Posts de Paulo Sérgio Rosseto (414)

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BORBOLETA

Ela me tomou pelas asas

E repousou-me no indicador em riste

 

Eu que estava triste

Fitei os olhos dela me observando

Deliciei-me em seu riso brando

Li seus lábios conversando

Gesticulando, contemplando

Comentando minha frágil pequenez

 

Sorvi o fresco suor de seu dedo

Matei minha sede

Repus energias

 

Senti que tornei seu dia mais feliz

Rocei as antenas num furtivo adeus

E voei

Voei

Voei

 

PSRosseto

Saiba mais…

ENQUANTO ESCURECE

Hoje não mais semeio

Pois é tarde

 

Deixarei para amanhã cedo

Depositar a semente

No seio do chão úmido

Com o frescor do orvalho

Que se fertilizará ao nascer do sol

 

Hoje arei a gleba

Alinhei a eira ao nível do solo

 

A noite baixará a poeira da seara

Seu virgo à espera do plantio

Estará fértil ao femeeiro

 

Agora merecidamente

Descansamos observando as nuvens

Que incendeiam no poente

Ardendo de desejo

Eu e a terra nua

Enquanto escurece

 

PSRosseto

Saiba mais…

EM ESTADO DE POESIA

Pela manhã a vontade de amar-te

Às vezes é mais forte que à noite

Mas noturna é a hora que engraça

Os amantes

 

Eu faço amor sempre de repente

Pois a sorte comigo me agracia

 

A todo o tempo sinto tua carícia

E em mim você se faz presente

Tão sagrada e profana

Que qualquer pensamento teu

Me delicia e inflama

 

Amo te amar

Permanente em estado de poesia

 

PSRosseto

Saiba mais…

A VIDA NOS MORDE

Cedemos conformados aos costumes

Tanto nos acostumamos que vira rotina

Repetir rotas

Cantar cotidianamente

As mesmas notas nos mesmos tons

                   

Convivemos com os buracos da rua

Com as goteiras da casa

Com os rasgos na roupa

O barulho do carro

A poeira no livro

O espelho sem brilho

A casa vazia

O coração fechado

A torneira que pinga

Os olhares surdos

Os chinelos gastos

Sapatos sem graxa

Muros altos

Portões trancados

Risos de fachada

Conversa sem rumo

Dor na coluna

Dente estragado

Falta de iniciativa e pensamento lerdo

 

Mordemos os dias e a vida nos morde

Se não cuidamos

Viver fica pra logo mais tarde

 

PSRosseto

Saiba mais…

UM BRINDE

Mais uma ou duas doses

Para curar a magoa

Estou seco em ausência de agua

Com sede e ainda que o desejo pese

Rezo para que algo me console

Apesar da significância

A carência de sua presença

Me consome sem guia

Põe disforme na estrada

Em que agora estou totalmente só

 

Ando em desequilíbrio

Ajo desnecessário

De nada me alimento

Exceto de seu ausentar

E desse nó reviravolto

Que nos amola

 

Sei que você também a essa hora

Derrama-se da mesma vontade

Recosta seu barco em mim

 

PSRosseto

 

Um brinde à solidão que nos devora

Saiba mais…

TUDO JÁ SEI

Fui ao futuro aprender como se morre
Porque da vida tudo ja sei

Morre-se de extenuado amor
De fome, frio, calor, apaixonado
Também da falta de fome e excesso
De paixão, solidão, mesmo que acompanhado

Morre-se de qualquer morte banal
Dessa que extrai a vida sem explicar
De surpresa, de repente, acidente
Até de arrependimento e contente

Morre-se de ilusão antes que esta morra
De idade, por verdades e de mentira
Inveja, infarto, palpitação, alegria
De um coração envenenado e ódio

Morre-se ao nascer e até antes
De ser qualquer ser que perceba
A razão do choro e a beleza do riso
A candura de um olhar inocente

Morremos todos por azar ou prazer
Ainda que não acietemos ser preciso morrer

 

PSRosseto

Saiba mais…

A POESIA DO MOMENTO

Sente a brisa que toca teus olhos

Contorna os teus lábios

Beija os teus pés

Alisa teus pelos

Enevoa teus céus

Entrelaça teus dedos

Arrepia teus poros

Massageia teus braços

Carinha teu pescoço

Orvalha tua pele

Perfuma tua cama

Inunda tua noite

Enlaça teu corpo

Tirando teu sono?

