Posts de Paulo Sérgio Rosseto (268)

A BOCA E AS MÃOS

De repente minha boca anseia

Conversar com tua pele

 

Surfar pelo labirinto de poros

Entreabertos pelo desejo inerente

Desse preconizado diálogo

 

E tudo é tão raro belo e recíproco

Que todo o universo se cala

Enquanto nossos sonhos se buscam

E os úmidos lábios passeiam e se falam

Partícipes desse colosso mistério

 

Tão puro que é bom

Sem limites de gemidos e sons

Insignes sedentos e prontos

 

Feitos do morango maduro entre os dentes

E uma taça cúmplice nas mãos lambidas

Lambuzadas do amor pelo vinho

 

PSRosseto

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UM POUCO MAIS DE HOJE

Ainda tem um pouco mais de hoje

Antes que a manhã volte e amanheça

 

São as artes das horas ocultas

Que se mostram em partes

 

Assim se torna mais precioso o que se aprecia

Intenso e evidente seu claro

Mansa e macia essa espera arredia

 

E ainda que soubesse que partisse

Passaria a vida nessa plataforma imensa

Seguindo essa roda sem freio e sem guia

 

Contemplando-a por nada e não quisesse

Minha teimosa tolice insana e insistente

A esperaria

 

PSRosseto

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HUMANO AMOR

Do amor que te falo
Não é o infinito e sim
Esse que descuidado
Desmancha-se num grito
Desmesurado de dor

Não é o divino por não ser absoluto
Mas sim humano pois caso desvela
Gera desengano onde não caiba estar

Nem abstrato nem concreto
Por não ser secreto entre a gente
E estar ocluso por fina camada de cera

Esse feito de retalhos de pano
Que o tempo acostuma com a costura
E se não se atenta nem ciúma
Termina quando maltrata incontido ao passar

Do amor que te acho incomoda
Exige que provemos do amargo e o azedo faça acordar
Não por haver medo no amor
Mas que intimide e renasça e reacenda
Pela simples cisma de se vir deixar de amar

 

PSRosseto

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PROCURA

Passo por tantas portas durante o dia

Entro e saio vou e venho nada me segura

De um cômodo a outro buscando o futuro

 

Penso que nada me surpreende

Porem insatisfeito com a estrutura

Desse indescritível labirinto

Reclamo tua ausência

A essa troça que arde o peito e angustia

 

Necessito-te ávido

Acima de todo escrúpulo

Desprendido de alicerces

Longe dos parâmetros

Apesar do acúmulo dissimulado

Dessa tosca aventura

 

Andarei a eternidade

Indecifrável à tua procura

 

PSRosseto

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SEM NINGUÉM SABER

Não gosto de fazer poemas que remetam à morte

Porque detesto que os meus amigos lembrem-se

Que um dia também poderão morrer

 

Prefiro que cantem as melodias alegres

E leiam sobre amores e saboreiem as dádivas da vida

 

Instigo para que brindem as alegorias

Mergulhem na fantasia de que são todos eternos

Infinitamente abençoados pela eternidade

Em resposta ao zelo existente que para comigo têm

 

Os meus amigos e a fraterna amizade que nos convêm

Não tem tamanho nem cabem dentro de covas

Por isso jamais extirpa nem deteriora

 

E na minha hora em que sozinho eu partir

Sairei à francesa em silêncio enquanto festejam

Para que ninguém note a minha dor por ir sem querer

 

Partirei calado sem ninguém saber

 

PSRosseto

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TEMPORAIS

Toda vez que perco o horizonte

Creio haver um mar a minha frente

Tão longe de mim equidistante

Como as rosas de um jardim

Ou uma nuvem passante

Que se desmancha insana

Por entre respingos de lama

Ou alvas fronhas de algodão

 

São aguas verdes revoltas

Remexidas pelos mesmos ventos

Que soltos conduzem minhas barcas

Serenas cada uma a seu porto

E as nuvens aos seus tantos

Destinos e encantos

Revestindo travesseiros

Sobre as camas da paixão

 

Todos esses travessos romances

Atravessam-me intensos

Ainda que de mim jamais saibam

Porque nunca mais retornam

Porque se tornarão propensos

A viajar outros céus e mares

Esculpindo suas torres imensas

Apesar dos temporais

 

PSRosseto

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TATEAR

Não se sabe se são os pensamentos

Que conduzem os dedos

Ou as mãos acostumadas sozinhas

Aos intensos dos carinhos caminheiras

 

Certo é que os tatos se desprendem

Despindo dos segredos

Por singelas ruas do corpo

Explorando seus caminhos

 

