Posts de Edvaldo Rofatto (92)

Classificar por

Aos inocentes do mal do amor

   AOS INOCENTES DO MAL DO AMOR   

   Ali é onde todo a dor principia: rosa-dos-ventos desnorteada em trilhas de desencontros, numa convulsão idílica e trágica  de setas apontando rumos antes lilases, mas já em roxos convertidos. Às gradações de romance e de paixão, de ternura e de sedução, impuseram-se as sombras dos olhares enviesados e das palavras atravessadas na garganta – setas varando magoados corações, setas vazando olhos para qualquer futuro do que a vida prometera em sonho. E tudo que era ouro em chumbo foi pesado. Invertida alquimia vaporando ácidos em que se queima o mútuo bem-querer.  

  Ali é onde toda a dor principia: densas sombras engolindo claros no desenlace das mãos. E a alma se precipita em buracos negros de solidão, quando os tempos pretéritos não vencem a tardança do porvir; e o caos pulveriza, absoluto, a paisagem da vida que se queria. Há soluços sufocados em silêncios. Há escuridões amortalhadas de entardeceres. Há impulsos moribundos transportando andores de adeuses. Há desoladoras velhices carpindo a infância das ilusões. E morrem as antigas teogonias do amor. Decaídos, os anjos de asas quebradas e sem aljava nunca mais se  erguerão àqueles céus.

  Ali é onde toda a dor principia: fresta nas certezas para o transbordamento do enigma da destinação. Esfinges que se despedaçam num conhecimento que se arremete num curso inexorável: a verdade. Uma vontade dissolvida em ondas para se desdobrar em fluxo ininterrupto espraiado em golfadas de choro até se esgotar a dor de se ver expatriado do outro peito onde dormia alma de quem ama. Só assim os olhos podem, livres de todo véu, contemplar um rebrilho de extinta luz – estrela em noite tétrica– capaz de avivar a compreensão de que tudo nasce para morrer, a fim de aprender pouco a pouco a transcender a efêmera natureza do amor num cíclico renascer de si mesmo.

   Ali, no estrangeiro ser amado, todo o amor se acaba e toda a dor principia para a individuação da verdade no coração humano – caminhar sozinho de volta para si mesmo é buscar o rumo para amar de novo, mas um amor diferente, sem pergunta nem resposta. Já não há o que pedir, pois que se está pleno; já não há o que cobrar, já que nada se deve.

   Aqui é onde a dor foi vencida; e o amor passa a existir em estado de graça, um amor que se ama.

    (E. Rofatto)

    música: "Ouça"

Saiba mais…

Bravo!

BRAVO!

Este, o mistério da criação:
A arte nasce do que é sublime em nós.
É a recolha do que nos faltava,
Parte reunida na mais perfeita fusão.
Estado de plenitude andrógina:
O sentido e a sentimentalidade.
O artista e a obra. A malga amada
De Dioniso no palco, na tela, na pauta,
Num tempo pretérito perfeito
Do indicativo da eterna juventude
Presente no espírito do artista
Sobrevivente a si próprio,
Ressuscitado na mente que o amou
E na obra que renova esse amor.
No seu segredo revelado em arte,
Ficou o bem tecido e oferecido
A quem está aqui, de onde ele partiu
E aonde sempre há de retornar
Em versos, cores, gestos e luzes
Que nos tornam prometeicos,
Portando a luz que nos remete
À Verdade, ao Belo e ao Bem,
Matéria de sua arte, sempre,
Refeita em muitas vidas.


(E. Rofatto)

 

música

Saiba mais…

Dolo

                                                                                                          DOLO

             A primeira vez que olhou aquela mulher soube que seria ela. Mas de si mesmo ele deixou de saber.

            Falavam pouco, mal se cumprimentavam durante o expediente no escritório e, fora dele, nunca se tinham visto. Mas os dias foram passando, e passou também a indiferença dela. Agora já era simpática e, quando conversavam, ela lhe sorria.

            Pensou que a felicidade lhe chegaria abraçada com o amor. Era muito jovem para aceitar que até os mais fortes braços um dia pendem cansados, inertes. Ficam esquecidos cada um de um lado. Sem se esbarrarem.

