Posts de J. A. Medeiros da Luz (69)

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Exílio (em que pese o salmo)

Exílio (em que pese o salmo)

 

J. A. Medeiros da Luz

 

Impelido às barrancas nuas destes rios

Se escorregando sobre a adusta Babilônia,

Lacrimejo, só, nestes tempos doentios,

Sem o reconfortante sonhar por Antônia.

 

Nem me ordenam da cítara uns atavios

Musicais no jardim de rosas, helicônias.

 

Que, por você, Antônia, esqueço de meus brios

E — longe do Sião, cativo em Babilônia —,

Em terra estrangeira, canto em arrepios…

 

Em que se tornam os dias, sem você, Antônia?

Odres esvaziados, velas sem pavios,

Cascatas no Saara, verões na Lapônia.

 

 

 

Ouro Preto, 13 de dezembro de 2025.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

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Infrator

Infrator

 

J. A. Medeiros da Luz

E tu, Jota, que agora eis que te flagro,

Com uma furtiva lágrima jacente,

Cai-não-cai, molhando-te a pestana;

Gotícula incômoda que a custo tu disfarças.

¿Suscitaram-na razões concretas,

Ou foi aquela inutilidade percebida,

Enfim, das coisas, dos entes, dos anelos?

Pobre de ti, meu caro Jota,

Já que escarafunchei os teus segredos!

Nas trevas a sombra fica enorme:

Por-te-ei em maus lençóis, trombeteando

Às urbes e ao orbe pleno de urzes,

Que tu te pões em desconsolo,

Em ocasiões de solitude e de silêncios;

Quando o firmamento se parece

Com insondável abismo invertido,

De ponta-cabeça, umbroso valhacouto

De renegados titãs, anjos decaídos,

Deuses furibundos e salteadores…

E digo mais, ó gentil cavalheiro:

De nada valerá se tu bateres — em vero surto —

A cabeçorra nas paredes de teu quarto.

Amanhã mesmo verás o quanto voa

Uma mísera confidência assoprada

Aos ventos etéreos desse globo virtual,

Deste vasto brejão digital e cibernético.

 


Brasília, 09 de novembro de 2025.

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Carro plasmado de neblinas

Carro plasmado de neblinas

J. A. Medeiros da Luz

 

Desde o romper da aurora,

Na estrada, a custo carroçável,

Desta velhusca rede neural, microvoltaica,

Palavras — tardas, rudes, resilientes e bovinas —

Tracionam, sob cangalhas de aroeira,

O carro de bois, em cantilena dolente e ininterrupta,

A carretar, em seu bojo, aquele ouro

De centenas de espigas granadas de sonhos.

 

Morcego e Paladino!

Cascavel e Tarumã!

Eia, aguentem firme, vamos!

Que já não tarda o noitejar.

E lá se vão!

Lá se esfuma, por fim, a comitiva

Na poeira das sendas e veredas.

 

Sabe-se lá onde há de parar o frete,

E que paiol há de estocar a carga,

Tão zelosamente conduzida,

Por brejos, areais, gargantas e cerrados

Tracionada, sem descanso, sem descanso,

Pela incansável tropa das palavras

Esses colossos de vigor e de neblina.

 

 

Goiânia, 2025 – setembro, 19.

[© J. A. M. Luz]

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Tapera

Tapera

J. A. Medeiros da Luz

Depauperada tapera, com a sua carnadura

Desfibrada por décadas tentaculares do passado,

Agora reverbera, estala, sob o sol a pino.

Tênues fitilhos de vento se entrelaçam

Com as gavinhas e inflorescências

De colônia de vistosas, ridentes trepadeiras

Que hoje lhe engrinaldam a pobre carcaça,

Agrisalhado fóssil mineral.

Quantas vidas, emoções, dramas terão visto,

Naqueloutras vetustas eras rutilantes,

Sua argamassa, seus tijolos, seu madeirame?!

Quando a molecada, no terreiro ao redor,

Delimitado por cercas de taboca seca,

Corria descalça e brincante e insciente do futuro;

Quando, às janelas, se debruçavam

Moças suspirosas com as faces

— Bochechas de chocolate e romã.

