Posts de Paulo Sérgio Rosseto (414)

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VIVA A LIBERDADE

Quando te aparento ridícula

Mal sabes tu que não regresso

Vivo das gerações que se sucedem em seus ciclos

Construindo meu progresso.

 

Sou macro, muito além da pequenez dos insensatos.

 

Vivo da fortaleza de um povo calcado no futuro

Obstinado, desejoso de crescer

Que renasce todo dia e ressuscita-me.

 

Minhas normas e leis são perfeitas

Sem noção porem é minha justiça;

Meu regime democrático é soberano

Infelizes sãos os que conspurcam a política;

Sou farta, gigante, benfazeja

Maldosos são meus mandantes.

 

Diferentemente de tu que envelhecesses

Torno-me a cada dia uma nova nação.

 

Na verdade vivo testando teu orgulho de brasilidade.

 

Amanhã aniversario, viva a liberdade.

 

PSRosseto

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ATABALHOADO

Perco você como quem se atrapalha nos vagões do metrô

Em plena metrópole

Perco você como quem se embrenha no cerne oculto

Da mata espessa escura

Perco você como quem desaparece repentinamente

No meio da densa multidão

Perco você como se perdem os holofotes

Cansados do decaído artista

Perco você como perde o rumo

O navio sem bussola

Perco você como quem perde

A noção do tempo espaço

 

Perco você porque sobretudo nunca me encontrei

Tão fútil atabalhoado

Perco você porque talvez ainda

Nunca tenha me achado

 

E se nunca a tivera, como posso perde-la?

 

PSRosseto

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NEGLIGENCIADOS

Como se faz com os segredos

Quando já está evidente

Que se não cuidar explodem

 

A mente é esse disfarce que pode

De repente causar prazeres

Mas vive das evidências no medo

 

Vivemos trancafiados em nossas casas

Bloqueados nas ruas desconfiando

De que sempre erramos a estrada

 

Apesar de tão interligados conectamos

Nosso presente ao mesmo tempo

Ao futuro e passado onde vivemos

 

Mas não sabemos de onde viemos

Para onde vamos e porque somos

Assim tão negligentes irresponsáveis

 

A nós todos não nos falta fé

Na verdade as incertezas evidenciam que

Estamos sim carentes de generosidade

 

PSRosseto

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COMO FICO EU

Diariamente por dois momentos

O dia torna-se loiro alaranjado:

De manhãzinha quando o sol arde

E à tarde quando resolve cair

 

O firmamento colore-se assim

Em santo louvor a quem o fez

E eu poeta ganho esse presente

Num doce abraço do horizonte

 

Mas durante o dia e pelo meio da noite

Onde o azul predomina ou o negrume

Invade por inteiro céu, como fico eu?

 

Ah, fico lembrando os momentos belos

Em que o sol brinca acobreando as nuvens

Como faz você com os seus cabelos

 

PSRosseto

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STREET VIEWS

(Pesquisei pelo lugar onde nasci; a conhecida e gentil voz do Google Maps
pausadamente assim descreveu):

“ - Subir devagarinho a Nossa Senhora da Aparecida
Vai-se a casa sete nove cinco.
Existe muita história ali!
Lá ainda está o pequeno alpendre de pilastras azuis
Aonde nosso pai no final do dia
Escondia bombocados de depois do jantar.
Nos degraus dos jardins
Ainda deve haver cheiro de gerânios rosas e espirradeiras
Porém já não há mais o abacateiro  do quintal vizinho.

- A caixa d’agua azul e branca ao fundo da matriz
A torre esguia do relógio da  Getulio Vargas
O clube de bocha da Nagib Asseis
A tinda tinda da arborizada  pracinha
O colégio Valeriano  Fonseca
A escolinha ao  lado  da velha estação ferroviária
O eterno laticínio Tânia da esquina da João Machado

- Tudo se encontra magistralmente  no mesmo lugar. 