 

Essa mesma brisa

Doce leve e ousada

Também vem aqui em meu quarto

Povoar os meus sonhos

Agora de madrugada

 

Com ela me deito

 

É a poesia do momento!

 

PSRosseto

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PRESSAGIO

Hoje meus sentidos adormecem quietos

Os olhos teimam em permanecer fechados

Há um vazio imenso entre minhas mãos

Não ouço nem o silencio quisera teu som

A língua não prova nem doce nem fel

Não percebo nenhum cheiro pelo ar

Inerte, mal consigo manter o equilíbrio

Do lerdo exercício de respirar

 

Devo estar em fase de pressagio

Esse mau passadio é mais que preguiça do meio dia

Tem tantos nomes, tantas afinidades e distúrbios

Vai muito além da saudade, está após os limites

Corriqueiros e conhecidos da rotina diária

 

Desconforto. Essa a definição mais acertada

Que posso eu admitir estar sentindo já perto do coma

Vésperas da depressão

 

Preciso urgente de uma oração e duas cervejas

 

PSRosseto

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CORAÇÃO SERTANEJO

Pensar em ti é andar por jardins floridos

Perder-se em campos de dourados trigos

Passear por verdes pastagens

Cruzar pontes sobre rios amenos

Deixar a espuma das ondas lamber os pés

E os pés afundarem na coroa de areia encharcada

 

Andar por jardins floridos

Certamente seria pensar na cor dos teus olhos

Estar perdido em campos de trigo

É vê-la erguer e mudar os cabelos

Sentir-me a passeio pelas verdejantes campinas

É ter o privilegio de estar próximo ao teu hálito

Cruzar pontes sobre rios amenos

Seria observar teus comedidos gestos

E sentir a água e a areia é deliciar-me

Sobre a luz que evidencia quando me olhas

 

Vê como és natureza e desejo?

Inexiste qualquer outra forma ou maneira

De lembrar teu gracejo

Senão semelhar-te paisagens e sensações

Ao meu coração sertanejo

Repleto de sertanejas canções

 

PSRosseto

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CONVIVÊNCIA

Soltos sobre a cômoda alguns ícones

Alimentam minha consciência:

John Baldoni, Peter Cusins, James Hunter

Rupi Kaur, Spinoza, Thomas More

Goethe, Veríssimo, João Cabral de Melo Neto

Fernando Pessoa, Charles Baudelaire, Ezra Pound

Catulo da Paixão Cearense e alguns gibis da Mônica.

 

Assim a filosofia o protesto a ciência e a infância

Redesenham minha mente

E me disfarço de poeta em meio a essa gente

Imortal, consagrada e que vive ali

Abundante em generosa convivência.

 

Sobre minha cabeceira idêntica realidade

Pseuda fantasia, misto de certezas e abandono.

 

Na gaveta do criado-mudo

Irrequietos  repousam meus poemas.

Não são fáceis os momentos que antecedem ao sono.

