Posts de J. A. Medeiros da Luz (75)

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Diagnose

     Diagnose

     J. A. Medeiros da Luz

   

      Verdade:

     Extasio-me ante uma campina ondulante,

     Por onde vagam, buliçosas, doidivanas borboletas

     No antegozo de néctar, no gozo do simples viver

     Sem azimutes programados.

     Amo o ermo das linhas de cumeadas

     E o murmúrio brando dos córregos nos grotões,

     Salpicado pelo voar esquivo de corruíras, caga-sebos

     Na orla dos barrancos resvaladiços como sebo.

     Sou avesso, em contraponto, ao bulício da ágora.

     Avesso sou também ao fascínio dos salões.

     Pouco se me dá se os papéis da bolsa

     Derreterem, naquele pânico galináceo

     Dos heróis da antevéspera,

     Do salve-se quem puder da manada com Rolex.

     Comovo-me, com transporte, em contraste,

     Com a harpa eólia insuflada pelo vento

     Nas frondes farfalhantes dos ipês,

     Quando setembro surge na folhinha

     E mais a polifonia das aves do matagal.

     E que doce emoção no crepitar estrepitoso,

     Durante o marchar com fleugma, pisoteando

     As folhas ressequidas no final de outono!

     Pois é; não há negar:

     Sou mesmo um caipirão com gosto.

 

 

 

Ouro Preto, 15 de abril de 2026.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

 

 

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Dama com ramalhete, sem arminho

Dama com ramalhete, sem arminho

 J. A. Medeiros da Luz

 

Eu não pincelo girassóis em vasos,

Nem ciprestes flamejantes de emoções

No índigo estrelado da noite.

Não há trigais onde soltar meus corvos e urubus

Sobre o ilimitado amarelo ondulante de espigas.

 

Desconheço a técnica para iluminar

(Mesclando pigmentos, hormônios e matizes)

De quentes luzes tropicais uns corpos

Feminis e robustos e cálidos

E morenos do mar do Taiti.

 

Também narcisos, aguapés, nenúfares,

Em cromatismo intenso,

Desfrequentaram

Minha esquálida paleta,

Minha tela de imprimadura intacta,

Com o alvaiade fosco esperando,

Sempre infrutiferamente e sem remédio,

O pontilhismo de vibrantes tons.

 

Nem sequer cubos, poliedros

— Transfeitos em torsos, faces rebatidas —,

Relógios a derreter na impersistência

Consigo extrair (por mais que tente)

Da alma, via espátula e pincel.

Pobre borra-tintas que sou eu!

 

Mas, se cerro os olhos e me encerro

Naquele calabouço úmido do espírito,

Com fosforescências e reminiscências a pulsar

No mesmo compasso do músculo cardíaco,

No mirar a parede calva veramente me extasio

Ao contemplar, nítida e imersa em brilho,

Sobraçando feixe de rosas carminadas,

A minha Gioconda, a estampar

Os suaves, suaves traços fisionômicos

De você; sim, de você, querida…

 

 

Belo Horizonte, 2 de abril de 2026.

                                                               [Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

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Vivissecção

Vivissecção

 

J. A. Medeiros da Luz

Asseveram-me que sou constituído

De zilhões dos tais átomos, moléculas

Regidas por fitilhos proteicos, enovelados

Em milhares de elos de bases nitrogenadas.

E as sinapses neuronais em surto

Eletrobioquímico,

Quase entrelaçando as mãos

— Tais como, segundo mestre Michelangelo,

Aquele toque digital divino

Na mão suja de argila de Adão —,

Insuflam-me, em escala microscópica,

Este transiente hálito vital,

Num algoritmo prenhe de magia que suscita

(Fazendo-se ex-abrupto a luz) o pensamento,

Que conduz ao mistério do sentir.

 

Asseveram-me com ar doutoral;

E devem, pois, estar corretíssimos…

Mas, em sendo assim, por que

Minha pobre alma tem por irrefutável

Que é maior que a soma das parcelas,

Embora assumindo que ela (oh fadário!)

Apenas mimetiza as brisas, enquanto aqui?

 

 

 

Ouro Preto, 28 de março de 2026.

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Atinamento

 

Atinamento

 

J. A. Medeiros da Luz

Aonde irei, amiga, nesta noite espessa

Para posicionar-me e vantajosamente

Quando de cores cem a aurora transbordar-se —

Poder me alvorecer de colorido intenso?

 

Que cordilheira, amiga, devo eu escalar

Para fruir no ar a gama dos aromas

Com que a primavera aos seres presenteia,

Suscitando suspiros, pálpebras cerradas?

