Posts de Paulo Sérgio Rosseto (414)

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SOBRE O TEMPO

Desconfio que algo diferente acontece

Penso ainda ser moço apesar dos noventa

Consigo flanar sobre o tempo como antes

Apesar de que por tantos modos é verdade

Tenho perdido o interesse e a esperança

 

Desconfio trazer os passos mais lentos

A memoria lerda que nem lembra o que sinto

As mãos inábeis e maneiras desconexas

Porções de amor escondidas nas gavetas

A cama imensa onde comigo ninguém deita

Olhos que não mais evitam mostrarem-se aflitos

Aflições que admoestaram e se foram

Mas deixaram o peso preso aos ombros

Arqueados dos reparos e conflitos

Palavras praticamente inaudíveis ao vento

Que ao invés de serem ditas ficam presas no ventre

 

Se há grito nem ouço e se escuto não choro

Quando choro disfarço a lagrima que rola

Dependo de ti que me venha ao encontro

Que me põe no leito e dele me levante

E abra os braços e entre eles me encontre

 

Apesar dessa desconfiança

Nada mais me espanta nem entedia

O que me resta é rir dessa comédia

 

PSRosseto

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PERDIDAMENTE

Viver cantando assim a toda gente

É delicadamente tatuar no peito

Todas as maneiras de ser romântico

Dividindo o amor intensamente

 

Entregar à flor o brilho de um sorriso

Recostar felicidade onde houver choro

Construir sonhos de paz em plenitude

Recolocar a esperança onde preciso

 

Reacender e reviver cada momento

Buscar discernimento e maturidade

Mantendo-me eternamente menino

 

Ser instrumento e som dessa necessidade

De me enamorar por ti a cada novo vento

Perdidamente amando-te a todo instante

 

PSRosseto

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ACESAS

A lua

Acesa assim

Radiante e única

Densa

Desejosa aquarela

 

Você praia de areia

Restinga e capim

Espuma da onda

Aureola

 

Eu pedra do mar

Encharcado da luz

Dos teus olhos

Fotografando

As cores dela

 

Suave brisa

Noturna canção

De beleza rara

 

Duas minhas paixões

Tu e ela

 

PSRosseto

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ESTROFES

A insistência em compor estrofes
Recolher palavras e dispor
Uma a uma em cada verso

Peneirar ideias
Externar sentimento
Desenhar emoção
Passa ligeira impressão
De que ainda haverá
Melhor poesia
A qualquer momento

Ah esse exercício incessante
Sem explicação ao perfeito
Torna-se vício

Escrevo e esqueço
Depois releio e me encanto

Por isso atrevo a continuar fazendo
Cada poema que faço

 

PSRosseto

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INFINDÁVEL

Minha caravela singra solta em seu mar.

Velas içadas fartam-se aos doces ventos

Passeiam destemidas em suas profundezas

Sentindo livre o suave sabor de navegar.

 

Quando cruéis noites de inverno castigam

Necessito corrigir o rumo, tornar preciso

O equilíbrio exato entre as ondas e o cais

Ou ante as calmarias que a tudo desligam.

 

Sigo assim solitário em ti recitando a loucura

Entre não retroceder ou arriscar a deriva

Parecendo infindável e eterna a procura.

 

Marujo, a um só tempo capitão e timoneiro

Sou eu o leme, a ancora, o casco e a estiva

Dessa indelével nau da qual sou passageiro.

 

PSRosseto

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DESCALÇA

Esse tapete da sala

Nessa casa tão vazia

Em que você pisa descalça

Chama suas verdades

E você entedia

 

O sofá por onde deita

A cama em que namora

Hoje vai estar sozinha

Pela vidraça da janela

Seu olhar sai e passeia

 

Tudo de você me procura

Tudo em você me anseia

Porque sabe que a distância

Vigio os teus segredos

E você adora

 

PSRosseto

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SAUDADE

Não seria solidão

Simplesmente uma ausência

Dessas que a gente ganha

Quando se desmancha

Aquilo que a gente sonha

 

Na verdade é saudade

Dessa que se instala e apossa

Dói e continua doendo

Arrasta-se por um tempo sem fim

E permanece corroendo

 

Nem dá tempo de pensar

Quando vê já está sofrendo

Às vezes demora passar

Mas não seria solidão

E sim somente ausência

 