Mas nesta atmosfera, neste halo

Entremesclado de tempo e pó e nostalgia,

Flutua mesmo um quê do sortilégio

Surdido dos seres eternos,

Um quê daquela magia sutil dos lacrimais

A escorregar-se, a colear, por entre as rugas

Do terreno alcatifado de folhas úmidas de sombra!

E o transeunte, apurando ouvidos,

Por essas trilhas desfrequentadas há de ouvir,

No romper da alva, no lusco-fusco do finar do dia,

Uns risos amigos com proseio manso, um olor de café...

Provando cabalmente que a vida

Essa que já passou — Deus meu! — não passa.

 

 

 

Ouro Preto, 2025 – agosto, 20.

[© J. A. M. Luz]

 

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O destino e seus prometimentos

O destino e seus prometimentos

J. A. Medeiros da Luz

 

A drapejar, flâmulas, às dezenas,
Golpeadas rijamente pelo vento
Invernal, entre intervalados
Comandos de trombetas, lá esperam,
Com o patear nervoso dos cavalos,
O início decisivo da batalha.

Césares, para além do Rubicão,
Às fartas, lançam dados, cubos numerados
Face a face, pelos ares, em demanda
De augúrios que lhes sejam favoráveis.

Quantos deles, nos perguntamos afinal,
Arrojando-se, insensatos, em tais conquistas,
De "sempre mais, sempre mais", por oceanos,
Por vales, por planícies e por desfiladeiros,
Terminam, ao cabo das campanhas feras,
Por coligir cachos, pencas volumosas
— Bando de corvos do infausto Poe —
De ecos lancinantes repetindo:
"Nunca mais, nunca mais e nunca mais"?

 

Ouro Preto, 2025 – julho, 16.

[© J. A. M. Luz]

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Jornada onírica

Jornada onírica

— J. A. Medeiros da Luz

 

Neste sonho neblinoso que me ocorre

Transporto-me adiante duma cena,

Algo cubista eu diria, ladrilhada

De magentas, ocre, terra de siena,

Envolvendo o humano sentado em seu aprumo,

De chapéu preto combinado

Com seu fato negro e a gravata

A mimetizar negra borboleta

Pousada sobre a alvura da gola justo

Sob o pomo de adão daquele utente.

E uns olhos guarnecidos de lentes hialinas,

Perscrutadores de brumas, devaneios,

Para além do bigodito burocrático e curtido

Do fumo a efluir do cigarrinho aceso,

Brincante entre indicador e médio.

Há folha de papel e caneta-tinteiro

Soltas sobre a mesa, em contraponto

A exemplares empilhados da fugaz

Revista Orpheu (que o Senhor a tenha)

E mais a chávena de café à frente.

Deus meu! Agora vejo claramente:

Eis que fui transportado por magia

Ao escritório, ao bar — ateliê poético —

Daquele titã lusófono e magrelo,

Pleno, pleno de sortilégios,

Que atendia aos apelos de Calíope e de Orate

(Musas do verso e um tanto inatingíveis)

Por ortônimo e por muitos

Muito enigmáticos heterônimos.

Ouro Preto, 2025 – junho, 26.

[© J. A. M. Luz]

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Desiderando

Desiderando

 

J. A. Medeiros da Luz

As falanges do diabo estão à solta.

A galinha ômega — oh, coitada!

Impelida por arroubo de otimismo —,

Almejava a galgar o alfabeto

E de peito estufado

De penas brilhosas, reluzentes,

Bicar — como alfa que seria —

Aquela insolente que ousasse

Cruzar o seu caminho

Sem a devida vênia.

Pobre galinha ômega:

Pereceu de hipotermia em uma noite,

Em canto úmido de seu galinheiro;

O pescoço rijo, (em partes) depenado

Pelos bicos das galinhas

Alfa e beta e gama e delta…

Enquanto aquelas de início ditas

Hordas buliçosas de demônios

Uivavam, gargalhavam nas espiras de trevas,

Cavalgando o vento.