 

PSRosseto

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MATREIRA

Há um quarto de lua minguante

Outro tanto dela crescente

Uma face bela e tão nova

E uma fase ousada e bem cheia

 

Tem noite que se retrai

Outras vezes ela incendeia

Perfuma agita e faz troça da terra

Que não sabe se a ama ou odeia

 

Prende os cabelos, solta as madeixas

Faz juras e queixas, invade as loucuras

Dos rios e dos mares, rasura as margens

Baixa e ergue as marés

Joga palavras, remoinha os ares

Treslouca excitada, extrapola, rebela

Se esconde nas nuvens, se disfarça em estrela

Abre-se inteira, líquida, sem mácula

Se delicia nas águas, goza faceira

E repousa e acalma igual à pétala rosa

Que gangorra cheirosa

Entre o lábio carmim e a língua vermelha

 

Lua matreira, tão calma e bonita

Tem pena de mim

 

PSRosseto

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DA JANELA DO MEU QUARTO

A lua recosta a testa na vidraça lisa e fria

E na penumbra abraça meus sonhos com clarinhos

Ela passa em visita por minha casa

E eu paro a vida para contempla-la

Nada existe mais entre eu e ela

Exceto a imensidão do universo

Plena e tênue luz que absorve

Envolta num labirinto de ondas claras

Me engrandece a alma nessa experiência

Entre a condição humana e o divino

 

Não é mera coincidência estarmos ali em sentinela

Nos observando mutuamente absortos

Eu viajando admirado em seu lume

Ela passeando acesa por minha morada

Com apenas um frágil vidro nos evitando

Como separasse a ocasião do engano

Se aconchega íntima e pequenina em meus versos

 

Da janela do meu quarto

Certamente é Deus me observando

É assim que Ele em mim se manifesta

 

PSRosseto

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PAREDES

Dentro da casa as paredes são mais ousadas

Tem sentimentos

Já estão acostumadas com nossos ciúmes

Conhecem os pensamentos a pormenor

E comprimem ou enlarguessem nosso juízo

São confessoras e cumplices a todo momento

 

As externas são companheiras no gelo do inverno

Nos isolam das chuvas e dos ruídos

Protegem-nos das atiradeiras dos ventos

Suportam a quentura e o bruto peso do teto

Comprimem o piso, retraem o pavimento

Fazem do lar um reino

Onde penduramos nossas tralhas de vida

 

Algumas do lado de fora são vistosas fachadas

Outras no extremo interno tem invejáveis ângulos

Erguidas ambas as faces ao mesmo tempo

Pelo modesto pedreiro

 

Quando nuas revestem indômitas sombras

Porque se isolam mas somam mutuas

As externas desconhecem as de dentro

Como as internas ignoram as da rua

Mas sustentam a mesma estrutura e se complementam

Da casa do prédio do edifício entre colunas

 

Estar em paz é poder cuidar de ambas

Sem viver de aparência nem estar ao relento

 

PSRosseto

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O AR DE SAL

O ar de sal não perdoa

Corrói o poste e a luminária

Carcome a cerca de arame

No bronze de orégano faz bolha

No vidro ocre cria mancha amarela

Estoura o metal da torneira

Estraga os pregos e a madeira

Derrete o visgo e o lacre

Desmancha o verniz estoura reboco

Descasca vinil destrói o plástico

Esgaça o elástico esfarela silicone

Debulha o pano queima a rede

Trava o motor apaga o led

Quebra a corda zinabra agua

Degenera o fio o pavio e a vela

Fura a panela e a louça

Embaça a prata

Teme somente o ouro

Que passivamente o enfrenta

 

Igual à língua do mentiroso

Com a mentira que inventa

Tudo estraçalha e arrebenta

Menos o tempo que a desmascara

 

PSRosseto

Saiba mais…

EM CADA PÁGINA

As ralas nuvens passeando

Parecem muito soltas e macias

Deixam entrever o azul através

Da transparente brancura

Brandas mexem-se medianas

Pelas beiradas do céu

Esticam colam erguem baixam

Gotejam e desaparecem

Irrequietas onde se afirmam

Simplesmente deixadas

Ao sol e se aquecem

 

Se parecem com as rendas das

Vestes leves que te recobrem

Quando na cama dissimulada

Retiras do barco que te atraca

Os versos que te envio

E te sentes com o privilegio

De ser lembrada e cumplice

Do que há escrito e encharca

Da agua que habita tua espuma

 

Façamos chover

Em cada página que nos flutua

 