Não  mais achei o Bar do Julio
A Farmácia do Maroca
O  Bar  da Esquina
O Bazar de Oshiro
Nem o Salão São Paulo...
Mas isso é tão relativo que a essa altura da vida
Muito pouco importa.

- Inclusive as portas são as mesmas e se
encontram abertas no mesmo lugar há seis décadas.

- Sinto cheiro de café na Albino de Geovane junto ao começo da Raul Furquim.  
Joãozinho ajuda Maria a embrulhar balas de coco e Vera corrige as provas da escola.

- Certamente Guaraçai não cabe em apenas um poema. ”

 

PSRosseto

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COLARZINHO AZUL

Hoje fui à praia roubar

Alguns clarinhos de sol

Pra fazer um colarzinho azul

Pra ela usar

Pra ela usar

 

Também resolvi recolher

Umas conchinhas do mar

Pra enfeitar o colarzinho azul

Pra ela usar

Pra ela usar

 

Estou esperando ela vir

Para eu poder entregar

A ela o colarzinho azul

Pra ela usar

Pra ela usar

 

Não sei se ela irá gostar

Ou então se vai desprezar

O colarzinho que fiz

Pra ela usar

Pra ela usar

 

E se ela então não quiser

Devolvo os clarinhos ao sol

Reponho as conchinhas no mar

 

E pronto

 

PSRosseto

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CRUEL

Tento fazer poemas

Com as armas que tenho.

Algumas ideias banais

Uns conceitos ligeiros

Antigas normas gramaticais

Quase adormecidas.

 

Fico olhando olhando

A pagina em branco na tela.

Os dedos fogem das teclas

As letras confundem-se, esfarelam

Nenhuma palavra me permite escreve-las.

 

É tudo tão ácido, azedo, cruel

Tanta agonia que chega a dar medo.

 

Mas depois de sofrimento intenso

Eis a poesia pronta!

Pura ousadia ou talento?

 

PSRosseto

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A ARTE DE SER AMIGO

Canto só

Onde ninguém possa

Me ouvir cantar.

Canto assim na solidão do meu canto

Somente porque gosto de toda canção

E eu mesmo de mim sou meu fã.

 

Penso se me ouço e amo meu som

Que me importa você me escutar.

A musica que faço me transforma

Enleva, sublima, alivia minha alma

E me faz reticente cantarolar.

 

Mas tem dia que me vejo mudo imundo

Na deserta aridez do espirito

Onde nem eu mesmo ouso ouvir minha voz

E em lugar nenhum caibo estar.

 

Nessa hora solto o meu grito

Busco em seu ombro aboiar.

Generosamente você encanta comigo

E o que cantamos reconforta, renasce.

 

Repartir a música é viver a arte

De ser amigo.

 

PSRosseto

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UM LADO DA RUA

A cidade essa noite ficou diferente

Apagaram-se as luzes, se acenderam as estrelas

E da varanda contando longínquos relâmpagos

Entre nuvens severas, pudemos vê-las

E enquanto as contávamos falamos das belas

Fotografias que juntamos no decorrer do dia

Olhando o escuro da praça e a ousadia da lua

 

Depois sorrimos desse momento leve

Dissemos adeus e até breve

E cada um seguiu para um lado da rua

 

PSRosseto

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O PARTICULAR UNIVERSO DE CADA UM

Trabalha incansável ao meio dia o dedicado pedreiro

Erguendo sobre alicerces entre andaimes

As torres gigantes da catedral

Dentro do particular universo de cada um

 

Eu, humilde servente a servir-lhe a massa

Entrego-lhe também a colher, o prumo, nível e cinzel

E meço contente o produto que torna

Símbolo do perfeito na justa medida

Do que fora traçado pelo arquiteto em papel

Para o particular universo de cada um

 

Eis a arte real que sob o sol floresce e se espalha

Pedra sobre pedra lapidada por incansáveis mãos

Que unidas abraçam o mundo e beijam o solo

Do particular universo de cada um

 

Se preciso for, lhe corrijo as falhas

E também ele a mim me adverte em tempo

Aprendemos com a vida no trabalho mútuo

Construindo em conjunto um único templo

No particular universo de cada um

 

PSRosseto

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NEM SEMPRE É POR FRIO

Quando o pelo eriça nem sempre é por frio.