            Ele tinha pouco mais que 16 anos.

            Ela já beirava os trinta. Era casada.

            Porque nunca vira o marido, ele não se doía com esse vértice. Seus olhos passeavam pelas curvas sem intuir as arestas. Só via como era linda. Linda! Qualquer ângulo que houvesse seria atenuado por alguma mirabolante geometria. Por que uma terceira área com pontiaguda potência a ferir suscetibilidades? Ademais, se o interesse dele tinha um quê de platônico, o peso das renúncias seria sustentado por uma decisão forte como as omoplatas do filósofo.

            Mais dias cruzaram olhares e sorrisos. Por que a vida não tinha sido sempre assim? Tudo o que ele vivera até então desfazia-se: era dissipação de neblina ao calor do sol. E ela parecia gostar de ver o efeito da luz ardente sobre a alvura fria.         

            Se ela estava feliz, ele ficava feliz também, sem pensar nos três ângulos ponta-de-agulha. Difícil entender? Talvez por isso mesmo ele se deu ao sentimento sem fazer perguntas, sem buscar respostas. Tão vulnerável na sua inocência e tão veemente na sua verdade. Foi assim que ele soube que a amava de um jeito diferente.

            – Eu gosto de você.

            – Também gosto de você.

            – Não, você não está entendendo. Eu gosto de poucas pessoas. Mas eu gosto muito mesmo de você.

            Desde então, ele entendeu que só amizade já não lhe bastava. Queria mais que olhares, risos e conversas. Sonhava uma desconhecida alegria.

            Mas era tão diferente dos seus amigos! Queria que o desejo lhe nascesse na alma e depois estremecesse no corpo. Os amigos troçavam dele. Escolheu perder os amigos.

            Quis vencer os anos e se fazer mais maduro naquela tarde. Quebrou a casca da maturidade antes do prazo normalmente exigido. E o que escorreu era sofrimento. Nunca mais teria guarida dentro de si.

            Ele ficou sem entender o que havia acontecido de fato. Mas soube definitivamente que não haveria outra como ela, que lhe sorriu no espelho, enquanto se despia para fazê-lo vitorioso e derrotado ao mesmo tempo.

            Depois do sexo, não a viu de novo. Ela demitira-se sob a alegação de acompanhar os interesses profissionais do marido.

            Ele virou um sentimento encalhado na escuridão de um peito vazio de ressonância. E o deserto se estendeu mais e mais pelos seus dias, sem a luz dela. Questionou o que sentia, e nenhuma conclusão o socorreu. Nem a poesia. Como chegar a termo sobre "uma ferida que dói e não se sente", sobre "um contentamento descontente"?

            Quem sabe da brevidade dos abraços e, mais que isso, sabe da distância entre almas que nunca se abraçam, entende de melancolia e, à pergunta do poeta ("Mas, como causar pode, a seu favor, / Nos coraçõs humanos amizade, / Se tão contrário a si é o mesmo amor?), já respondeu no olhar ensombrecido.

            Nem sempre as palavras conseguem dizer tudo.

 (E. Rofatto)

Eu fui um tolo ao querer você (música)

 

Saiba mais…

Bonjour,Tristesse

  1. BONJOUR, TRISTESSE

Viúva dos rompantes de riso ruidoso, a Tristeza é uma prima-dona a desfilar, por íntimas avenidas, seu charme discreto, mas eloquente, trajando preto – sem dúvida.

Essa moça inclina-se lânguida sobre nossa mente, e seu véu, elegantemente desabado de diáfano chapéu, cai sobre nosso rosto, enquanto ela roça seus lábios de púrpura sobre nosso pensamento. Fatalmente terna e melancólica, o que tem de opulência esbanja em sedução.

Mais que leviana namorada romanticamente tolinha e engraçada, a Tristeza é uma amante sagaz e confiável. Seus gestos são pausados; suas palavras, pensadas; seus olhares, crispados – bumerangues que nos levam em seu dorso para trespassar a região mais vulnerável do nosso desejo, essa jaula de leoas famintas, prontas a defender suas crias nascidas da volúpia ou do ressentimento.

De lá, voltamos feridos de certezas, porque a alma proclamara quem é e a que veio.