 

Mas cá (pensando bem) devo permanecer

Esperando, com fé, que destas nuvens grises

Surja vossa mercê, tão plena e dadivosa,

Ofertando-me as cores claras dum sorriso

E — numa completude eterna do momento —

De sua epiderme o olor inebriante.

  

 

Ouro Preto, 20 de março de 2026.

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A propósito de recente cumpreanos

     A propósito de recente cumpreanos

     J. A. Medeiros da Luz

 

     Tendo eu ultrapassado outro marco

     Miliário em que o número avulta,

     Não contem que lhes conte peripécias,

     Nem finais comoventes; não, amigos.

     Pois, havendo da roda da fortuna

     O cômputo de mais dois pi radianos,

     Percebo, com hialina transparência

     Que no final das contas nós não somos

     E, somente, ao contrário, nós estamos.

 

     Nesse fluir dinâmico da vida

     Não há essência, há só contingência;

     E nessa impermanência só nos sobra

     Pegadas vacilantes na argila,

     Que é fruto afinal de chuva sobre

     Fumarolas vulcânicas e pântanos.

 

     Somos tão passageiros como aquelas

     Efêmeras, efêmeras libélulas

     E impados da ilusão de eternitude.

 

     Mas, em contraste a essa nulidade,

     Ousamos sustentar (brilhamos sempre!)

     Categoricamente, que, afinal,

     Qualquer ente que sonha — logo existe.

 

 

Ouro Preto, 02 de março de 2026.

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Exílio (em que pese o salmo)

Exílio (em que pese o salmo)

 

J. A. Medeiros da Luz

 

Impelido às barrancas nuas destes rios

Se escorregando sobre a adusta Babilônia,

Lacrimejo, só, nestes tempos doentios,

Sem o reconfortante sonhar por Antônia.

 

Nem me ordenam da cítara uns atavios

Musicais no jardim de rosas, helicônias.

 

Que, por você, Antônia, esqueço de meus brios

E — longe do Sião, cativo em Babilônia —,

Em terra estrangeira, canto em arrepios…

 

Em que se tornam os dias, sem você, Antônia?

Odres esvaziados, velas sem pavios,

Cascatas no Saara, verões na Lapônia.

 

 

 

Ouro Preto, 13 de dezembro de 2025.

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Infrator

Infrator

 

J. A. Medeiros da Luz

E tu, Jota, que agora eis que te flagro,

Com uma furtiva lágrima jacente,

Cai-não-cai, molhando-te a pestana;

Gotícula incômoda que a custo tu disfarças.

¿Suscitaram-na razões concretas,

Ou foi aquela inutilidade percebida,

Enfim, das coisas, dos entes, dos anelos?

Pobre de ti, meu caro Jota,

Já que escarafunchei os teus segredos!

Nas trevas a sombra fica enorme:

Por-te-ei em maus lençóis, trombeteando

Às urbes e ao orbe pleno de urzes,

Que tu te pões em desconsolo,

Em ocasiões de solitude e de silêncios;

Quando o firmamento se parece

Com insondável abismo invertido,

De ponta-cabeça, umbroso valhacouto

De renegados titãs, anjos decaídos,

Deuses furibundos e salteadores…

E digo mais, ó gentil cavalheiro:

De nada valerá se tu bateres — em vero surto —

A cabeçorra nas paredes de teu quarto.

Amanhã mesmo verás o quanto voa

Uma mísera confidência assoprada

Aos ventos etéreos desse globo virtual,

Deste vasto brejão digital e cibernético.

 


Brasília, 09 de novembro de 2025.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

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Carro plasmado de neblinas

Carro plasmado de neblinas

J. A. Medeiros da Luz

 

Desde o romper da aurora,

Na estrada, a custo carroçável,

Desta velhusca rede neural, microvoltaica,

Palavras — tardas, rudes, resilientes e bovinas —

Tracionam, sob cangalhas de aroeira,

O carro de bois, em cantilena dolente e ininterrupta,

A carretar, em seu bojo, aquele ouro

De centenas de espigas granadas de sonhos.

 

Morcego e Paladino!

Cascavel e Tarumã!

Eia, aguentem firme, vamos!

Que já não tarda o noitejar.

E lá se vão!

Lá se esfuma, por fim, a comitiva

Na poeira das sendas e veredas.

 

Sabe-se lá onde há de parar o frete,

E que paiol há de estocar a carga,

Tão zelosamente conduzida,

Por brejos, areais, gargantas e cerrados

Tracionada, sem descanso, sem descanso,

Pela incansável tropa das palavras

Esses colossos de vigor e de neblina.

 

 

Goiânia, 2025 – setembro, 19.

