Posts de Paulo Sérgio Rosseto (333)

AUSÊNCIAS

Estive quase sempre

Presente quando pude

Isto significa ao certo

Um considerável percentual

De ausências

Pois mesmo presente estando

Em até não podendo estar

Foi como estivesse

Estado semi-ausente

Porem uma vez estado onde nem fui

Fora plenamente

 

Estou agora revendo possibilidades

Em ir ou não novamente

Caso permita irem

Essas ambíguas partes pertinentes

A que possivelmente não vai

Junto à que pretende

Continuarei onde estou

Às vezes ido inteiro

Outras reticente

 

 

PSRosseto

Saiba mais…

SEDE

Na hora da sede intensa

O líquido que se desmancha em porção necessária

Anda pelo interno do copo aparentemente lerdo e lento

Por demais devagar e manso abrasa estar cheio

Tanto que a língua cansa dessa espera e ainda mais amarga

Arde no sal da saliva rala parecendo lágrima

Impaciente na garganta molhando o esôfago do sedento

E suado corpo que chora e implora e deseja a benfazeja

Gota que ao longe calmamente orgulhosa sai pelo olho

No cristal do vidro transparente e olha e aguarda o momento

De ser imediatamente sorvida junto às tantas outras moléculas de agua

 

Também minha boca tem essa mesma precisão quando espera meu beijo

E qualquer virgula que se interponha entre essa vontade e o desejo

Torna-se mais insensata que o tempo do mais sutil e absurdo pensamento

Como se o ardor do carinho e o amor não fossem os mesmos enigmáticos

E não ocupassem céleres um único espaço dentro de um jarro com gelo

Esperando ser um gole de agua de um copo escolhido a esmo

Idêntica reciprocidade de alguém também por ti sedento

 

PSRosseto

Saiba mais…

INQUIETO

Na areia da praia olhando essas ondas

Disciplinadas que vem e se perdem

Não se ocupam de outro afazer

Senão sucederem-se intermináveis

Independente das marés

Somente cumprem vontades dos ventos

Ou então de seus pequenos mares

Pergunto-me por onde andam os propósitos

Que tantas e tantas vezes rogado jurei

 

Passaram enfurnados pela mesma janela azul

Por dias enfileirando essas horas cruas

Repletos de tanta poesia explicando as agruras

Correntes vermelhas internas em mim.

Presos à pele por dentro dos vasos e veias

Entrevendo diferenças entre espirito e matéria.

Tão vulnerável, leviana e desconexa

É minha alma concreta fatiando mantas nas carnes

Penduradas sobrepostas sobre mantos de areia

 

Podre é o submundo do mundo que julga

O improprio preconceito de todo azedo

Recolhido para investigativas biopsias

Analisadas pelas lentes toscas da miopia

Que assolam a criação dos conceitos

Preconizados robotizantes me guiando

Para onde não fossem meus versos jamais saberia.

O fim que me espera nos braços da determinação

É o que me sustenta inquieto sobre a terra

 

PSRosseto

Saiba mais…

UMA SÓ LETRA

As boas palavras aclaram ideias

Exaltam sorrideiros pensamentos

Branqueiam o alvejado esmalte

Enquanto mordem a carne dos lábios

Emolduram os dentes

 

Refinam o hálito prazerosamente

Mastigam, deglutem, engolem, ruminam

Cospem ou vomitam toda verborreia excedente

 

As boas palavras escovam amigdalas e vísceras

Lapidam a língua, burilam vocábulos, babam sílabas

Separam, pontuam, pausam ou encerram contendas

Afetas a qualquer diálogo contundente

 

Descongelam a mente e plantam saborosas pronúncias

Docemente salivam e irrigam e enlevam a verve da gente

 

As boas palavras harmonizam o silêncio e o discurso

De quem fala, de quem ouve, descreve e as soletra

As semeia e as escreve peregrinas, fortes e singelas

A quem se atreve a dize-las ou busca-las certas

Sapientíssimas e perpétuas ainda que ditas erroneamente

Sem que se proclame, perceba ou se ouça

De si mesmas sequer uma só letra

 

