Alba
J. A. Medeiros da Luz
Iara, saudando a aurora, canta.
Por que haveria de o jaguar com fome
Abortar, do galho folhoso onde se esconde,
O salto sobre o lombo dessa capivara?
Iara, saudando a aurora, canta.
Por que a preá do brejo, farejando
Os tenros rebentos da orla de argila,
Iria estacar na trilha, num espanto,
Olvidando o roer do estômago vazio?
Iara, a saudar a aurora, canta.
Possível seria, meus senhores, que desalçassem
Seu planar na atmosfera e — corcundas, pensabundos —
Os urubus viessem a pousar
Nessas forquilhas ressecadas desse angico
Depenado de raios, a casca tostada de sol,
Quase nas fímbrias refrescante do ribeiro?
Não obstante,
O jaguar estaca o salto sobre a presa;
A preá, boquiaberta, alça o crânio, a farejar as notas;
Os urubus assuntam, filosóficos, em deleite;
Tudo porque essa musa úmida das águas,
De tranças aromadas com óleo de copaíba,
Orvalhada dos respingos d’água no lajedo
Onde, tão perfumosa e hipnótica, se acama
— tudo porque, leitora minha, ela
(Emulando Israfel, o decantado arcanjo
De coração trançado com cordas de alaúde),
Ela, Iara, se pôs a cantar, divinamente
Saudando a epifania de mais uma aurora....
Ouro Preto, 2025 — março, 20.