posse do amor é presente despretensioso

E o beijo

Mostra a estrada que se descortina com pernas entrelaçadas

No chão

 

Teu olhar crava em meu peito o convite que não recuso

Nudez

Traço destinos em cada curva de contornos sinuosos

Magia

E a sedução que bebo em teu corpo delirante

 

Eu somo os toques em tua pele contando nos dedos

Prazer

O sussurro dos teus lábios acorda vulcões adormecidos

Lava

E aquela ardência percorrendo as veias

 

O dia seguinte será agenda não cumprida

Descanso

Não sei quantas vezes se morre em uma noite de amor

Eterno ressuscitar

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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A DIREÇÃO

 

A paz na cabeça e eu no meu canto
Sonhando com os castelos encantados
Que construí na areia de tantas praias
Vagando pelo mundo em tantas fugas

Apenas um beijo no espelho da vida
E o foco na imagem em fragmentos
Do rosto que foi acariciado e ferido
Buscando o amor em fúrias de bar

Só me reerguendo de tantas quedas
É que gozei com a gravidade a puxar
Meu rosto de encontro com o cimento
Duro de tantos caminhos sem rumo

Meus dias foram recebendo rótulos
E cada página do diário um drama
Ao aconchegar-me em teus braços
Eu senti apenas a curva da história
Mudando a direção da minha rota 

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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APENAS UM DETALHE

 

Imaginação que não se guarda

Dentro da massa cinzenta neural

Pé desnudo e roupas sobre tapetes

Cama

E a imensidão do universo como chão

 

Momento que não se acorrenta

Em números digitais ou ponteiros

O toque na pele e as curvas sinuosas

Amor

E uma erupção de sentimentos no sangue

 

Prazer que não se mede ou se pesa

O mundo não teoriza profundidades

Um verniz transponível só por nós

Sedução e prazer

E imensos segredos em nanofragmentos

 

A lua é apenas um detalhe

 

(Cláudio Antonio Mendes)

 

 

 

 

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PESSOA (rondel - dia do poeta)

A pessoa não escolhe ser um poeta

É a poesia que escolhe uma pessoa

Obrigando a alma a fazer tal coleta

De metáfora enquanto a voz ressoa

 

Esse silêncio na minha cabeça ecoa

Cansando como se fosse um atleta

A pessoa não escolhe ser um poeta

É a poesia que escolhe uma pessoa

 

A poesia ignora totalmente a meta

Tem dia que nem um pássaro voa

Seja no deserto, seja na bela Creta

A natureza com as palavras entoa

A pessoa não escolhe ser um poeta

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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CERTAS MURALHAS

As tardes são singulares quando os olhos

São capazes de traçar as linhas do horizonte

E o aroma das flores inebriantes entorpece

Quando os lábios mergulham na fonte

 

Mas a tempestade que a vida tece ao acaso

Nos cobre com suas nuvens escuras e úmidas

O musgo do desespero viceja nos dedos

Que não se sujam na esperança viciante

 

Eu não sei cavar túneis em montes tristes

Por não ter a pá lubrificada de lágrimas

Apenas tiro as pedras do nosso caminho

Para não te ver sangrar pegadas destoantes

 

As ruas são íntimas dos nossos passos largos

Apressados para encontros necessários ao amor

A solidez de cada esquina absorve meus medos

Para que eu possa me atirar sem temor algum

 

Mas a dama que escurece a vida em seus limites

Assopra para seus cães de presas dilacerantes

Ouço a matilha em seus passos mortíferos

Cortejo que deixa rastro de gemidos sob o arco-íris

 

Eu não tenho forças para destruir certas muralhas

Eu não tenho armas para vencer certas batalhas

Mas tenho amor por ti o suficiente para estar presente

Sempre que teus lábios sussurrar meu nome

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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O PRÊMIO

 

 

Não sentir mais o peso da vingança

Fazendo a língua salivar venenos

Cuspindo ácido sobre flores inocentes

Rasgando peles na calma das relações

 

Mergulhar sem ter medo ou receio

Dentro do abraço despretensioso

Percebendo que a água é límpida

E a sede é rotação de uma nova força

 

As sobras são apenas um esperar

Para à tarde se construir banquetes

E celebrar sorrisos a florir momentos

E o vento acariciando nossos sonhos

 

É que ontem irrompeu em meu ser

Asas longas para poder ir mais longe

É meu prêmio por eu ter te perdoado

E me perdoado por erros tão humanos

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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PRESENÇA DO SOL

Eu pisei sobre os cacos do meu orgulho
Depois das quedas
Rastejo hoje entre entulhos fumegantes
Buscando moedas
Minhas asas feridas apenas gotejam
Sangues arrependidos

Migalhas de decepções sobre a trilha
Levam-me
Por labirintos sufocantes e famintos
Lavam-me
As lágrimas ácidas e rancorosas
Nevam em mim

O dia mais triste tem a presença do sol
Amassando a pele
E não consigo mais sentir o vento
Varrendo meu rosto
Apenas as unhas da derrota final
Descarnando-me

A caneta pensa em escrever o poema
Mas desiste
E os versos na mente se transformam
Em vermes
Corroendo o baú de desejos e fugas
Pelos olhos

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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VAGA POSSIBILIDADE

Não me preocupo com a morte das flores

O tempo não me permite

As lágrimas estão em via de fabricação

E o céu cinza de agosto é premonição

 

Não me ocupo com as poeiras sobre a mesa

As palavras agora não se colam em papéis

O poema frequenta as redes sociais

Formando gangs na imensa virtualidade

 

Não vou me atirar de nenhum andar

Já tenho uma pedra alojada na garganta

E uma prisão de ventre pesando nas tripas

A úlcera poética sangra versos espinhosos

 