Mas, cumpre informar, amigos, que nossa galinha

Ascendeu ao paraíso galináceo

E, hoje, são dela vastos ares dos dourados

Arrozais e trigais do paraíso,

Dourados de espigas farfalhantes ao sol.

Ouro Preto, 2025 — junho, 15.

[© J. A. M. Luz]        

 

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Daguerreótipo

 

Daguerreótipo

J. A. Medeiros da Luz

Uma parede clara, em tom pastel.

À frente dessa parede clara,

Uma silhueta humana

Exibindo delgada faixa marfínea de um sorriso.

Dependurado no canto superior direito da parede,

O cilindro esmaltado de um relógio

(Centelhando sua calota vítrea)

Envelopa ponteiros, estando um deles, marchante,

A acoplar-se com continuado e audível

Tique-taque, tique-taque, tique-taque…

Dia virá em que terão cessado:

O mecanismo de engrenagens propelidas,

A verticalidade dos tijolos argamassados,

O claro tom pastel.

E da humana silhueta restará

O vaporoso ectoplasma de emoções,

De lembranças a evanescer,

Na cadência de outras silhuetas,

Que, igualmente, a seu devido tempo,

Hão de se diluir, imitando

— Na natural ordem entrópica, antrópica da vida —

Aquele deslembrado vulto predecessor.

Aquela silhueta que, posando,

Não se apercebia

De que, em verdade,

Todos, todíssimos relógios

Contam regressivamente.

 

Ouro Preto, 2025 — maio18.

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Alba

Alba

J. A. Medeiros da Luz

 

Iara, saudando a aurora, canta.

Por que haveria de o jaguar com fome

Abortar, do galho folhoso onde se esconde,

O salto sobre o lombo dessa capivara?

 

Iara, saudando a aurora, canta.

Por que a preá do brejo, farejando

Os tenros rebentos da orla de argila,

Iria estacar na trilha, num espanto,

Olvidando o roer do estômago vazio?

 

Iara, a saudar a aurora, canta.

Possível seria, meus senhores, que desalçassem

Seu planar na atmosfera e — corcundas, pensabundos —

Os urubus viessem a pousar

Nessas forquilhas ressecadas desse  angico

Depenado de raios, a casca tostada de sol,

Quase nas fímbrias refrescante do ribeiro?

 

Não obstante,

O jaguar estaca o salto sobre a presa;

A preá, boquiaberta, alça o crânio, a farejar as notas;

Os urubus assuntam, filosóficos, em deleite;

Tudo porque essa musa úmida das águas,

De tranças aromadas com óleo de copaíba,

Orvalhada dos respingos d’água no lajedo

Onde, tão perfumosa e hipnótica, se acama

— tudo porque, leitora minha, ela

(Emulando Israfel, o decantado arcanjo

De coração trançado com cordas de alaúde),

Ela, Iara, se pôs a cantar, divinamente

Saudando a epifania de mais uma aurora....

 

Ouro Preto, 2025 — março, 20.

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Colheita

Colheita

J. A. Medeiros da Luz

 

Nas gavetas sanguíneas do entardecer

Conservo os meus ricos guardados,

Etéreos, de valor não mais que virtual,

Tatuados nas dobras e vilosidades

Do espírito, indeléveis enquanto

As procelas dos dias não delirem

Os cordéis que as Parcas manipulam.

 

Nas gavetas sanguinolentas — entre malva,

Vermelho e açafrão — da tarde,

Levanto minha taça do sentir.

Longo  foi o dia; a lida forte, bátegas

De suor rolando, mercê da gravidade,

Para fertilizar o eito, em que pese

Pedregões ventrudos,

A  entortar enxadas e ancinhos e arados.

 

Levanto a taça do sentir,

Esvaziada de rancores, malquereres;

E plena e leve (qual esta plumazita

De pardal que, justamente agora,

Flui à deriva,  ao sabor da brisa,

À frente de meus olhos exauridos).