Na maioria das vezes é a preguiça,

O pensamento vadio,

E a própria delicia que se apropriam da gente,

E traz por todo o corpo um suave arrepio.

 

Pode ser a incontrolável vontade de explodir

O vazio que causa a saudade.

Pode ser a maldade dos anjos

Brincando de esconde-esconde com nosso brio.

Talvez a espera do alguém distante em sintonia

Ou o estrago que causa engolir palavras

Que não possam ser ditas quando a gente entedia.

 

Imensa casa em que tudo inquieta em seu lugar.

Meus pés pelo chão gelado, deserto, estéril

Procuram teus rastros, teus saltos, as migalhas do teu andar.

E na moldura da noite no perfume do quarto onde estás

Parece que vejo descansar inocente na fria cama

A fina roupa que adornou teu corpo e aqueceu tua pele

Agora nua, solta, viva, sedenta de amar.

 

PSRosseto

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NÃO LEMBRO, NEM SEI

O que seria tão intenso
A ponto de tornar-se renúncia
Tão imenso quase que prenúncio
E tão claro que somente
Se pudesse descrever como se pronuncia?

O que seria tão fácil de acontecer
Que jamais pudesse entravar
Intensificaria todas as maneiras de entender
E a gente não se alteraria
Nem se martirizaria por ainda não saber?

Apenas o que com o que a vida
Possa nos presentear
Porque meu ontem já o ignorei
E o meu passado – ah
Desse não lembro, nem sei!

 

PSRosseto

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VELHOS DITADOS

Não há boca tão bela

Quanto a escarlate da noite

Nem queda tão doce

Quanto o cair da tarde

Um azul celeste

Quanto o do céu ao meio dia

Um azar tremendo

Quanto ser bode expiatório

Um risco iminente

O de bater o rabo na cerca

Ou a tremenda mancada

Em ter comprado gato por lebre

 

Por sequer um minuto

Ter dormido no ponto

Necessidade maior

Que a de mudar da água ao vinho

Oportunidade ímpar

Em botar as cartas na mesa

E se preciso por fim

Por as barbas de molho

Ousar prometer mundos e fundos

E depois fazer tempestades em copo d’agua

 

Esperar sentado que uma mão lave a outra

Riscar com giz as impossibilidades do mapa

Assuntar assombração sem pés nem cabeça

Resolver as ranhuras pondo os pingos nos is

E por resposta receber baldes de água fria

 

Seria o mesmo que ignorar por completo

O perfume que emana da rosa aberta

Por desejar na língua o gosto do orvalho

Que encharca suave o veludo da pétala

 

PSRosseto

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POESIA

Não sei bem se faço poemas

Sei que transcrevo os versos das canções

Que a tua presença impõe

Para que meu coração cante

Meu espírito louve

E minha alma te aclame

Intensamente dona de mim

 

Qual oração que recito

Medito, bendigo todas as formas

De ao rezar estar junto a ti

Num final de noite de outono

Quando a insônia e o abandono

Torna a poesia mais exata

O silêncio mais puro

O sussurro um enorme grito

Nos bilhões de anos luz

Do abismo infinito dos sonhos

 

Já não sei mais em qual planeta

Vivo, para onde irei ou venho

Apenas sei que te componho

 

PSRosseto

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INDEPENDENTE

Meu ousado coração insistente

Vive permanentemente em festa

Trabalha contente, bate cantando, pulsa o sangue

Com tamanho vigor e desenvoltura que por vezes

Destoa das regras intrínsecas

Da vida que o corpo leva

- Nem parece que tem a idade

Instigante a que se presta

 

Enquanto isso vou cuidando de mim o quanto posso

Porque bem sei do pouco tempo que ainda tenho

E da chance de sobrevida que me resta

 

PSRosseto

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ESTES MEUS VERSOS

Coloquei meus poemas em livros

E juntos saímos livres a passeio.