Não me assusto com os fantasmas sisudos

Arranhando meus sonhos em noites breves

Apenas me irrito com a vaga possibilidade

De perder teu carinho no próximo vendaval

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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OÁSIS

Assim que o vento sopra as cortinas

Eu me desnudo para poder ter amar

E sentir que a natureza é nossa aliada

E que a eternidade está dentro de nós

 

Enquanto nossos corpos se tocam na noite

Eu velejo pelos mares calmos da tua pele

Abasteço-me em pequenas ilhas espalhadas

Pelo teu corpo tão contido e tão infinito

 

Mas se acaso fantasmas do passado voltarem

Trazendo as gargalhadas de dor e incertezas

E a lista extensa de perguntas sem respostas

Esfregando em nossos rostos nossos temores

Confie em mim, podemos construir o paraíso

 

A cada beijo e a cada toque que se consome

Nessa dança voluptuosa em nosso quarto

Floresce uma árvore frondosa na alameda

Pela qual ainda passearemos de mãos dadas

 

Mas precisamos de mais flores para perfumar

Passeios contendo balanços onde brincaremos

Feito crianças felizes e portadoras de futuros

Imune às desconfianças que corroem a pureza

 

Precisamos cantar a canção que o vento ensina

E nos encantarmos com todo desejo que germina

Para cimentar as pedras que ainda estão soltas

E fazer do nosso lar o oásis em meio ao concreto

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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O FRIO DO CORAÇÃO

 

Dias tristes entram pelas frestas da janela
Você não se cansa de enxugar as lágrimas
O espelho não lembra nada dos bons tempos
E as coisas, tão brutas, estão trancadas em si

Não neva sobre a casa em solos tropicais
Mas o frio no coração é cortante e insano
Parece que a pedra Invejada está dentro
Do corpo que vagou em busca de abraço

As bebidas sujas de bares em descartáveis
Não fizeram efeito na alma de pele fumegante
A noite é apenas o outro lado da moeda
Não adianta tentar se adaptar às trevas

Sonhos e pesadelos se misturam sem cessar
Dentro da mente que já não organiza a rotina
Pouco a pouco os amigos negarão seus rostos
E a solidão virá morar dentro dos olhos

Parece simples pegar tudo isso e guardar
Com as dores dentro do baú de volume infinito
Mas só quem tem o infortúnio como oxigênio
Sabe que lágrimas não se enxugam com lenços

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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POESIA E SEDUÇÃO

Loucura e paixão

Na noite desnuda

A pose do corpo

A posse consentida

E a vida respira

Sob suspiros e gemidos

 

A lua lá fora em silêncio

Apenas a brisa

Contra a vidraça

Enquanto rabisco versos

Na tua pele em alerta

Possibilidades abertas

Para paraíso ou inferno

 

Nesse teu olhar

Entregando-me um convite

Vejo as chamas que fazem

Ferver meu sangue

Em torrentes de volúpia

E eu não sei mais

O que é poesia, o que é sedução

 

 

 (CLÁUDIO ANTONIO MENDES)

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O VENTO NA MESMA DIREÇÃO

Eu quero ser feliz contigo em lugares

Distantes

E te adornar com os mais belos colares

De diamantes

Onde se cruzam os nossos olhares

Excitantes

Se beijando sob os mais belos luares

 

Pena que todo sonho azul no amanhecer

Acaba

E toda a magia que a gente vier a tecer

Desaba

Sobre a ilusão de que é possível ter prazer

E se gaba

De, ao menos por segundos, viver

 

E o sol, no meu quarto, além da janela

Se descortina

O vento na mesma direção leva a caravela

Rotina

E a realidade pelas estreitezas da viela

Assassina

A fantasia que torna a vida mais bela

 

(Cláudio Antonio Mendes)

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CINZAS

Assim que tudo se transformar em cinzas

Vou encher meus pulmões de gases tóxicos

Mas a lembrança que lateja em meu cérebro

Dá-me a certeza de que nem sempre foi assim

 

As manhãs de sol preguiçoso no lado leste

E a feira nos vendendo frutas e convivências

Tangendo um viver tão simples e tão sincero

Fragmentos de um céu possível entre os montes

 

As tardes de trabalhos e observações quando eu

Esse eu que talhou madeiras e palavras em versos

Para construir o mundo objetivo e subjetivo

Para amparar corpos e almas da minha espécie

 

E as noites que chegavam sem nos amedrontar

Sem precisarmos lutar contra nossas sombras

Ou então viajar pelo portal de um copo de veneno

Em bares ou em lugares nada recomendáveis

 

O cinza da aridez de uma paisagem que morreu

É tudo que tenho além das doces lembranças

Em dias que o pão não passa de uma saliva seca

Engolida junto com a lágrima que desceu ao acaso

Pelo sulco no rosto que já recebeu carícias de tuas mãos

 

(CLÁUDIO ANTONIO MENDES)

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NO INTERLÚDIO

 

Verter lágrimas no interlúdio de dois beijos

Para diferenciar os encontros entre os lábios

Pois cada beijo tem sua história ainda que

Aprisionados a um mesmo encontro

 

Nem você e nem eu sabe explicar o amor

E muito menos o que nós dois sentimos

Apenas nos entregamos à magia que surge

Entre nossos olhares no findar do dia

 

Conhecer a verdade não vai ajudar o vento

Que sopra sobre a pele acariciada pelas mãos

Fazendo as certezas se perderem num turbilhão

Que se forma na mente em busca de uma razão

 

Nem a noite e nem a ampulheta quer saber

Do tempo que costura os nossos momentos

Formando uma colcha de retalhos e encantos

Para cobrir nossa timidez e toda intimidade

 

(CLÁUDIO ANTONIO MENDES)

Saiba mais…
CPP