 

É leve e plena de enlevo, essa taça:

Plena de gratidão às potestades

Pelos embriões — já a escancarar os cotilédones

No romper caminhos pelo solo arroteado,

Naquela busca ávida, ávida

Pela luz e cores e fótons das auroras,

As quais, para eles — os rebentos — , não demoram.

 

Ouro Preto, 2025 — março, 03.

 

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Centelhamento

Centelhamento

 por J. A. Medeiros da Luz

Remiro, bem de viés, este tampo

Da velha amiga escrivaninha

(Que o sol invernal — de viés também — alveja)

E vejo o pardo baço dos argueiros da poeira

Que os secos dias do presente insuflaram,

Mas Zéfiro falhou no transportá-los,

Para mais além.

Haverá, igualmente, em paralelismo,

Na ponta da caneta, encrustada,

Aquela tinta, que tantas emoções já graficou?

 

A chalupa do marujo encarquilhado,

A sela do exaurido tropeiro, ajaezada,

Já se escangalharam pelas intempéries?

Já se corroeram pelas cracas e moluscos que,

Sub-repticiamente, subaquaticamente,

Aderem-se ao casco da existência?

 

Avante, pois, meu bom homem!

Que a mula do destino ainda espera;

Avante, que o mar dos desafios

Ainda se contorce em vagalhões e mil procelas.

 

E tu, denodado Dom Quixote ressurrecto,

Haverás de persistir em demanda do Santo Graal,

Em demanda de Eldorado,

Em demanda do elmo de Mambrino,

Por mais que tenhas ainda de duelar

Com moinhos de vento,

Com megapotências poliatômicas.

 

Vai tu, meu Alter Ego, vai,

Que eu fico cá, adstrito a este tampo

De imbuia da velhusca escrivaninha,

A esperar o cristalizar dos versos, que talvez

Não mais, não mais

Eclodirão daquele limbo etéreo, nascedouro 

Dos sonhos das crianças e dos anjos...

 

 

Ouro Preto, 04 de agosto de 2024.

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Efêmeras ao vento

Efêmeras ao vento

J. A. Medeiros da Luz

 

Nem plumas, nem paina, nem besouros ou morcegos,

Ou os buliçosos periquitos altivolantes:

Somente dezenas de efêmeras ao vento!

Voo não alçam para além das altifrondosas

Castanheiras excelsas, majestáticas, 

Mantendo-se à fimbria dos regatos, nos baixios.

 

E que durar breve esse voejo com membranas de vidro

Perpassadas dos tentáculos da brisa e dos segundos!

As bolhas que à tona do pântano se inflam

Serão as únicas a com elas ousarem disputar

A brevitude da vida, o finar dos desejos,

O depositar da essência sobre a lousa,

Gélida lousa da entropia da morte.

 

Mas, em que pese a efemeridade dos esquivadiços

Arabescos rápidos do voo,

Persiste, a quem nas contemple,

Uma duradoura mensagem, uma

Espécie mesmo de reconforto:

 

— Esse lerdo primata ostenta igual destino;

O sopro do existir, para esse tonto,

Não superará em muito o nosso próprio;

Mero toco de vela, feita da cera da vaidade,

Bruxuleando na penumbra do universo,

Através de transitório perdurar... e só.

 

 Ouro Preto, 14 de julho de 2024.

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Visita na antemanhã

Visita na antemanhã

 por J. A. Medeiros da Luz

 

— Yossefe, assunte: tem uns caboclos chegando!

De três deles diviso os vultos na areia.

E lá vêm esses três montados em camelos.

Deixe o bebê no cocho, Yossefe, com as cabras,

E mais esses burricos e mais essas ovelhas;

Largue-o um só instante, que os peregrinos

Marcham em direitura para este aprisco.

 

— Sim, Miriam, e vejo também, lá no alto,

Uma estrela brilhosa sobre os caminhantes.

E são ricos... percebo as muitas pedrarias,

Rutilando igualzinho a estrelas nos arreios!

Ó doce Miriam, com medo me pergunto:

Que vieram fazer aqui por Nazaré??

