Posts de Paulo Sérgio Rosseto (331)

SUTIL

Sou tão lascivo quanto pressupunha

O sentimento do sutil amor que insiste

Em tornar-me ausente por ser volúvel

E libidinoso sendo ser por si inconsistente

 

Nem triste enquanto sonhador inveterado

Nem apavorado pela impossibilidade

Em não saber esperar o tempo reverso

Quando de amar em vão tenha me curado

 

Sei que ser poeta é estar só entre escolhas

Se livre entre pensamentos sem juízo

Escravo das vontades levianas diferentes

 

Sou essa releitura misturada de aprendiz

Sofrendo absorto por amores aparentes

Inconformado das escolhas como amante

 

PSRosseto

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DESENHOS

Embora  raie  o  dia  nos  tons  da  íris

Por  vezes  não  enxergo

A  cor  maior  que  azuleja

O  matiz  do  firmamento

 

Claro  azul  do  jeans  nos  retratos  das  estrelas

Azul  ainda  verde  e  maduro  da  fruta

Raios  do  fogo  do  momento  da  boreal  aurora

 

Imagine  fossem  também  azuis

O  rude  asfalto  e  as  rampas  dos  telhados

A  noite  azul  escura  refletiria  surreais  desenhos

E  a  neve  azul  em  lava  escorreria  exata  pela  terra

 

Seriam  ainda  azuis  os  reflexos

Dos  meus  sonhos

Nos  ciscos  dos  teus  olhos

 

 

PSRosseto

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UM ABRAÇO

Desejo a sombra da árvore

De uma copa que recolha meu cansaço

Abrigue meus silêncios

Sossegue e seque o suor dos meus braços

Refaça esse ser que morre e canta

E renasce em seu próprio canto

 

Nem precisa sementes fruto e flores

Basta-me a sombra e talvez pássaros

Pousados entre folhas e galhos

Espiando meus sonhos

Inspirando meus ânimos

Para novos passos

 

Preciso a sombra da árvore

Como quem deseja um abraço

 

PSRosseto

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AVENTURA

O que será mais intrigante

Mais densa e intensa e bonita

A vida a morte ou o mar?

 

Diante do universo da vida

Nos achamos imensos

Mas de tão bela e infinita por vezes tememos

 

Perante os mistérios da morte

Nos vemos instigantes

Mas de tão indefesos e improváveis quedamos

 

Da beira do mar tão gigante

Que tanto renasce quanto arrebata

Apenas enxergamos a superfície da espécie

 

Assim continuamos partícipes da aventura

Sorrindo o riso de quem navega

Chorando a morte de quem parte

Aplaudindo o choro de quem nasce

 

PSRosseto

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QUANDO OUÇO O VENTO

Quando ouço o vento

Zunir em uivo desmedido

Intempestiva palavra sibilante

Cantas ao meu ouvido

Sopras sentido e alento à vida

Compreendo que me tomas

 

Sentir o ar na pele

Arfar o mesmo ar no peito

Respirar é pontual sentimento

Da intensa grata ação

Da certeza de estar vivo

 

Enquanto respira e venta

Segue esse veleiro

De casco navegado e bruto

De asas quase recolhidas

Mas ainda içadas e acesas

Pelo infinito viril oceano

 

Até que eu timoneiro

Entenda que não mais navegue

Rume-o ao estaleiro

Antes que se desmantele

 

 

PSRosseto

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MEIAS

Pedi à lua que

Caso ela viesse

Pudesse vir transparente

Despida sem estar nua

Desnuda e ainda assim trajada

Revestida porém descalça

Delineada envolta em neblina

Com a luz de uma estrela branca

 

Que chegasse acalorada com sede

Aveludada em fina névoa macia

Embrulhada e ao mesmo tempo solta

Suando e umedecendo a seda

Sem ser tecido nem renda

Arrepiada mas não de frio

 

Então ela me veio linda

Meio ousada meio ousadia

Vestindo meias por segunda pele

Exibindo escritos no alto da coxa

Tatuados os riscos desse poema

Cada verso lido desta poesia

 

PSRosseto

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MUNDO INCERTO

Por um momento

Achei que fosse somente poesia

 

Achei ter aprendido isso com o tempo

Nas andanças por caminhos longos e pertos:

Quando se acha, desvencilha.

