A propósito de recente cumpreanos
J. A. Medeiros da Luz
Tendo eu ultrapassado outro marco
Miliário em que o número avulta,
Não contem que lhes conte peripécias,
Nem finais comoventes; não, amigos.
Pois, havendo da roda da fortuna
O cômputo de mais dois pi radianos,
Percebo, com hialina transparência
Que no final das contas nós não somos
E, somente, ao contrário, nós estamos.
Nesse fluir dinâmico da vida
Não há essência, há só contingência;
E nessa impermanência só nos sobra
Pegadas vacilantes na argila,
Que é fruto afinal de chuva sobre
Fumarolas vulcânicas e pântanos.
Somos tão passageiros como aquelas
Efêmeras, efêmeras libélulas
E impados da ilusão de eternitude.
Mas, em contraste a essa nulidade,
Ousamos sustentar (brilhamos sempre!)
Categoricamente, que, afinal,
Qualquer ente que sonha — logo existe.
Ouro Preto, 02 de março de 2026.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]