Olha as calejadas palmas desse peão

Tem a mesma ranhura do casco da boiada

A pele dura rude enrugada

Queimada no laço de sal

Do suor da tarde ensolarada

 

Essa mesma textura tem o coração

Cheio de saudade apertada

Compacta no peito

Enfurnada na alma

Feito bicho na toca dentro da agua

Rodeado de destino sem morada

 

Mas quando ama e trata o amor

Imaginando-me na penumbra enluarada

A minha mão meu bem cheia de viço

Tão nua e certa é a tua namorada

 

PSRosseto

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DESLUMBRE

Quando duas línguas se tocam

O mundo de quem deseja o beijo

Torna-se oração perfeita

 

Sabores ardem sedentos

Nesse encontro de saliva e espasmos

Extraindo dos lábios molhados

Aceites inaudíveis das vozes dos hálitos

 

Da ternura única e efervescente

Todo perfume tateia o momento

Assistindo espargir pela sala do anseio

A dissimulada fome engolindo as palavras

 

Dado ser afoito intenso e místico

O espírito aguarda que o corpo entreveja

Pelos olhos fechados em êxtase

O deslumbre da língua quando beija

 

PSRosseto

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A DOÇURA DA TUA VOZ

A doçura da tua voz
É feitiço colado em mim
Canção que tanto desejo
Tempestade em minha veia
Suor denso da libido
Vendaval de vermelha areia
Remoinho no deserto
Do coração em devaneio

Eu sou destemido andarilho
Incerto andejo sem eira
Sertanejo inseparável
Da seara do teu encanto
Matuto das velhas minas
Lavrador desse rochedo
Tangido na insistência
De colher esse teu beijo

A ternura fez de mim
Poliglota destas letras
Intérprete dos teus sonhos
Cancioneiro dos teus versos
Aprendi teu idioma
Falando em teus ouvidos
Decifrando teus anseios
E beijando a tua língua
Assim me tornei poeta

PSRosseto
***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019

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FURTIVO

Olhos vivos amendoados

Delicadamente redondos assombreados

Prontos para o brilho e para o choro

De repente para a lástima do instante

Encharcados de fina lágrima

Lacrimejados de enciumada doçura

De repente para o riso delirante

Quando os lábios escancaram

Recolhem-se de extrema candura

Olhos soltos pelo rosto desenhados

Pousados sobre o fuso horizonteIntensos abertos despertos calmos

Olhos teus por onde meu olhar resvala

Furtivamente rio despretensioso

Ousadamente tímido e de soslaio

PSRosseto***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019

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SOZINHA

Sou vizinho da praia sozinha
Onde desenho de manhazinha
Junto às desapegadas ondas
Meu caminho de areia molhada
Sentindo o vento inquieto sorrindo
Ziguezaguear em paralelo
Por entre as mechas do meu cabelo
E os pés  mansamente lambidos
Entre os lábios da água morninha

Quando esse mistério natural se acende
É tão fácil contemplar no instante
O desafio tamanho de cada sede

Ainda que o mundo esteja opaco
A vida torna-se transparente
E todo sorriso mais instigante

 

PSRosseto

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019

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CANTA

A poesia perde o encanto

Quando não há fantasia

Vira roupa suja num canto

Brinquedo arrebentado de parque

Plataforma de embarque

Sabendo que ninguém vem

Linhas sobre dormentes sem trem

Vento que não mais areja

Fruto que não se deseja

 

O encanto sem poesia

Não subsiste nem tem memória

Seria um falso desejo

Que o próprio fato ignora

Triste de inveja esquecido

Ferida adormecida sem lógica

 

Ah mas o meu poema é esse canto

Encantado de azul esperando

A melodia nascida na doçura da tua voz

Por isso canta canta incansável

Canta com infinita ternura

Todo encanto que verseja em nós

 

PSRosseto

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***

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ENAMORADA

Qual porta incorpora a alma

Enquanto renasce o corpo

E quando fenece o físico

E o corpo se degringola

Para onde ela vai-se embora?