[© J. A. M. Luz]

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Tapera

Tapera

J. A. Medeiros da Luz

Depauperada tapera, com a sua carnadura

Desfibrada por décadas tentaculares do passado,

Agora reverbera, estala, sob o sol a pino.

Tênues fitilhos de vento se entrelaçam

Com as gavinhas e inflorescências

De colônia de vistosas, ridentes trepadeiras

Que hoje lhe engrinaldam a pobre carcaça,

Agrisalhado fóssil mineral.

Quantas vidas, emoções, dramas terão visto,

Naqueloutras vetustas eras rutilantes,

Sua argamassa, seus tijolos, seu madeirame?!

Quando a molecada, no terreiro ao redor,

Delimitado por cercas de taboca seca,

Corria descalça e brincante e insciente do futuro;

Quando, às janelas, se debruçavam

Moças suspirosas com as faces

— Bochechas de chocolate e romã.

Mas nesta atmosfera, neste halo

Entremesclado de tempo e pó e nostalgia,

Flutua mesmo um quê do sortilégio

Surdido dos seres eternos,

Um quê daquela magia sutil dos lacrimais

A escorregar-se, a colear, por entre as rugas

Do terreno alcatifado de folhas úmidas de sombra!

E o transeunte, apurando ouvidos,

Por essas trilhas desfrequentadas há de ouvir,

No romper da alva, no lusco-fusco do finar do dia,

Uns risos amigos com proseio manso, um olor de café...

Provando cabalmente que a vida

Essa que já passou — Deus meu! — não passa.

 

 

 

Ouro Preto, 2025 – agosto, 20.

[© J. A. M. Luz]

 

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O destino e seus prometimentos

O destino e seus prometimentos

J. A. Medeiros da Luz

 

A drapejar, flâmulas, às dezenas,
Golpeadas rijamente pelo vento
Invernal, entre intervalados
Comandos de trombetas, lá esperam,
Com o patear nervoso dos cavalos,
O início decisivo da batalha.

Césares, para além do Rubicão,
Às fartas, lançam dados, cubos numerados
Face a face, pelos ares, em demanda
De augúrios que lhes sejam favoráveis.

Quantos deles, nos perguntamos afinal,
Arrojando-se, insensatos, em tais conquistas,
De "sempre mais, sempre mais", por oceanos,
Por vales, por planícies e por desfiladeiros,
Terminam, ao cabo das campanhas feras,
Por coligir cachos, pencas volumosas
— Bando de corvos do infausto Poe —
De ecos lancinantes repetindo:
"Nunca mais, nunca mais e nunca mais"?

 

Ouro Preto, 2025 – julho, 16.

[© J. A. M. Luz]

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Jornada onírica

Jornada onírica

— J. A. Medeiros da Luz

 

Neste sonho neblinoso que me ocorre

Transporto-me adiante duma cena,

Algo cubista eu diria, ladrilhada

De magentas, ocre, terra de siena,

Envolvendo o humano sentado em seu aprumo,

De chapéu preto combinado

Com seu fato negro e a gravata

A mimetizar negra borboleta

Pousada sobre a alvura da gola justo

Sob o pomo de adão daquele utente.

E uns olhos guarnecidos de lentes hialinas,

Perscrutadores de brumas, devaneios,

Para além do bigodito burocrático e curtido

Do fumo a efluir do cigarrinho aceso,

Brincante entre indicador e médio.

Há folha de papel e caneta-tinteiro

Soltas sobre a mesa, em contraponto

A exemplares empilhados da fugaz

Revista Orpheu (que o Senhor a tenha)

E mais a chávena de café à frente.

Deus meu! Agora vejo claramente:

Eis que fui transportado por magia

Ao escritório, ao bar — ateliê poético —

Daquele titã lusófono e magrelo,

Pleno, pleno de sortilégios,

Que atendia aos apelos de Calíope e de Orate

(Musas do verso e um tanto inatingíveis)

Por ortônimo e por muitos

Muito enigmáticos heterônimos.

Ouro Preto, 2025 – junho, 26.

[© J. A. M. Luz]

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Desiderando

Desiderando

 

J. A. Medeiros da Luz

As falanges do diabo estão à solta.

A galinha ômega — oh, coitada!

Impelida por arroubo de otimismo —,

Almejava a galgar o alfabeto

E de peito estufado

De penas brilhosas, reluzentes,

Bicar — como alfa que seria —

Aquela insolente que ousasse

Cruzar o seu caminho

Sem a devida vênia.

