Posts de Paulo Sérgio Rosseto (411)

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RESILIÊNCIA

Tanto vaguei pela beira do cais

Que em minha veia corre agua salgada

A carne tornara-se restinga e areia

E os músculos raízes no lodaçal do mangue

 

O coração petrificara com a mente

Os poros vertem limbo e maresia

E os olhos já nem se importam mais

Se ainda é noite ou outro dia

 

Da garganta surge o urro das ondas

E a língua lambe as pedras de apoite

Entretanto não me faltam silêncio e ar

 

Sim, o puro oxigênio que dança minha espuma

Adaptou-me a ser teu rumo e horizonte

O mar por onde teu barco navega e se apruma

 

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CONTRIÇÃO

Senhor, nesse momento de incertezas vãs

Piedade primeiro aos teus servos desolados

Abandonados pelos teus propalados pastores

 

Estes, trancafiaram-se em suas mansões e palácios

Isolados nas catedrais, reclusos pelos mosteiros

Retidos nos templos, escondidos nas igrejas vazias

Como se longe das ruas fossem intocáveis e salvos

 

Afugentados do mundo enclausuraram em seus espaços

Contidos em suas túnicas, batinas, sobrepelizes

Enforcados por seus cíngulos longe das ovelhas

Envoltos das estolas e dalmáticas

Vestidos das casulas e ternos assustados

Encarapuçados de suas mitras e ricos solidéus

Mas despidos da franca humildade do ser amado

 

Estes homens que tanto bradavam ‘vendo-te os céus’

Clamam desgovernados por seus próprios cajados

Astutos implorando o perdão dos pecados

Mas sem coragem de ir vê-lo face a face

Tanto oram e ainda quedam-se duvidados

Blasfemando a perda da moeda da fé

 

E a mim, Senhor, nu pecador confesso

Que de tanto nega-lo até nem sei e nem entendê-lo posso

A mim nada peço exceto que descanse

Longe das sombras do assombro desses falsos bons moços

Para que possa com teu povo lutar por um mundo novo

 

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ISOLAMENTO

É outono e o trópico ignóbil

Vira-se fútil e sem tempo

Reprimido em quarentena

Os dilemas da ultima estação

 

Talvez nem haja primavera

Caso o inverno venha perverso

E acirre o espirro do medo

Intensifique a eloquência da tosse

E em brasa a febre da sorte

Encerre o brilho dos olhos

 

Somente o amor perambulará pelas ruas

Em vigília aos pasmos amantes

Dentro de casa

 

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CANÇÃO DA GENEROSIDADE

Embriagai-vos de generosidade

Pois é chegada a hora de serdes abundantemente fraternos

Mas de uma fraternidade clara, translúcida

Impropria para os inconvenientes

 

Lá no sertão da alma

Quando arvorece a complacência

Doar aflora todas as definições de humanidade

E nos tornamos luminosos e iluminados

Preciosos e mais livres até no olhar

 

Doai do que vos farta

Fartai-vos dessa singela alegria

Afinal ainda é manhã e a hora propicia

 

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SEM PODER CHEGAR

Já não posso ir

Sair é um fosso fundo do poço

Inacreditável surreal

Indizível destroço

 

O homem se esconde do mundo

Completamente impotente

Nada mais é importante

Diante do incomum

Nem a hierarquia dos anjos

Nem a comunhão dos santos

Nem o descredito ateu

 

Nada se faz mais tosco sobre a terra

Senão a incerteza da espera

Ante a ciência da humana miséria  

 

Talvez haja ainda uma era

Um tanto menos vulgar

Em busca de caminho

 

Já não posso ir sem poder chegar

 

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ESCRITURAS

Há de vir a qualquer tempo e de qualquer lugar

Grafado em letras garrafais ou mesmo entrelinhas

Algum pingo num i da consciência sincera e justa  

Que releia todos os seres inclusive o homem

 

Conforte no enlace da solidariedade cada criatura

Aplaque se necessário o amargor da caminhada

Ensine justamente o contrário do que se apregoa

Sobre a contenda e a labuta didática da árdua disputa

 

Possa intercalar no suor do rosto o sorriso farto

As expressões da agonia à menor dor possível

Para que se cumpram as profecias pela forma amena

 

Pois tudo é passagem e se esvai na mesma onda

Dilui-se constantemente sem qualquer retrocesso

Ao que venha interpretar ao ler toda palavra escrita

 

 

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O TEMPO E O COPO

Há momento de rudez assim emborcado

Um copo liquidado sobre o mármore frio

Liso corpo transparente e sem vértice e cabo

Que nós mesmos o deixamos quieto e vazio

 

Nem jarro nem taça nem cálice ou xícara

Apenas comum instrumento sem alça

Que as mãos o levam raso ou cheio à cara

E mata a intensa sede da língua e da boca

 