 

Há quem diga que paire

Outros dizem que se esvai

Pelos rumos do nada

Em que o vazio a atrai

De onde idêntica veio

Cumprindo sua jornada

 

No entanto eu creio

Que antes dessa morada

A minha alma inquilina

Em outra plataforma de vida

Era tua enamorada

 

Desde então desmedia as ausências

Desde então persistia sensata

Desde ali entendeu de anuências

Desde lá me amou tão menina

Que hoje dorme tão pequenina

Nos meus braços de poeta

 

PSRosseto

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***

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À TUA ESPERA

Sumiste igual ao temporal depois do alarde

Desmanchaste entre as cores delicadas

No meio do céu da boca da tarde

Então recolhi os pedaços de inverno

Que ainda restavam congelados

E fiz a minha própria primavera

 

Olha agora as pétalas viçosas como se espalham

Trazem elas a maciez da tua pele

O mesmo perfume que te enevoa

O mesmo sorriso que te revela

 

Florescem junto a esta saudade

Úmidas de encanto à tua espera

 

PSRosseto

***Do Libro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***

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EVIDENCIA

Compartilha comigo
Tua experiência de Deus
Preciso conceber a humildade
Tanto quanto a enxergo em tuas mãos
A forma de entender a benevolência
Idêntica à magnanimidade
Que se derrama das tuas ações
A expressão da caridade
Tal qual a que se transpõe
No sumo das tuas transigências
E a sobriedade em discernir
Naquilo que tua complacência evidencia

Que se empreenda a providência divina
Em cada raio que teu sol me irradia

 

PSRosseto

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***

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SUAVEMENTE

A maestria com que os teus dedos
Passeiam pelas teclas
Soa nos sons da alma
Uma grata sinfonia aberta
Interpretando a partitura da calma

As claves e as notas bailam nas pautas
Meu coração pulsa incerto
As tuas mãos me tocam e apertam
Com a precisão e suavidade de quem se deita
Em delírio sobre o peito de uma orquestra

Se saio sensível retorno preciso
E quando impreciso desnudo-te porque necessito

Ainda deve haver algum batom em teus lábios
Como há nos meus a vontade de um beijo
Mesmo lavados pelas impossibilidades

Escrevo este poema em teu corpo
Risco e rabisco com os dedos as linhas
Suavemente enquanto recito em teu ouvido
Porque sou sensato e não insensível
E a resposta reside nos teus sonhos

 

PSRosseto

***Do Livro EM ESTADO DE POESIA - 1ª Ed. - 2019***

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PELOS MARES

Evito as profundezas

Tenho medo dos mares

Mesmo assim toco meu barco

 

Nele embarcado

Surfando estranhas águas

Vivo a vida à flor da pele

 

Enquanto remo essa galé

Desbravo meu mediterrâneo

Ainda que por rumo errôneo

 

Mas o que é o certo senão

Um conceito mero e caro

E absolutamente leviano

 

O que seria a ancoragem

Uma vaga entre as ondas

Um risco a qualquer plano

 

Vêm os ventos ou se calam

Continuo velejando

Esses males não me abalam

 

PSRosseto

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ORGULHOSO

A moça quando menina
Acreditava que a pedra da marina
Todo dia emergia
E lhe vinha dizer bom dia

E depois de secar-se ao sol
Dourar seus musgos e arrefecer
Mergulhava de vez e se escondia
Até novo tempo acontecer

Essa mulher conta agora à filha
Que a pedra de Taperapuan continua
Brincando de se amoitar na maré
Em sua íntima baía

E eu pai e avô mentiroso
Para sempre rirei orgulhoso
Dessa nossa fantasia

 

PSRosseto

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ESPUMAS

Este poema que ao acaso chega

Diante dos olhos teus

Nada é senão mera espuma ilusória  

Embarcada em falsa onda em movimento

 

Espuma desnecessária que circunda

Os cascos das embarcações aos gritos

Espuma fictícia que explode da raia

Quando a agua lambe os pés ou a pedra

Espuma sem noção que se envereda

Por um segundo filtrada pela praia

 

E ainda assim de tão desprotegido

Vive insignificante sem se desmanchar

Existe incompleto perdura e persiste  

Porque o sentido da palavra é a densidade do infinito

E a ilusão do poeta desse tamanho do mar

 

PSRosseto

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PEÇO UM ABRAÇO

Peço um abraço

E se concordar não disfarce

Abrace

 

O abraço pode ser o alvoroço do pecado

Porém inefável é a versão mais plural de Deus

Ele alcança dois corações em estado de graça

E os molda e zela como se a sorte os selasse

 

Mas se houver ausência

Deixa que o silêncio replique

Pense como se fosse e sentisse

 

Pode ser ao deitar-se

Ou se acordar e lembrar-se do desejo meu

Que lhe abraçasse antes que dormisse

Deixa que esse sonho nos enlace e embale nos braços

Como se a um passeio levasse

 

Abraçar faz a saudade cingir um só espaço

Porque cada abraço é uma prece

Onde amar acontece

 

PSRosseto

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CPP