PSRosseto

Saiba mais…

À PROCURA DA HORA CERTA

Estamos todos à procura da hora certa

Inventando estranhos costumes para usa-la

E nunca a achamos, mesmo estando despertos

Em constante sentinela

 

Dizem que há esse momento exato

De ventura ou de absoluto azar

De aguardar o fruto ser maduro

De ignorar ouvir o fluxo que condiz

E valorizar balelas presas no verso da antessala

 

Vivemos cercados de consensos e querelas

Desconhecendo os segredos da boa ou má sorte

Que nos apanham constantemente desprevenidos

 

Para onde nos levarão então

As facetas incineradas desses sonos mal dormidos?

 

PSRosseto

Saiba mais…

UM FIM DE TARDE

Um fim de tarde acontece todo dia
Mas nunca se dá sozinho e sem alarde.
Mesmo após o sol ter ido de país em país
Deixa ainda costurado no tecido do céu
Por bons momentos o seu prurido.
Há sempre uma ultima nuvem ardendo
Brandamente vermelha e até entediada
De pele queimada e tecido redesenhando-se
Com qualquer brisa que lhe retoque mansa.
Alguma nuvem que tenha sumido na estrada
Que precisara descarregar sua chuva
Regado e carpido o feijão que será colhido.
Alguma nuvem igual a mim
Que passara toda a tarde a espera
De alguém transeunte de qualquer tempo.

Conheci uma estrela invisível que viajava pela terra
E todo o seu mundo era tarde porque seguia
Imprescindível recolhendo os últimos clarinhos
Iluminando os trilhos opacos do sertão dos vagalumes
E os intermináveis vagalhões dos desertos e mares.
Mas andava desviando para além das cidades
Onde as luzes sobrepunham-se ao lusco-fusco
No poluído e desumano horizonte abcesso da natureza.

Mas eu acostumara olhar para o outro lado do entardecer.
Sempre passava a minha infância de vigia
No laborioso oficio de acender a lua quando ela vinha

 

PSRosseto

Saiba mais…

TEIMOSAS

Ensinei minhas mãos teimosas a pouco se verem

Às vezes encontram-se, revezam

Condecoram, aplaudem, e retomam seus lados

 

As minhas mãos pouco sabem uma da outra

Ainda mais quando advertem, apontam, condenam

Cumprimentam, auxiliam ou dão adeus

– Aprenderam a gesticular sozinhas

 

Porem mantem uma incrédula cumplicidade de energia

Ajudam-se obvia e espontaneamente para segurar uma barra

Desatar algum nó, pontilhar a viola, carregar emoções

Destravar as janelas, encontrar os rumos

 

Estão é verdade repletas de solidariedade

E assim convivem debulhando situações interceptadas

Pois até quando minha mente se põe em oração

Unem-se e necessitam dessa união

Mas não se leem

 

Independente de onde meus pés andem

As minhas mãos precisam ser lidas por minha vida cigana

Enquanto isso folheiam livros e escrevem historias

 

PSRosseto

 

Saiba mais…

QUANDO EU ESTIVER DE VIAGEM

Quando eu estiver de viagem

Não fiques buscando-me nas estrelas

Nem permitas ser fantasma diuturno em teu jardim

- Não estarei tão longe que poderás esquecer-me

Nem tão próximo a ponto de assoprar tuas orelhas

 

Encontra-me nos arquivos do teu coração

Onde de certa maneira passei

Nalgum cantinho existi nas formas de emoção

 

E se por acaso a saudade arder mais que um segundo

Certamente irás sorrir certa de que de algum modo

Aprontei alguma boa arte em teu infindo mundo

 

E somente por esse disfarçado riso

Nos valerá a pena ainda estar guardado ali

 