Depois do bebido e não mais necessário

Aguardará pela própria água ser limpo lavado

Enxuto para outra vez pelos lábios ser usado  

 

Se descuidado cai e parte-se em pedaços

Feito o tempo sem proveito desperdiçado

E jamais alguém poderá unir-lhe os cacos

 

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FEITOS DE MEDO

Por um tempo estarei sem teu beijo

Sem abraço

Sem aperto de mão

Porque os tempos são outros no momento

E maldosamente nos impõe distâncias

 

Não me desapego fácil dos costumes

Mantenho colado aos laços os nós do coração

Por isso não entendo desses modernos avanços

Essa forma de conviver sem a relação que nos une

E pune por razões que nos invadem o ego

 

Estamos sendo feitos de medo

Só não posso desagregar

Da retidão dos teus passos

 

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A DÚVIDA DA FÉ

Se habitas os seres e não respondes por seus atos
Se conduzes aos destinos e ignoras-lhes os rumos
Se os caminhos apontas mas os deixas a deriva
A quem a ti se apega e crê no amor divino
Deveriam tornar-se ateus ou permanecer insanos?

Quando a verdade farfalha entre a dúvida da fé
Ensina-nos então a solidão de ser deus
Para que consigamos ser menos radicais
E talvez mais humanos

 

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PLENITUDE

O que deseja o ser senão a vida

Cotidiana

Em plenitude e soberana!

 

Por isso o universo movimenta-se

No entorno do perfeito

Respeitando os limites e ciclos de cada espaço

 

E tudo o que há disforme, sara

Cura senão pela mão do homem

Sob a luz do divino

 

Melhor vive quem acredita, renasce, revigora

Quem busca no sacrossanto tempo

O sonho lúdico da natureza humana

 

E aquele que apesar das agruras do mundo

Mantem-se conectado ao cosmos

E a ele se irmana

 

Sim somos física matéria

Mas sobretudo alma

 

 

 

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TODO TIPO DE CANTO

Eu me encanto quando ouço

Todo tipo de canto

 

Há momentos no entanto

Que simplesmente a voz embarga

Por não saber ouvir ou não poder cantar

Ou se solta entorpecida no acalanto dos tons

 

Talvez eu não me veja tão alegre cantarolando

Nem esteja triste quando ando emudecido pelos cantos

Acontece que os dias são assim um tanto diferentes

E a gente se põe mais intimamente sensibilizado

Entre estranhos sons de desencantos alegrias ou torpor

 

Ainda assim haverá sempre um suspiro

À espreita de qualquer enunciado de canção sendo ouvida

E uma cantiga ensaiando a própria melodia pronta

Demovida da garganta afinada de um cantor

 

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CIRURGICAMENTE IMPOSSÍVEL

Se Bianca ao meio partisse o meu peito

À procura de consertos nesse coração

Diagnosticaria saudades e segredos

De difíceis acessos e manuseios

 

Se Vitória auscultasse tomando meu pulso

Sentiria navegadas no interior da aorta

Chalanas repletas de alegrias ancoradas

Nessas vísceras arritmicamente quase mortas

 

Se Laís anotasse meus sinais vitais

Assustaria com esse íntimo transbordado

De diletos momentos e intensos amores

Misturados a prazeres e algumas dores

 

E se todas descontentes buscassem opinião

De alguém ponderado e bem mais experiente

Ouviriam: precisamos lhe nascer novamente

Dessa velha carcaça soçobraram defeitos

 

Mas o espírito, esse a gente bem poderia

Arquiva-lo translúcido no armário das almas

Onde nenhuma ilusão sequer tem acesso

Exceto a poesia, porque esta é completa

 

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ENTRE AMOR E AMANTES

Sempre ouvi dizer

Que a noite é dos amantes.

Mas posso amar antes?

  

Antes que a lua nasça

Amar seria pecado

Ou só sem graça?

  

E se estivermos amando

Ao chegar o sol e o dia

Continuaríamos?

 

Amar sem reservas

Preservaria os amantes

Dos não amores?

 

Quem sai e quem vem

Jura amor que renasce

Amando ou amante?

 

Ser toda forma

De amor permissível

Será possível?

 

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ORATÓRIA

A boca molha e clama ardentemente
Pela outra boca

Cobiça, profana
Deseja o absoluto
Declama o encanto, recita e canta

Cala enquanto a outra fala
Fala de si quando a outra cala
Passeia os lábios, ri da interlocutora
Sonha com o beijo arteiro que a quer beija-la
Saliva, anseia, pela ideia acesa
De tomá-la presa pela língua morna


Até faz caras ante um bocejo
Solta a voz se a garganta grita
Retém os sons quando sussurra
Por vezes urra e engole a borra
Do apregoado choro quando magoa

Ah, a boca sabe a exata hora
De rir sem graça ou gargalhar
Rasgar os dentes se necessita cuspir
Reter aflita o ar por alimento


Mas sobretudo ora e elogia mais que maldiz
Pois pela reza fomenta o fôlego
E todo o ser que a tem se curva
Nesse místico momento

 

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FEMININA

Tua idade desconhece que a tens.
Acha-te criança com olhos de mãe,
Deita-te adulta certas horas por dia,
Debela as tuas orelhas e menina te põe
Sempre que teus desejos
Rechaçam e tua consciência folia,
Rebobinando íntimas imagens
Dentro da tua retina.

