AOS INOCENTES DO MAL DO AMOR
Ali é onde todo a dor principia: rosa-dos-ventos desnorteada em trilhas de desencontros, numa convulsão idílica e trágica de setas apontando rumos antes lilases, mas já em roxos convertidos. Às gradações de romance e de paixão, de ternura e de sedução, impuseram-se as sombras dos olhares enviesados e das palavras atravessadas na garganta – setas varando magoados corações, setas vazando olhos para qualquer futuro do que a vida prometera em sonho. E tudo que era ouro em chumbo foi pesado. Invertida alquimia vaporando ácidos em que se queima o mútuo bem-querer.
Ali é onde toda a dor principia: densas sombras engolindo claros no desenlace das mãos. E a alma se precipita em buracos negros de solidão, quando os tempos pretéritos não vencem a tardança do porvir; e o caos pulveriza, absoluto, a paisagem da vida que se queria. Há soluços sufocados em silêncios. Há escuridões amortalhadas de entardeceres. Há impulsos moribundos transportando andores de adeuses. Há desoladoras velhices carpindo a infância das ilusões. E morrem as antigas teogonias do amor. Decaídos, os anjos de asas quebradas e sem aljava nunca mais se erguerão àqueles céus.
Ali é onde toda a dor principia: fresta nas certezas para o transbordamento do enigma da destinação. Esfinges que se despedaçam num conhecimento que se arremete num curso inexorável: a verdade. Uma vontade dissolvida em ondas para se desdobrar em fluxo ininterrupto espraiado em golfadas de choro até se esgotar a dor de se ver expatriado do outro peito onde dormia alma de quem ama. Só assim os olhos podem, livres de todo véu, contemplar um rebrilho de extinta luz – estrela em noite tétrica– capaz de avivar a compreensão de que tudo nasce para morrer, a fim de aprender pouco a pouco a transcender a efêmera natureza do amor num cíclico renascer de si mesmo.
Ali, no estrangeiro ser amado, todo o amor se acaba e toda a dor principia para a individuação da verdade no coração humano – caminhar sozinho de volta para si mesmo é buscar o rumo para amar de novo, mas um amor diferente, sem pergunta nem resposta. Já não há o que pedir, pois que se está pleno; já não há o que cobrar, já que nada se deve.
Aqui é onde a dor foi vencida; e o amor passa a existir em estado de graça, um amor que se ama.
(E. Rofatto)