 

Mas quem rechaça um coração depois que alucina

Depois que a alma afina as cordas

Pelo diapasão da rotina;

Quem persiste achando-se acima da grandeza

Da flor das paixões

Sem espinhar-se nos cactos dos desertos da bem querência?

 

Louvo então os acervos que o meu poema

Com sua aquiescência sobrepôs-se aos meus medos

E à graça em conceder-me confessar meus segredos

 

Contigo sou mais leve, mais humano e belo

Apesar das incertezas do universo

 

Mas que importam as avarezas desse mundo perverso e  incerto

Se tu plenamente completas meu verso!

 

PSRosseto

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RECORRENTE

A saudade não sabe conter

Pensamentos fartos

Férteis

Livres

Pertinentes

Estes que nos tomam

Fervem

Tremem

Inquietam sutilmente

 

Se soubesse

Não estaria entre a gente

 

Distante fazes falta

Tanto que choro de repente

E repentinamente também rio

Inconveniente

Como riem as pedras

Das cócegas que lhes fazem

As águas correntes

 

Recorrente vertigem

De estar tão perto

E ausente

 

PSRosseto

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DOÇURA

Hoje me roubaste pelo braço
E eu apenas barco atracado
Já nem mais quase navio
Singrei outros mares
Em tua alva companhia

Enquanto na candura levavas-me
Pela rampa e pela fonte a passeio
Eu, velho lobo então cansado escafandro
Reavivei meus zelos
Em tua moça energia

Agora não importa mais
Nem parque, nem bosque
Nem porto e nem mar
Somente o êxtase do teu jardim
E a doçura do teu cais

 

PSRosseto

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CERTEZAS

Antes ainda dos primeiros raios
Enquanto nos monastérios rezam breviários
O solitário poeta compõe piedosas poesias

Enquanto a vida acorda e se movimenta
Freneticamente para o lazer ou trabalho
O atabalhoado poeta traça desejosas poesias

Assim que o tempo passa e a fome sacia
O que as panelas fritam e assanham na fumaça
O abnegado poeta entorna insatisfeitas poesias

E à hora da sesta nas primeiras vibes da tarde
Enquanto alguns dormem e outros ao sol ardem
O ardiloso poeta escreve irrequietas poesias

Já no lusco-fusco do meio termo das horas
Quando as Marias avem declamando ladainhas
O descuidado poeta arquiteta saborosas poesias

Pelo final da noite no profundo da madrugada
Onde a cidade e rincões saciam as fantasias
O inebriado poeta desperta insones poesias

E desde a manhã cedo até o ocaso do dia
Pelo meio das certezas que a vida se apropria
Eu poeta fecundando orgasmos nasço tolas poesias

 

PSRosseto

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ARDENTE

Após o chope
Olhos no chão
Os pés flutuam na solidão escura
Vontade de um banho quente

O corpo envolto pela toalha macia
Feito abraço no entorno da cintura
Há sede além do lábio e da mente
Da fervura do analgésico
Anestésico que não sossega nem sacia

A noite carente perfuma fria
Toda espuma da cerveja
Se dissolvera
Pela garganta que chama o poeta ausente

Sozinha a chama contínua
Continua ardente

 

PSRosseto

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ALMA FEMININA

Quando de algum modo consigo lhe ver

Minha alma acalma e canta

Porque eu todo ando encantado de você

´

Aos poucos vai despojando a soberba

Sentindo perder-se a evidente vaidade

Decantar todas as razões que fazem descrer

 

Eu rio como quem sorri um mar

Estrondo como faz o céu com seus trovões

E silencio igual ao beija-flor diante das pétalas

 

Essa feminina parte segue-me apropriada

Liberta os meus medos já toscos

Dissolve as lágrimas que me chovem

 

Acalmo pois diante de ti tudo se aclara

E por ser clara e calma e evidente encanta

Tanto que torna minha poesia rara

 

PSRosseto

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MINHA BOCA

Minha boca pede beijo e saborosamente beija
Sem importar-se se o beijo sente a boca
Porque às vezes o alvo do beijo são os teus olhos
E por outras certezas a concha das orelhas

Tem momentos em que quer beijar-te as pernas
Outras vezes teus pés por sobre as meias
Às vezes contenta-se em beijar o verso das mãos
Outras vezes necessita perder-se engolindo teus dedos