Agora, sutil e insidiosa, sem pedir licença, essa dama, a Tristeza, toma seu lugar de honra no teatro da vida.

A partir daí, já não há apelação possível!

Saber-se triste repuxa uma cortina, encerra o drama e resserena quem vai se deitar com essa nova amante.

(E. Rofatto)

https://www.youtube.com/watch?v=MMeZPcjOaMs&list=RDMMeZPcjOaMs&start_radio=1 

Saiba mais…

Juventude

JUVENTUDE

15 anos! E não posso te entregar
A chave com que abrirá teu futuro.
Só posso te dar pistas e adiantar
Os desafios no confronto mais duro.

É assim que nos tornamos adultos:
Vencendo as difíceis lições de amar
Para entender que todos os tumultos
Diluem-se no ato de perdoar.

Vai calma e firme em tua trajetória.
O aprendizado é longo e o diploma
Não tem data marcada em sua história.

Mas o empenho para aprender o idioma
Da linguagem do amor te dará a glória
De viver livre de qualquer redoma.

(E. Rofatto)

Saiba mais…

Egípcia

EGÍPCIA

Mais bela guinada que de um farol
Alexandrino dardejando luz,
O desvio dos seus olhos tem do sol
A chama que àquele reino a conduz.

Entre figo e romã, delta e atol,
A tez, tâmara morena, reluz
Em meio ao repetido caracol
Que ao seu cabelo negro seduz.

Com perfil de alteza ou de esfinge,
Tem uma beleza a ser festejada:
Nada em seu rosto o comum atinge.

Cortejá-la além de data marcada
Decorre do bem-querer que a cinge,
Princesa do Egito, sempre bem lembrada.

 

(E. Rofatto)

 

Saiba mais…

Tacitamente

TACITAMENTE

Gasto e desacreditado,
O “Eu te amo” não foi seu.
Não foi preciso lhe dizer
Tudo que me consente
E o que eu próprio sinto.
Tem sido desse jeito
Assim tênue e inaudito,
Cruzando olhares e gestos,
Que temos atravessados
No peito tantos trajetos.
Se antes a direção vinha
De qualquer estranha estrela,
Hoje me guio pelo chão
Que pisa junto comigo,
Seja ele de pura terra
Ou de mais terna emoção.
E a cada passo mudo,
Lado a lado, mais sabemos
Não precisar dizer tudo.

(dez-2025)

Saiba mais…

Musa

MUSA

Régia safira líquida, o Egeu
Jorra colares desfeitos na areia
E esbate, em paredes brancas, alheia
Luz prateada, que empresta do céu.

No alto das gregas colinas, princesas
Pagãs tributam devoção nos templos,
Onde ardem oferendas e incensos,
Para que sejam estátuas de beleza.

Ganha Afrodite em sensualidade;
Diferente, a casta Ártemis atiça
O desejo que oculta, como Atena.

Mas beleza sem traço de vaidade,
Tão simples que toda deusa cobiça,
Vê-se apenas na natural Helena!

(E. Rofatto)

Saiba mais…

APAGAMENTO

APAGAMENTO

Derramada a cera,
Já extinta a flama,
O círio sem lume
Nas mãos de Psiquê,
Estática lança,
Lança estranha luz
E acende o espanto.

Anjo envenenado
Sem qualquer poção.
Ponta seca, a flecha
Indelével de Eros
Continua cravada.
Tão sutil, no peito,
Tão funda, na mente.

Ideia sem forma.
Corpo sem ofício.
Ainda é amor
O adeus que tingiu
De dor noites calmas,
Caladas, insones,
De almas apagadas.

(E. Rofatto)

31025734293?profile=RESIZE_710x

Saiba mais…

RETORNO

RETORNO

Num tempo que não se define,
Talvez se entenda a vertigem do que tento explicar,
Talvez nem se atente a qualquer explicação.

Quem as mãos juntou aprendeu a fazer
Desse simples aconchego
A arca da aliança que conhecemos.

É que voltamos ao primeiro jardim.
Quando daquela árvore provamos todos os saberes,
Éramos de novo inocentes.