 

 

Ouro Preto, 21 de janeiro de 2024.

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Ocaso

Ocaso

por J. A. Medeiros da Luz

 

Degustando um café, observo da varanda,

Ao lusco-fusco, no clarão sanguinolento,

Sobre os cumes dos montes, à luz do crepúsculo,

No que outras dezenas de asas buscam ninho,

De dorso azul negrusco uma andorinha única

Exibe acrobacias rápidas, nervosas,

Talvez tragando no ar desditosos insetos,

E quase competindo com algum morcego.

 

Nos últimos trinados que se ouvem, parcos,

A noite se avizinha e não demora muito

A lançar essa tal tarrafa de penumbras

Sobre os mil sortilégios secretos da noite.

 

— Recolha-te ao abrigo, ó louca avezinha,

Que a noite se avizinha, a pouco se avizinha!

Amanhã terás inda mais um novo dia,

Para teceres vãs evoluções ao vento.

E quem tal me sussurra chama-se Esperança.

 

Ouro Preto, 10 de dezembro de 2023.

 

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Arquimandrita

Arquimandrita

J. A. Medeiros da Luz

 

Ao se despedir das luzes, solitário,

O velho prior suplica, cantando ao vento,

O qual suscita o farfalhar das folhas

Neste alto de colina onde demoram

— Em cogitações silentes, fluidas,

Que nem pétalas à deriva no igarapé,

Quais arabescos de polens voejantes —

Seres angelicais, etéreos, plasmados a brisa.

 

Pois, assim, poderão eles insuflar,

Naqueles ignotos grotões do paraíso,

O eco das notas lamentosas do asceta,

A estradar a santidade, tão dificultosa,

Via o sinceríssimo fervor do salmo.

 

E, no que escoa o mistério imponderável

Da sucessão gotejante dos instantes,

Aves altivolantes, que giram com vagar,

Circum-navegando o limiar do zênite,

Por ventura põem-se lá a inquirir:

 

— Por que, após milênios, voltamos a ouvir,

A levitar nos rarefeitos ares da montanha,

Tais sílabas intensas em aramaico, idioma

Vetusto, proferido tendo sido, por primeiro,

Tão longinquamente deste outeiro,

Tingido, no momento, da luz do entardecer,

Tangido, no momento, dos dedos vaporosos do vento,

Já soluçante agora, em coro monotônico,

E em linha melódica com o velho santo?

 

Ouro Preto, 12 de novembro de 2023.

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Herói

Herói

J. A. Medeiros da Luz

Licht, mehr Licht! — [atribuído a] J. W. Goethe.

 

Eis, pois, que capitulo: desativo

O meu sabre de luz depois de muitas

Batalhas pelas causas improváveis.

Atiro ao monturo o meu elmo,

Mambrino invencível das galáxias.

No primeiro cabide dependuro

Aquela minha capa rutilante

Com que, por várias décadas, voei.

Paladino no cérebro e na alma,

Aposentei a máscara de ferro

Que minha identidade protegeu.

Arqueiro poderoso já não sou

E já apaguei as flamas comburentes

Que me envolviam todo o corpanzil.

 

No volver eu às velhas dimensões

(Três —e não mais — além do tempo, rio

Que carreia centúrias e batalhas),

Abro as cansadas pálpebras e vejo

Apenas o meu vulto, vacilando

Pela trilha dos sonhos em procura

De mais luz, de mais luz, tal como Goethe.

 

Ouro Preto, 7 de outubro de 2023.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

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Sereia

Sereia

J. A. Medeiros da Luz

 

Cuidei, ontem à noite, a tardas horas,

Que acesa haviam lá deixado

Uma das lâmpadas do quintal.

Qual nada, qual nada!

A chuva de cristalitos virtuais

Emanava de globo iluminado, glacial:

Era mesmo a lua, borrifando

Seu halo de magia sobre o piso,

De palor cadavérico, alvacento,

E sobre a grinalda etérea da folhagem,

A qual, toda vestida de brisa e de aromas,

Vai balouçando de leve no quintal.