Pobre galinha ômega:

Pereceu de hipotermia em uma noite,

Em canto úmido de seu galinheiro;

O pescoço rijo, (em partes) depenado

Pelos bicos das galinhas

Alfa e beta e gama e delta…

Enquanto aquelas de início ditas

Hordas buliçosas de demônios

Uivavam, gargalhavam nas espiras de trevas,

Cavalgando o vento.

Mas, cumpre informar, amigos, que nossa galinha

Ascendeu ao paraíso galináceo

E, hoje, são dela vastos ares dos dourados

Arrozais e trigais do paraíso,

Dourados de espigas farfalhantes ao sol.

Ouro Preto, 2025 — junho, 15.

[© J. A. M. Luz]        

 

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Daguerreótipo

 

Daguerreótipo

J. A. Medeiros da Luz

Uma parede clara, em tom pastel.

À frente dessa parede clara,

Uma silhueta humana

Exibindo delgada faixa marfínea de um sorriso.

Dependurado no canto superior direito da parede,

O cilindro esmaltado de um relógio

(Centelhando sua calota vítrea)

Envelopa ponteiros, estando um deles, marchante,

A acoplar-se com continuado e audível

Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Dia virá em que terão cessado:

O mecanismo de engrenagens propelidas,

A verticalidade dos tijolos argamassados,

O claro tom pastel.

E da humana silhueta restará

O vaporoso ectoplasma de emoções,

De lembranças a evanescer,

Na cadência de outras silhuetas,

Que, igualmente, a seu devido tempo,

Hão de se diluir, imitando

— Na natural ordem entrópica, antrópica da vida —

Aquele deslembrado vulto predecessor.

Aquela silhueta que, posando,

Não se apercebia

De que, em verdade,

Todos, todíssimos relógios

Contam regressivamente.

 

Ouro Preto, 2025 — maio18.

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Alba

Alba

J. A. Medeiros da Luz

 

Iara, saudando a aurora, canta.

Por que haveria de o jaguar com fome

Abortar, do galho folhoso onde se esconde,

O salto sobre o lombo dessa capivara?

 

Iara, saudando a aurora, canta.

Por que a preá do brejo, farejando

Os tenros rebentos da orla de argila,

Iria estacar na trilha, num espanto,

Olvidando o roer do estômago vazio?

 

Iara, a saudar a aurora, canta.

Possível seria, meus senhores, que desalçassem

Seu planar na atmosfera e — corcundas, pensabundos —

Os urubus viessem a pousar

Nessas forquilhas ressecadas desse  angico

Depenado de raios, a casca tostada de sol,

Quase nas fímbrias refrescante do ribeiro?

 

Não obstante,

O jaguar estaca o salto sobre a presa;

A preá, boquiaberta, alça o crânio, a farejar as notas;

Os urubus assuntam, filosóficos, em deleite;

Tudo porque essa musa úmida das águas,

De tranças aromadas com óleo de copaíba,

Orvalhada dos respingos d’água no lajedo

Onde, tão perfumosa e hipnótica, se acama

— tudo porque, leitora minha, ela

(Emulando Israfel, o decantado arcanjo

De coração trançado com cordas de alaúde),

Ela, Iara, se pôs a cantar, divinamente

Saudando a epifania de mais uma aurora....

 

Ouro Preto, 2025 — março, 20.

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Colheita

Colheita

J. A. Medeiros da Luz

 

Nas gavetas sanguíneas do entardecer

Conservo os meus ricos guardados,

Etéreos, de valor não mais que virtual,

Tatuados nas dobras e vilosidades

Do espírito, indeléveis enquanto

As procelas dos dias não delirem

Os cordéis que as Parcas manipulam.

 

Nas gavetas sanguinolentas — entre malva,

Vermelho e açafrão — da tarde,

Levanto minha taça do sentir.

Longo  foi o dia; a lida forte, bátegas

De suor rolando, mercê da gravidade,

Para fertilizar o eito, em que pese

Pedregões ventrudos,

A  entortar enxadas e ancinhos e arados.

 

Levanto a taça do sentir,

Esvaziada de rancores, malquereres;

E plena e leve (qual esta plumazita

De pardal que, justamente agora,

Flui à deriva,  ao sabor da brisa,

À frente de meus olhos exauridos).

 

É leve e plena de enlevo, essa taça:

Plena de gratidão às potestades

Pelos embriões — já a escancarar os cotilédones

No romper caminhos pelo solo arroteado,

Naquela busca ávida, ávida

Pela luz e cores e fótons das auroras,

As quais, para eles — os rebentos — , não demoram.

 

Ouro Preto, 2025 — março, 03.