PSRosseto

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ENGANO

Algum som

Grita dos confins

 

Voz que chama

Que declama

Benfazeja voz

Que pelo universo

Espalha-se

 

Mesmo que paciente ecoe

Tao perto de mim

Eis evidente o despreparo

Engano do meu ser:

Embora insista achar

Que Tua presença

Seja só um vento lá fora

Provas-me a crer

 

Às vezes não ouço nítida

Por entender que moras além

Dos interesses que mantém

O pouco que consigo escutar

Para bem sobreviver

 

Mas dobro-me

Sempre que meu espírito canta

Ou minha hora chora

 

PSRosseto

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DETALHES

Existem coisas que a ninguém jamais contei

Mínimas porções que parecem insignificantes

Que o tempo se encarregaria de guardar e resguardar

Em cantos mínimos da memoria

 

Mas a você digo com intensa naturalidade

Que até parece estar recompondo detalhes

E revivendo determinados momentos

 

Assim trocamos impressões cotidianas

E vamos confessando e nos aprendendo

E nos apaixonando por nossa própria historia

 

PSRosseto

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NOITE LENTA

Demoram as ideias a entenderem

Que não estás

Que não vens

Que não sabem por onde deitas

 

Demoro eu a perceber

Que a solidão me desfaz

Arrebenta-me

Intranquiliza e me aquebranta

 

Mas sabemos que não precisamos

Tocar-nos para estarmos completos

Tão repleta é nossa sintonia

 

Abraço-te na distancia e te envolvo no abraço

Que só existe no lado interno do peito

 

Deixe que as horas lerdas se sucedam

E que a noite lenta retarde meu sono

Assim mais e mais te sonho

E te imagino tão perto

A ponto de estar em ti

Apesar do abandono

 

PSRosseto

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AMOROSIDADE

Assim

A quero em mim

Singelamente pudica e audaz

A quero em mim

Como se nada soubesse e tudo escondesse

Segredos mentiras beleza

A leveza do seu corpo metido em êxtase

Assim a quero em mim

 

Vem

Pois quero tê-la em mim

No despojamento da alma que ama e traz amor

Aquela que descompromissada se dá umedecida

Absolutamente amante desperta sensações

De navegar voando e voar parada

A quero em mim

Assim, assim

 

Amada

Sou sua castidade, sua prescrição

Não há maior paixão, tara

Dá-me alucinada seu folego, sua maldade

Faça-se em mim

Assim, assim

 

PSRosseto

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PENSAS E SENTES

Sei de cor as palavras

Que gostas de ouvir de minha boca

Da fragrância do perfume que te inebria

Da cor que te atrai

Aroma que te desperta

Dos pontos que te põe ansiosa

Quando minha mão te toca

 

Dos teus gostos refinados

Teus desejos mais secretos

Tua fé inabalável no deus que acreditas

 

Tuas doces vaidades

Tuas doses de alegria

Conheço-te tão própria e intrínseca

Com tal e qual intensidade

Além do que de mim mesmo saiba

Pelo que pensas e sentes

 

Amo-te cara poesia

 

PSRosseto

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APEGO

Todas as palavras de benquerença

Traduziriam talvez pequena parte

Do zelo que aprendi a dedicar-te

Desde que convivemos

 

Sigam os sonhos adiante

Como tem seguido a sina

Cumpra o sol o seu destino

Reacendendo incontáveis dias

 

Passaremos pela vida fortalecendo

Dividindo alegrias bons momentos

E nas frágeis horas de tormentas

Estaremos inquebráveis

Enfrentando os ventos

 

Amo-te assim secreta e cegamente

Nesse particular e delicado apego

 

PSRosseto

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MENININHAS

Elas brincam de ciranda em volta da vila

Dão-se as mãos

Pulam amarelinha

Cantam modinhas

Balançam na gangorra

Passam anel

Se escondem escondem do mundo

 

Jogam peteca e bola de meia

Contam estrelinhas

Lambem a lua

Tomam sorvete com caramelo

Lambuzam-se de chocolate

Lacrimejam

Ardem de lampejos

Beijam-se carinhosamente quando se veem

Entrelaçam os olhares

Solfejam cada uma das notinhas

Recitam as letras do alfabeto

 

Assim fazem nossas menininhas

Dos olhos quando se cruzam

Loucas de desejos

 

PSRosseto

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PEDAÇOS DE MIM

Aparentemente quando recolhemos os cacos

Damos a entender que estamos alquebrados

Divididos ao meio, prostrados e tortos

Fadados ao desterro, condenados e em desespero.