E a lua como que

A pulverizar sua neblina,

Plena de sortilégios, num convite

Para imersão na imaterialidade

Daquele oceano mágico,

Onde se dissolve o escoar das horas

E se dissipam os ubíquos dissabores

Daquilo a que chamam o real...

Era a lua a espargir tão docemente

Um cantar flébil, sonoroso de sereia.

Era a lua.

 

Ouro Preto, 05 de junho de 2023.

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Deleção

Deleção

 J. A. Medeiros da Luz

 

Repiso velhos caminhos ensombrados.

Nesta árvore nodosa

De harto caule, imemorial,

— Diga-me, Olegária, onde

Se escondem os nossos nomes,

Tendo por envoltória, tatuado

Em baixo-relevo, aquele coração;

Simulacro lógico dos tais

Cartuchos hieroglíficos,

A encapsular os designativos

De avelhantados faraós?

 

Ao contrário dos granitos, todavia,

O súber recompôs-se no decurso

Das décadas, essas apagadoras de ilusões,

Regeneradoras de floemas,

Multiplicadoras de calos e vivências,

Arrasadoras de calombos e quinas e arestas.

 

E isto constatando, minha cara,

Na fugacidade do instante em que retorno

A esta mesma praça de recreio e suspiros,

Eu (o seu velho Faustino)

Pergunto —entre ecos do passado —,

Pergunto, indago, inquiro afinal:

Onde está você, doce Olegária?

Em qual bifurcação de vias

Bifurcamos as nossas trajetórias?

 

Ouro Preto, 07 de novembro de 2022.

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Brota un recuerdo algo lejano

Brota un recuerdo algo lejano

— por J. A. Medeiros da Luz

 

Em vilegiatura recentíssima

— De trabalho embora —, por planuras

Onde a primavera foi fruída,

Revivo (nesta fina membrana

Do agora, do fugidiço instante,

Do galope fuginte do tempo):

 

Um fretinir sem fim de cigarras

Leva-me a páginas da vida,

Amarelecidas pelos dias,

Nas quais me sorriam com delícia,

Uns olhos, uns lábios, um porvir.

 

O estridular desse pretérito

Inda insufla música no espírito,

A evolar perfumes de saudade,

Tingindo de afeto o arco-íris,

Mitigando a bílis dos caminhos

Dos rugosos dias do presente.

 

 

Ouro Preto, 22 de outubro de 2022.

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Sátrapa

Sátrapa

 por J. A. Medeiros da Luz

 

Sou zênite e nadir, a envergar

Meus punhos rendados, meu chapéu tricórnio

E bengala encastoada em ouro de Ofir;

E, contrapondo-se ao dourar

Das fivelas fagulhentas dos sapatos,

A corrente do relógio reluzindo,

Catenária tridimensional

No percurso amplo do trajeto

Entre botão e algibeira do colete,

Pando na convexidade de meu ventre.

 

Zênite e nadir sou, vice-rei

(Com minha fúlgida cabeleira empoada)

Desta amplíssima província,

Quase sem lindes, tão descomunal.

Das lunetas minhas (encaixadas

Nos flancos dos ossos nasais),

Se abaixo as pupilas, posso ver

O deambular arisco, cauteloso,

Dessa arraia-miúda que popula

Meus domínios continentais.

 

Do zênite ao nadir eu incorporo,

Açambarco o quanto de útil possa haver.

E ai da tonta borboleta que ousar

Lamber néctar em meus jardins

Sem a mais que requerida

Licença Vice-Régia para tal!

Pois, gerânios e nenúfares e ipês,

E rosas e petúnias — tudo é meu.

 

Na lonjura dos césares reais,

Sendo eu — sim, eu! — vice-rei por cá, 

Pertencem-me coisas e seres semoventes

Que acaso cruzem por meus olhos,

Neste vice-reino dadivoso, que, afinal,

Circunscreve o orbe

Entre o zênite e o nadir.

 

Ouro Preto, 7 de agosto de 2022.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br ou jaurelioluz@yahoo.com © J. A. M. Luz]

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CPP