 

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Centelhamento

Centelhamento

 por J. A. Medeiros da Luz

Remiro, bem de viés, este tampo

Da velha amiga escrivaninha

(Que o sol invernal — de viés também — alveja)

E vejo o pardo baço dos argueiros da poeira

Que os secos dias do presente insuflaram,

Mas Zéfiro falhou no transportá-los,

Para mais além.

Haverá, igualmente, em paralelismo,

Na ponta da caneta, encrustada,

Aquela tinta, que tantas emoções já graficou?

 

A chalupa do marujo encarquilhado,

A sela do exaurido tropeiro, ajaezada,

Já se escangalharam pelas intempéries?

Já se corroeram pelas cracas e moluscos que,

Sub-repticiamente, subaquaticamente,

Aderem-se ao casco da existência?

 

Avante, pois, meu bom homem!

Que a mula do destino ainda espera;

Avante, que o mar dos desafios

Ainda se contorce em vagalhões e mil procelas.

 

E tu, denodado Dom Quixote ressurrecto,

Haverás de persistir em demanda do Santo Graal,

Em demanda de Eldorado,

Em demanda do elmo de Mambrino,

Por mais que tenhas ainda de duelar

Com moinhos de vento,

Com megapotências poliatômicas.

 

Vai tu, meu Alter Ego, vai,

Que eu fico cá, adstrito a este tampo

De imbuia da velhusca escrivaninha,

A esperar o cristalizar dos versos, que talvez

Não mais, não mais

Eclodirão daquele limbo etéreo, nascedouro 

Dos sonhos das crianças e dos anjos...

 

 

Ouro Preto, 04 de agosto de 2024.

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Efêmeras ao vento

Efêmeras ao vento

J. A. Medeiros da Luz

 

Nem plumas, nem paina, nem besouros ou morcegos,

Ou os buliçosos periquitos altivolantes:

Somente dezenas de efêmeras ao vento!

Voo não alçam para além das altifrondosas

Castanheiras excelsas, majestáticas, 

Mantendo-se à fimbria dos regatos, nos baixios.

 

E que durar breve esse voejo com membranas de vidro

Perpassadas dos tentáculos da brisa e dos segundos!

As bolhas que à tona do pântano se inflam

Serão as únicas a com elas ousarem disputar

A brevitude da vida, o finar dos desejos,

O depositar da essência sobre a lousa,

Gélida lousa da entropia da morte.

 

Mas, em que pese a efemeridade dos esquivadiços

Arabescos rápidos do voo,

Persiste, a quem nas contemple,

Uma duradoura mensagem, uma

Espécie mesmo de reconforto:

 

— Esse lerdo primata ostenta igual destino;

O sopro do existir, para esse tonto,

Não superará em muito o nosso próprio;

Mero toco de vela, feita da cera da vaidade,

Bruxuleando na penumbra do universo,

Através de transitório perdurar... e só.

 

 Ouro Preto, 14 de julho de 2024.

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Visita na antemanhã

Visita na antemanhã

 por J. A. Medeiros da Luz

 

— Yossefe, assunte: tem uns caboclos chegando!

De três deles diviso os vultos na areia.

E lá vêm esses três montados em camelos.

Deixe o bebê no cocho, Yossefe, com as cabras,

E mais esses burricos e mais essas ovelhas;

Largue-o um só instante, que os peregrinos

Marcham em direitura para este aprisco.

 

— Sim, Miriam, e vejo também, lá no alto,

Uma estrela brilhosa sobre os caminhantes.

E são ricos... percebo as muitas pedrarias,

Rutilando igualzinho a estrelas nos arreios!

Ó doce Miriam, com medo me pergunto:

Que vieram fazer aqui por Nazaré??

 

 

Ouro Preto, 21 de janeiro de 2024.

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Ocaso

Ocaso

por J. A. Medeiros da Luz

 

Degustando um café, observo da varanda,

Ao lusco-fusco, no clarão sanguinolento,

Sobre os cumes dos montes, à luz do crepúsculo,

No que outras dezenas de asas buscam ninho,

De dorso azul negrusco uma andorinha única

Exibe acrobacias rápidas, nervosas,

Talvez tragando no ar desditosos insetos,

E quase competindo com algum morcego.

 

Nos últimos trinados que se ouvem, parcos,

A noite se avizinha e não demora muito

A lançar essa tal tarrafa de penumbras

Sobre os mil sortilégios secretos da noite.

 

— Recolha-te ao abrigo, ó louca avezinha,

Que a noite se avizinha, a pouco se avizinha!

Amanhã terás inda mais um novo dia,

Para teceres vãs evoluções ao vento.

E quem tal me sussurra chama-se Esperança.

 

Ouro Preto, 10 de dezembro de 2023.

 

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CPP