Diagnose
J. A. Medeiros da Luz
Verdade:
Extasio-me ante uma campina ondulante,
Por onde vagam, buliçosas, doidivanas borboletas
No antegozo de néctar, no gozo do simples viver
Sem azimutes programados.
Amo o ermo das linhas de cumeadas
E o murmúrio brando dos córregos nos grotões,
Salpicado pelo voar esquivo de corruíras, caga-sebos
Na orla dos barrancos resvaladiços como sebo.
Sou avesso, em contraponto, ao bulício da ágora.
Avesso sou também ao fascínio dos salões.
Pouco se me dá se os papéis da bolsa
Derreterem, naquele pânico galináceo
Dos heróis da antevéspera,
Do salve-se quem puder da manada com Rolex.
Comovo-me, com transporte, em contraste,
Com a harpa eólia insuflada pelo vento
Nas frondes farfalhantes dos ipês,
Quando setembro surge na folhinha
E mais a polifonia das aves do matagal.
E que doce emoção no crepitar estrepitoso,
Durante o marchar com fleugma, pisoteando
As folhas ressequidas no final de outono!
Pois é; não há negar:
Sou mesmo um caipirão com gosto.
Ouro Preto, 15 de abril de 2026.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]