PSRosseto

Saiba mais…

ABNEGADO

Confesso-te que estou aquém das tuas dúvidas

Porem muito além dos teus pesares

Se desconheço as respostas que me pedes

Há tempo sarei dos males que padeces agora

E ainda que não pareça que me aflige o que sentes

Abnegado sofro enquanto teus conflitos enfrentas

 

Apesar da serenidade aparente

Que o momento nos impõe como meta

Suplanta tuas agonias

Supera tuas próprias dores

Enfrenta as tuas mazelas

 

PSRosseto

Saiba mais…

NAVEGANTE

Trago eu a ousadia

De olhar mil vezes ao dia

Os verdes olhos do mar

De apegar-me a maresia

Que salga o aroma nos lábios

Como se pudesse explorar

Entre os ventos arteiros

Os encantos do teu olhar

A distância dos teus navios

Nos rastos do teu andar

 

Então levo a certeza

Escondida no alforje

Daquele que navega a vida

Sem reter o horizonte

Tudo enxerga mas não vê

Tudo vê e pouco importa

Distinguir o sul do norte

Apenas segue cego em frente

Capaz de pescar nos rumos

De seu mundo confidente

 

Depois volto e é bom voltar

Porque há quem me aguarda

De braços estendidos largos

À espera das minhas águas

Na ânsia daqueles mares

Navegados entre peixes

Maresias e bonanças

Na volúpia dos bons ares

Viajantes velejados

De um único lugar

 

PSRosseto

Saiba mais…

DIABRURINHAS

Passemos incólumes pelas diabrurinhas do tempo

Assim evitaremos que o mundo sofra

E se desgaste e dobre inútil por nossas sobras

 

Não é justo que as agruras derrubem nossos laços

Que o bagaço da impiedade sobrepunha os bons frutos

Que alguns vieses destruam as referências

Que não haja perdão aos pecados breves

Que os muros cerceiem nossos traços

 

Passeemos vivazes pela orla das benesses

Recolhendo as danuras que porventura resultem dores

Certamente estaremos mais leves

 

PSRosseto

Saiba mais…

AMAR A QUALQUER TEMPO

Amar a qualquer tempo

Vicia os amantes

Alicia ao viço que se torna lícito balsamo

Entre o vício e seu vinco excêntrico

Emaranhada teia de nylon

Intrincada e sutil peça de aço

Insaciável artífice

Repousado sobre um mesmo espaço

 

Toda a riqueza do amor existe na abundância

De certezas afeitas aos sentimentos dominantes

Amemos incondicionalmente

 

PSRosseto

Saiba mais…

VULNERÁVEL

Desconfio ter um jardim muito vulnerável
Às vezes tem medo de mim
Acredita que posso a qualquer momento
Podar uma roseira
Furtar-lhe uma flor
E isso seria uma grande perda
Pois entende que todas as suas aveludadas pétalas são
Insignes
Imprescindíveis
Insubstituíveis
De inestimado valor sem fim

Ao mesmo tempo contenta-se por servir-me
Perfumadas rosas tão saudáveis
Pois sabe que quando as levo
São para alegrar os olhos e o coração de minha amada

Realmente não compreendo meu jardim

 

PSRosseto

Saiba mais…

DESAFIO

Percebe como a música é a mesma

Perfeita a melodia

Eterna porque encanta

Canta-a

Entoa

 

Mas também desconfia

Da tua fala incerta

Que tua voz não mais acerta alguns acordes

Que tuas cordas não vibram como deveriam

Que teu sopro antes tão forte quase não assobia

Que teu peito não vibra apenas chia

Que tua memoria esquece o refrão

Que os ouvidos apagam esse teu som

Que viver é esse perpétuo desafio

 

PSRosseto

Saiba mais…

TRANSFIGURAR-SE

Jamais te acostumes à eternidade

Ande tão disforme que precises

A sensação do apodrecer

Do definhar

Do inexistir

Do empobrecer a própria pele

 

Não finjas que a beleza está

Somente onde há luz iluminando-a

Nem mais sábio e leve sejas

Ao tentar omitir e ocultar de ti

Os sentidos dos teus próprios males

 