PSRosseto

Saiba mais…

CHECK-IN

Não havia mais trem
Após tanto vai e vem
A manopla partiu
Um trilho para cada lado
E os dormentes fugiram assustados

Não foi possível avião
Reduziram a pista
Para sobrar tinta
Dentro da esticada tela
Do bastidor do artista

O ônibus desgovernou
O juízo do motorista
Após o assalto
Em pleno dia
Na avenida de asfalto

O navio não atracou
Devido à ventania
O capitão sentiu medo
De encarar
Os segredos do cais

Nem bicicleta
Nem charrete e carroça
Nada que rodasse
Foi aceito atravessar
As trilhas da roça

Então fizemos check-in e fomos a pé

 

PSRosseto

Saiba mais…

ONDE DEVERIA

Onde deveria eu agora

Estar buscando tua presença

Se justamente a tua falta

Inspira-me e faz com que

Minha arte aflora

 

Não fosse tua existência

Andar por outra morada

Não haveria essa ansiedade

Adivinhando teu vestido

Qual música adorna

Os sons nos teus ouvidos

Se há livro em teu colo

Anéis nos teus dedos

Brisa remexendo os cabelos

Sandália em teus pés

Que te levam a passeio

Ardor nos teus olhos

Arrepio nos teus pelos

Segredos nos lábios

Perfume em teu cheiro

Rima em teus braços

Certeza em tuas crenças

 

A poesia não é cruel

Apenas se farta impropria

Das simples ausências

 

PSRosseto

Saiba mais…

A COVA QUE CAVO

A cova que cavo pá a pá

Abre uma brecha no mundo

E nela planto a muda virgem

Da erva que gerará sombra

Flores, frutos e folhas

Que ajudarão a oxigenar

Os pulmões da terra

 

Depois nesse espaço nem raso nem fundo

Estarão sepultas as raízes dos meus dentes

As plantas dos meus próprios pés

O esguio tronco que sustenta

Todos os vértices e meu ventre

Além de restos da massa e seiva que sobrar

 

Continuarei assim parte de barro e calcário

Pó de pedra, musgo e areia

E quando por fim mais nada restar

Estarei presente em livro e retrato

No fundo de sua memória

Ou junto a uma velha estante

Em alguma sala de estar

 

PSRosseto

Saiba mais…

MANDA TEXTO

Manda texto, não envie áudio nem vídeo

Não quero simplesmente ouvir tua voz

Nem ver os teus olhos, teus lábios e sorriso

Preciso mais que isso

Desejo ler tuas palavras nas entrelinhas

Interpretar as frases, parágrafos

O contexto do teu poema

O significado de tua prosa

O capitulo da tua novela

Entender a tua história

 

Escreve um bilhete elegante

Posta uma carta cheirosa

Podem ser escritos a mão ou digitados

Que reflitam teus pensamentos

Com a fidelidade da luz e a tela

Ou da cumplicidade entre a tinta e o papel

A dobra e o envelope

 

Depois sela com um coração e um beijo

Pode ser de batom

Ou emoji

 

PSRosseto

Saiba mais…

JURAS, SONHOS E SAUDADES

Deita comigo enquanto há desejo
Os meses passarão junto aos dias de maio
E logo a libido acaba
Tudo se tornará relativo
Pouco adiantará se houver oportunidades
Nada significará ainda que exista
Depois um resto de vontade

Pense, não haverá necessidade de amor eterno
Nos motivaremos pela casualidade
Como tantos e inúmeros casos
Que extrapolam os padrões sociais
Sem alucinantes paixões
Apenas em axiomas imprecisos
Que satisfaçam os prazeres carnais

Mas se de repente um único olhar nos prender
Desses encontros de olhares lancinantes
Que cumpliciam os mais irrisórios casais
Ah, certamente após esse casual pormenor
A vida nos porá diferentes
E viveremos além dos tempos e concepções
Entre juras, sonhos e saudades

 

PSRrosseto

Saiba mais…
CPP