Cada um fronteiriço de si,
Sem receio, cruzamos o portal guardado pelo anjo
Para saber quem éramos eu, você - e nós.

Assim veio a saudade de quem fomos
E de quem seremos: outra vez, castos e calmos,
Igual a quem colhe um fruto ao sol em oculta senda do horto.

Para lermos num livro velho novas histórias,
Ficamos crianças desde que nos conhecemos,
Eu, você - e nós, nesse perdido jardim restituído.

(E. Rofatto)

Saiba mais…

ANEL

ANEL

Meu pai não lia romances.
Comprou os livros porque sabia
Que ali a vida era outra.
Menino, conheci aquele “luxo”:
Capa dura, letras capitulares,
Fita de cetim e muitas figuras!
Ali as pessoas eram diferentes.
Usavam echarpes de seda,
Casacos de tweed ou casimira
E muitas intrincadas intrigas
Naquele mundo da mais alta classe.

Mas nós vivíamos na fazenda.
Sol, cana e cansaço em demasia.
Contudo, a vida que juntos escrevemos,
Sem iluminuras e cetins, foi de luxo.
Naquele dia, ele me chamou:
- Ela trabalhou tanto a vida inteira,
Me ajude a escolher um presente.
Quando soprou as velas e abriu a caixinha,
Minha mãe era uma criança feliz!
Meu pai não falou nada,
Mas eu ouvi seu coração sorrir.

(E. Rofatto)

https://www.youtube.com/watch?v=SRmD1fPuJk8&list=RDSRmD1fPuJk8&start_radio=1

Saiba mais…

PASSAGEM

Passagem

Quem cola o bilhete do tempo
Que nos leva de volta à infância?
Só queria ser passageiro
E poder visitar a minha criança  
Na velha casa de hábitos velhos.
Tantos anos castigam sua velhice.
(Castigam também este coração.)
O presente devasta o passado
Mais que o incerto futuro.
Está em pedaços o bilhete,
E estou só nesta estação.
Mas eu queria voltar para lá.
Entrar na casa. Ir para o quarto.
Deitar sob o cortinado.
Esperar ele vir clarear a noite.
“Bença, pai!” – eu pediria.
“Durma com os anjinhos.”
Ele diria antes de apagar a luz.
E a noite inteira ficaria azul
Como os olhos dele.

(E. Rofatto)

Saiba mais…

FELINOS

FELINOS

Rei ou servo? Ante o desejo, presa
De si mesmo na instintiva savana
Onde a lascívia cultua o combate.

Áurea tarde de âmbar do olho de tigre
Dilatando em urgência o felino
Anseio predador que ele todo era.

Veio a noite-pantera e arranhou-o.

De manhã, mirava ele a mesma leoa.

(E. Rofatto)


10026098100?profile=RESIZE_180x180Julie Newmar, atriz

Saiba mais…

REDOMA

REDOMA

Igual a quem vira páginas
Do fim ao início de um romance
Para reler emoções já vividas
Volto ao meu velho jardim.
Eu envelheci bem mais que ele
Com seus canteiros demarcados
Por úmido musgo e escura murta.
Aqui naquelas tardes de música
Dançavam todas as vozes
Dos ares das águas das árvores.
A vida não se ameaçava de mortes.
Igual ao colo de minha mãe
Aqui eu me aconcheguei
Ouvindo bater o coração do mundo.
Mas agora nesse silêncio
Dos ares das águas das árvores
Envoltas numa solidão sem alma
Que vozes dirão as tardes
Que anoitecem em mim?

(E. Rofatto)

Saiba mais…

VULGATA

8413859486?profile=RESIZE_710x

VULGATA*

Ave, palavra!
Asa da crença
Que alça voo
A cada letra.
Mas seu sentido
De palma e pedra
Cá dentro fica
E faz da mente
Igreja bíblica.
Ave, Jerônimo
Com seu leão,
Sua caveira.
Sua canção
Na língua antiga
Resume o mundo
A ermo arvoredo
De que até hoje
Eu me circundo,
Meu São Jerônimo.

(*nome dado à Bíblia traduzida, por São Jerônimo, do grego para o latim)

8405167884?profile=RESIZE_400x

 

Saiba mais…
CPP