Não são estes os pedaços de mim que desejo evidentes

E sim os de contentamento e profusa exaltação.

Bem aventuradas partes do meu ser quando trazem contentamento

Bem aventurados momentos do meu tempo que produzem alegrias

Bem aventuradas as horas do meu dia que constroem otimismo

Bem aventurados os olhares que transmito, os silêncios que distribuo

Bem aventuradas as palavras que propalo, as ideias que espelho

Bem aventurados os segredos que te conto para teu discernimento

Bem aventuradas as lições que retribuo quando aprendo o que ensinas

Bem aventurados os apelos que te faço para que também melhores

Bem aventuradas as paixões vivenciadas escolhidas como pérolas

Bem aventurados todos os nossos encontros e os diálogos que mantemos

 

Sejam benignas as porções que me reparto

Os fragmentos e estilhaços que por mim tocam teu ser

As frações que te alcançam e complementam

As fatias que se somam aos prazeres que te acrescem

 

Porque és parte

Somamos pedaços

Unindo ao todo o que nos torna então inteiros

 

PSRosseto

Saiba mais…

DIA A DIA

Delicie-se com aquilo que mansamente

Acaricia teu ego

Seja um pensamento

A lembrança de um vivo momento  

A presença de um sentimento

De uma saudade macia

Dessas que te põe perdida

De vontade de perder-se novamente

 

E quando estiver assim envolta em pura poesia

Dê-se ao consentimento da eterna delícia

Agarrada a si mesma

No íntimo contentamento

Digno das soberanas deusas

Ou da mulher que labuta e enfrenta a lida

Como qualquer pessoa dia a dia

 

Assim conseguirá saborear primorosas horas

Deliciadas ainda que na reclusa solidão

E se divididas com alguém que te apraz

Poderão talvez ser igualmente intensas e vividas

Abençoadas por também estarem sendo repartidas

 

Experimente embriagar-se de toda maneira

 

PSRosseto

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BANHO DE CHUVA

Era bom passear na garoa

Saltitar poças após qualquer chuva boa

Molhar-se na salseira mansa

Encharcar no aguaceiro de final de tarde

Coisa de criança, brincadeiras da adolescência

Que permanecem na memoria

 

Corríamos na velocidade das enxurradas

Melados de lama, cantando feito pássaros

Correndo pelo barro revolvido

Pisando descalços o capim ensopado

Balançando galhos

Roubando as flores molhadas no jardim

 

Nascia uma fina sintonia

Entre nossa liberdade e alegria

E as nuvens

Encantada meninice que inocentemente fluía

Sem explicação

 

Agora temos medo da molhaceira

Qualquer molhadela nos põe tensos

Presos à pressa, broncos com a agua a escorrer

Que não passa e não nos deixa passar

Andar, caminhar, correr

 

Nos esquecemos de morrer

De rir largados na chuva

Tão disforme e aguada tornara-se nossa vida

 

PSRosseto

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PROSSIGO

Passam os pássaros tagarelas

Um pouco acima dos fios

Resvalando nas pontas das árvores

Rasantes sobre telhados

Em algazarras pelas janelas

 

Brincam de voar no centro do sol

Em círculos similares

Sem pedir licença pela barulheira

 

De tanto vê-los assim acesos

Voa também o meu pensamento

Além do peso da consciência

Sobre as nuvens da ignorância

 

Enquanto espalham-se à beira da fonte

Uns continuam voando sem parar

Prossigo a pensamentar

 

PSRosseto

Saiba mais…

OS TEUS OLHOS

Os teus olhos

Me veem iluminado

Mas olho aqui dentro

E tudo está escuro

Pardo

Cercado por um muro

 

Adentro-me

Desencontrado dessa luz

E cego assim

Não me enxergo

Tateio

Embaraçado em virgulas

 

Tua piedade no entanto

Insiste renovar-me

Resgata meu cansaço

Mostrando insistente

Generosamente

Meu ser em teus braços

 

Teus silenciosos olhos

Na verdade

São donos de mim

 

PSRosseto

Saiba mais…
CPP