Minha boca pede beijo e beija e deixa louca
Tua nuca pescoço o dorso e as auréolas dos seios
Quando a língua chupa vigorosa teus lábios

Por entre as coxas onde alcança sorrateira
Minha boca pede beijo e rodeia e beija e passeia
Por onde sabe que você pede espera e anseia

 

PSRosseto

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IMPETUOSO

Ensina-me a não estar afoito

Diante da tua beleza

Pois quando te percebo me sinto trêmulo

Como a bandeira que tremula ao vento

Presa ao próprio pêndulo

De um único fio do teu cabelo

 

Eu sou teu artífice e vértice

Tu a hélice que impulsa além da bússola

Que me prende e norteia ao curso

Íntimo que em mim navega

 

Carrega-me e me refaça

Doma meu ímpeto a conter-se

Ou desnuda se embriaga comigo

Do mesmo beijo voraz do vinho

Vertido da mesma taça

 

PSRosseto

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INSTANTE

Quando penso em ti escrevo poemas

E os leio em êxtase ao imaginar-te

Assim enevoado pela arte

Sinto que me tomas docemente

 

Ainda que distante declamo-te

Descrevo-te inteira em cada verso

O verbo que da alma se reveste

Em teu atrevido purpuro instante

 

Atrevo-me assim a traduzir-te

Através do universo da estrofe

O que te alegra ou comove

 

Atenho-me ao que me contenta

Dedicar-te cada palavra que me surge

Para que nossa poesia nos renove

 

PSRosseto

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DEVIDAMENTE

Amar é pôr-se despido
Fingindo-se revestido
Porém sem enganar-se
Por já estar devidamente
Preparado e amadurecido
Diante da própria vida

Ama-la é despir-me para abraça-la
Da mesma forma que a sinto despida
Quando te tornas grata
Por alçar-me a ti
E eu a ti por alcança-la num abraço

Enquanto a gente ama
Sonha-se o quanto possa

 

PSRosseto

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CEGUEIRA

Se te pareço disforme
Olha-me com mais cautela
E se duvidares do que te aconselho
Pergunte de mim ao meu espelho
Te dirá verdades
Que talvez não estejas preparado a entende-lo

Se te apresento insossa
Foge dos teus preconceitos
E por certo e direito de imagem
Teus conceitos suprimem
O que entendes por beleza

E se teu crítico olho não enxerga
As razões que a ti me põe feia
Abandona a nave que transponde
Os espaços chochos da tua cegueira
Depois ria do que vires
Das graças que te roeram sem saber onde

 

PSRosseto

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A PALAVRA

Um beijo de qualquer lábio

Um olhar de qualquer cara

Alimenta guarnece e acalma

 

Mas a palavra efervesce da língua

Porque nasce do pensamento

E explode da garganta única

Esplendida quando arrebata

Intensa porque arrebenta

Intrínseca quanto a navalha

Que presa por entre os dedos

Desliza mansa na face

E delicadamente ceifa

Separa e corta da alma

O pelo da pele morna

E a identidade dura da cara

 

Já sem olhos risos e boca

No espectro da carne morta

Que a maquiagem escorre e desmascara

A palavra desnuda a máscara

Do involucro da vaidade

 

Assim se apodrece e renasce

Enquanto a idade anseia

A vida semeia o solo

E a gente floresce e passa

 

PSRosseto

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DESCASO

Sim, meu país tem fome e cisma

Por não comer

Mas jamais vergonha em não partilhar

Tuas insanas farturas

 

Mesmo assim não é triste

Apenas talvez resista

E resistir às vezes é digno e direito

Por ser difícil entender

Quão indigno é o que se assiste

Desse lamentável avaro abandono

 

Meu país não inveja

Apenas padece e rasteja

Enquanto houver tua gula

E despreparo

 

PSRosseto

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AMANTES

De alguma forma já se deitam e acordam

Lado a lado

Juntos no pensamento espelhados

Bailando enamorados

No momento do brinde ao vinho

Na hora do café singular

Mansos detalhes espalhados

Pela casa

Sobre a mesa e a cama de cada um

Onde disfarçam fingindo desapercebidos

Que amam

Independentemente de estarem ou não

Sendo amantes e amados

 

PSRosseto

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CPP