Apiede silenciosamente às tuas entranhas

As tuas dores

Para que vejas em outros olhos

Quando prazerosamente sorrirem fitando-te

Ainda que destemperados

Da vida todos os sabores

 

Santifique teu presente

Fartando-te das tuas verdades

 

PSRosseto

Saiba mais…

O QUE DIGO QUE DIGO

O que digo que digo

São máximas ditas para que reflitas

E se acreditas também a outros repitas

 

Mas se não dizes e omites refletir

Como posso mais eu convencer-te

De que o que te é explícito ao ouvir-me

Deixa de estar nítido e implícito

E deverá servir-te e aos teus?

 

Confesso-te que se dissesses

Essas mesmas verdades nuas assim

Conhecendo-me como sei de mim

Por certo não te iria acreditar

Posto que duvidar é muito mais insano

Que qualquer outro item a crer

 

Mas ainda que apregoemos em vão

Sabemos que o mísero humano em cada um

Suplanta a imensidão no vazio

Ante a oculta face do infinito ao que é

 

A isto chamam verdades

Em nós denominamos fé

 

PSRosseto

Saiba mais…

INVOLUNTÁRIOS

Tenho vontade de pular o muro

Sair da rua

Cair no teu quintal

Enfrentar tuas sombras correndo atrás dos meus dilemas

 

Você também poderia

Vir agora em meu pomar

Trazer mais flores para o jardim

Recolher as roupas estendidas no varal ou despi-las

 

Poderíamos nos encontrar em qualquer um dos portões

Da minha casa ou da sua

Conversar pelo interfone

Dizer se chove ou faz frio se tem sol ou noite ou lua

 

Combinar um pernoite

Qualquer café num perfume

 

Mas continuamos involuntários

Certos de que as vontades passam

Bastando ignora-las como fazemos com as ousadias

 

Enquanto isso a noite morre o dia

 

PSRosseto

Saiba mais…

SUSTENTAÇÃO

Pelas asas que não tenho, voo e vou

Vou em voo em pleno movimento

Nessa indefinida avenida de vento

 

Com o dinheiro que não ganho

Não logro, adquiro, almejo ou possuo

Descontinuado do que apago e apego

 

Dos males que não causo

Descanso a consciência em descaso

Não me culpando por não lhes ser dono

 

Aos valores que me dizem amar-me

Desarmo e fraciono o querer de pronto

Repartindo a alma por resposta

 

Entre as dádivas que me cabem

Quito-as à medida que posso

Para que me saiam mais caras

 

Mas ao tempo que me resta

Que não sei ser longo ou mínimo

Silencia a morte minha orquestra

 

Que este incondicional amor me siga

Em sua interativa sustentação

Mas não me cegue

 

PSRosseto

Saiba mais…

POÉTICOS

A minha boca

É um velho copo pedindo agua

Para um lodoso pote pela metade

De um surrado corpo cheio de sede

 

Tua generosidade

Oferta-me em taça de cristal fino

O verde extrato das uvas raras

Jovial vinho servido em jarras

Inebriante néctar divino

 

Somos o contraponto

Entre o ébrio e o equilíbrio

Líquidos porem éticos

Herméticos ainda que sóbrios

Absolutamente líricos

 

PSRosseto

Saiba mais…

OBSCURO

Há no mar um lado profundamente escuro

Porque a luz do sol ao fundo ali congela

Escura também é uma face da lua amarela

Escuro o firmamento

Escuro o ventre onde não lembramos ter estado

Escurecida a noite indecisa de olhos fechados

Imprecisas vão às cegas germinar o sono escorraçadas

No seio das covas preservando o sonho das raízes nas sementes

 

Iluminamos a banda escura da terra

No fogo das ideias descansamos as lanternas

Incineramos o desejo ardente pelo nascer fugidio da morte

Mas o mundo debela cruel diariamente apesar da fé

O clarear solitário do obscuro lado grotesco da gente

 

PSRosseto

Saiba mais…
CPP