Ao cair da tarde
J. A. Medeiros da Luz
A derradeira folha da estação voou.
O pelame desnudo, suberificado,
É relíquia de épocas primaveris
E dessas emoções que, ao cabo, se amortecem.
Os colibris buscaram em plagas mais distantes
O néctar extasiante de retintas pétalas;
Pétalas rutilantes de verões intensos.
Manadas colossais puseram-se em marcha
Naquela transumância por verdes pastagens,
Para dar de comer aos rebentinhos frágeis
E junto empanturrarem-se a si de vida,
Já consubstanciada em seiva nutritiva.
Cá nestas latitudes, todavia, sei
Que outras estações avante vão surgir
E, nelas, incontáveis risos de crianças;
E, nelas, o aroma forte das campinas.
E, com elas, virão voejos e desejos
De manter acendida a mágica centelha
Da vida, esta fugaz espuma a bordejar
— Pelo bater das vagas — a mais que longínqua
Das linhas litorâneas: a praia dos sonhos.
Ouro Preto, 20 de junho de 2026.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]