Primeiro andamos pelas praças

Debaixo de pequenos arvoredos

Colhendo flores, contando estrelas

Observando as singelezas da vida.

 

Depois dividimos ao meio as vicissitudes

As inquietudes e os pensamentos surreais.

Uns enxergaram-se singelos e feios

Outros mais completos, complexos e bonitos

Mas todos esmerilhados em sentimentos

Ainda que com motes abruptos ou aflitos.

 

E graças às vezes que os escrevo

E você decifra estes meus versos

Torno-me ainda mais fútil e passageiro

E eles ousadamente infinitos.

 

PSRosseto

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UM TECIDO QUALQUER

Apesar de ter sido um tecido qualquer
Um pedaço de pano que serviu no passado
Para enxugar teu corpo, limpar os teus pés
Forrar tua cama, proteger tua mesa
Recobrir teu sexo, colorir teu sofá
Secar tuas xícaras, guardar tua boca
Lustrar tuas botas, recolher tua lágrima
Teimosa que insistia verter na cheirosa
Fronha macia e alva do travesseiro

Acredito ter sido a tua camisa de linho,
Vestido de seda, chita xadrez
Meia de algodão, lenço de cambraia
Cobertor, colcha e lençol
Fina renda de lingerie, calça de tricoline
Panos elementares tão próximos de ti
Que causavam ciúmes e pensamentos infames
Às ideias quando secavas os teus cabelos
Com as felpudas toalhas de lã

Hoje quieto esfarelo as barras
Amarrotado, dobrado ao meio
Sem propósitos, mas ainda inteiro
Quem sabe um dia necessites de mim

 

PSRosseto

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CALOR

A pele aquece

A mão sua

A boca seca

A língua umedece

A garganta tosse mas não basta

Porque o calor brota

Aflora dos poros dos pelos

Das ideias que indecentes

Exploram explodem reviram e descem

Pela porta e janelas fechadas

Onde se tem a impressão e aparência

De que tudo se tornara

Um particular deserto em que nada nasce

Nem acontece senão entontece

Apenas disfarça um grito miúdo

Que se não se mata de imediato a sede

Simplesmente amaluquece

 

Estamos escravos incondicionais

De qualquer vento ameno que arrefece

E quando no quarto o ar

Não liga ou está mal configurado

E é isso o que acontece

 

PSRosseto

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COM OUTROS OLHOS

Deveria existir um controle remoto

Que retornasse os giros da terra

 

Pudéssemos escolher determinadas cenas

Retroceder um a um seus quadros

Dentro de um espaço de tempo gravado

 

Ganharíamos a chance de releituras

Da redescoberta de algum detalhe

Marcante que talvez se escondesse

Ou deixara de estar revelado

E porventura já estivesse perdido

Da memória

 

Sinceramente escolheria rever

Quando ainda a via com outros olhos

 

PSRosseto

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DESEJO

O desejo
De muita sílica anônima
Seria transformar-se
Em venerável vidro
Deixar de ser puramente
Cálcio e sódio
Soldar-se mansa
À ponta de um cadinho
Moldar-se em multiformes cores surreais

Ser para-brisa de carro
Copo americano, litro de cachaça
Travessa resistente, vitral de igreja
Janela de prédio, porta giratória
Gude de cristal, jarra para sucos
Tampa de farol, pote de geleia
Lente para óculos de grau

Depois de frágil massa
Transparente e dura
Cometer o risco
De mudar-se em farelo
Quebrada em mil caquinhos
Pela própria criatura
E se não conseguir voltar a ser óxido
Ao menos um átomo em algum milênio
De pó de mico levada pelo vento num sopro
De poeira sobre um móvel no quintal

 

PSRosseto

Saiba mais…
CPP