Assim te fazes feminina mulher
Com mais fases sequer que as da lua ariana:
Tão exposta e ímpar que a si própria encanta,
Mesmo oculta vive santa e insana
Intensa e absoluta em sua resoluta rotina.

 

 

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A SENSAÇÃO DE TOCAR ESTRELAS

Estou tão desacostumado de olhar horizontes
Que é como se estivesse desaprendendo de navegar

Nenhuma direção de vento me demove
Nenhum balanço de embarcação me faz assustar
Não sinto mais o salgado sabor dos respingos
Estou sem rumo, vou para onde o barco apontar
As correntes guiarem o casco
A vela distorcer e inflar
Levar para qualquer ilha
Parar em qualquer ilhéu
Rodopiar entre as ondas
Afastar-me do cais tanto faz

Amor, dá-me outra vez a sensação de tocar estrelas

 

 

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REAPRENDIZ

Eu passaria novamente pelos mesmos caminhos
Inclusive repetindo todas as curvas que dobrei
Revendo quedas e descidas de esguias ladeiras
E também por elas voltando aos topos que já pude alçar

Tomaria ainda os mesmos atalhos das estradas vicinais
Talvez até conseguisse ainda encontrar destrancadas  
Cancelas que larguei abertas para você passar
Ou que alguém deixara livres a quem optasse ao regresso

E caso retomasse tais caminhos e não conseguisse
Novamente reencontrar todos os que comigo vieram
Duas certezas de pronto me caberiam: ou seguiram
Em frente e o promissor destino os tomou de abraços
Ou desgarraram por outros rumos dos quais desconheço

Eu passaria ainda que tardio e sobre destroços
Novamente pelos caminhos repetindo as margens que vaguei
Mas desta vez evitaria ao menos parte dos tombos e tropeços

Reaprendendo as chances, colando pedaços

Com as gomas que o próprio tempo me ensinou fazer

 

 

 

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AMOR E AMIZADE

Todos os amores me foram dados:

O de mãe sem qualquer mensura;

Esse permanente que nos escolhemos amantes;

Filial, imerso na evidente cumplicidade;

Entre irmãos, pela conjuntura rara;

Do meu pai, insigne e justo de eternidade

Sempre intensos, límpidos, vorazes

Transparentes de mil formas

 

Possível seja, claro, que não tenha eu tanto amado a todos

O quanto amaram-me sem cobrar reciprocidade em nada;

Pouco desarmara o espirito quando necessitara

Enxergar no derredor a generosidade que se exige

De qualquer amante para que o amor se faça

 

De todos os amores que me foram dados

O que nos sustentara, vivifica e não passa

Dignifica-se a alicerçar-nos na fraterna amizade

Que a seu tempo jamais finda, se replica

E recomeça, por ser ela o elemento principal da alma

 

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MOMENTOS

Distintos momentos
Dou-me ao prazer de busca-los nesse labirinto
Em algum lugar entre tardes e auroras

Quando ainda que equidistantes
Os construo num mínimo horizonte
Tantos em meu passado
Estes por agora
E quiçá outros à minha frente
Entendo que viver é não importar-se com o quanto
Mas sim que possivelmente se fizer por onde

Sei não sou eu o centro do universo
Mas cada gesto meu é portanto o que interessa
E qualquer préstimo que me tenha por resposta
Do pouco que faço pelo que talvez ainda assombre
Velar gratuito o sono dos meus entes
É sempre o mesmo que enquanto também durmo
Renascer contínuo de um ser tão puro que me apresta
A melhor ser todo o tempo que acordado
Puder enobrecer o amor que nos sustenta

 

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INSPIRAÇÃO

Deveria não vê-la todos os dias

Até perder o medo da saudade

Deixar de imaginar possibilidades

Excluir da rotina toda mania

Desvincular a ousadia de acreditar

Que tu ou dormes junto às estrelas

Ou vives entre todas para incandesce-las

Apagando a máscara azul do firmamento

Para que na densa negritude eu possa vê-las

 

Para o momento um bocejo

E mais tarde um banho de sereno

Tornará suave esse fardo de exageros

Enquanto rezo benfazejo

Os sacros ofícios das vésperas

Mastigando as contas de um rosário

Aguardo-te peregrina e eu romeiro

 

Eu sou a guia que se serve da cegueira fria

Dentre vocábulos antológicos de um dicionário

E tu meus dedos que te reescrevem candeeiros

 

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